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A Psique de Guilherme

Dissertações acerca de temas vários levadas a cabo por um adolescente com, nota-se, demasiado tempo nas mãos e opiniões, e assim... A Blogosfera vive!

A Psique de Guilherme

Dissertações acerca de temas vários levadas a cabo por um adolescente com, nota-se, demasiado tempo nas mãos e opiniões, e assim... A Blogosfera vive!

Retalhos da Vida de um Formidável Rapaz #1: "Jornal do Gui"

Avatar do autor Guilherme dos Santos Gomes, 30.01.26

Bem-vindos ao primeiro episódio do “Retalhos da Vida de um Formidável Rapaz”, a nova rubrica d’A Psique de Guilherme, em que eu me vou propor a resgatar e comentar criticamente alguns pedaços de audiovisual que eu fui criando ao longo da minha infância e precoce adolescência. Esta será uma rubrica com tempo limitado, justamente porque eu gravei um número limitado de vídeos, e dentro desses um número ainda menor de vídeos com interesse. Mas não pensemos no final, este é apenas o primeiro episódio, e vamos começar com uma excelente peça de jornalismo.

 

Excerto 1

Ele diz que é “mais um directo”, mas não se deixem enganar! Esta é A PRIMEIRÍSSIMA edição do Jornal do Gui. E eu sei que eu também digo que estou preparado para este directo, mas o próximo excerto está aqui justamente para desmentir esta afirmação.

 

Excerto 2

“Especial… especiais!”: nota-se a preparação, nota!

É uma decisão editorial estranha, a de começar um telejornal com duas convidadas, mas não vamos já perder a esperança, vamos ver o que é que nos espera. Quem são então essas convidadas?

 

Excerto 3

Ah! São as… pois, as do costume… hum… mas pronto, pode ser que nos surpreendam! Não vamos partir já numa de pessimismo! Elas são umas caixinhas de surpresas, vamos ver o que têm para nos oferecer! Devo é já deixar claro que se vai notar uma certa relação de dominância, logo desde a primeira aparição destas duas meninas.

 

Excerto 4

Sempre tão gentil, a minha irmã! A entrevista começa, e Guilherme Gomes, mostrando da raça que é feito, ataca logo as entrevistadas com questões acutilantes e pouco confortáveis, fazendo um jornalismo sem medo e do qual me orgulho!

 

Excerto 5 (questão)

Forte provocação! Mas o que responderiam as entrevistadas a esta pergunta tão directa e bastante desagradável? Será que elas se vão ficar? Não acredito! Vejamos o excerto completo.

 

 

Excerto 5 (completo)

Ah, OK! Optou por responder com franqueza e veracidade. É uma boa escolha!

Ainda tentando perceber se conseguiu, de facto, provocar algum tipo de desconforto às convidadas, Guilherme faz a pergunta da forma mais directa possível.

 

Excerto 6

Nem tudo podem ser vitórias… e aquele “hum” no final prova que esta não foi uma delas. Mas Guilherme não perde a compostura e torna a afirmar, de forma errónea e mentirosa, que tudo está sob controlo.

 

Excerto 9

Então diz-nos lá, Guilherme, quais são as ideias que nos trazes para esta Grande Entrevista mesmo a abrir o Telejornal!

 

Excerto 10

Hum… Giro! Cantar! Não, mas realmente é um boa ideia, iniciar o Jornal Nacional, não com tragédia, mas com… miséria!

Mas o Guilherme, para provar que, de facto, tem todas as suas ideias estruturadas, sugere à Alice que cante uma canção.

 

Excerto 11

Desculpa, não percebi!

 

Excerto 12

Deve estar a falar em código, ou assim… Podes repetir outra vez?

 

Excerto 12

Não, assim não chego lá! Não consegues trautear só um bocadinho?

 

Excerto 13

Ah! Estavas-te a referir a isto? *toca a canção* Podias mesmo ter dito que música era, não precisavas de ter falado em Russo, pá!

Para a Carolina, a sugestão foi outra, e só prova que eu sou masoquista desde pequenino.

 

Excerto 14

Tarefas distribuídas, comece o concerto! A primeira intérprete a apresentar a sua performance foi a Carolina. Vejamos então como é que ela se saiu.

 

Excerto 15

*tiro algodão dos ouvidos* Já passou? Ufa! Neste próximo excerto, volta-se a ver a Carolina a afirmar a sua dominância sobre a Alice através do bullying.

 

Excerto 16

Então agora a menina não sabe cantar muito? Porque é que não sabe cantar?! Deixa lá a menina cantar! Vais ver se ela não sabe cantar!

 

Excerto 17

Pronto, se calhar não sabe. Às vezes o bullying é justificado! Mas a Alice recompõe-se, limpa a garganta, e agora sim, canta a bela da canção!

 

Excerto 18

Bravo! Muito bem! Para além de nos apresentar uma versão inédita desta popular cantiga, com apenas dois versos, ainda nos poupa à tortura de a ouvir até ao final, algo que, infelizmente, não obtivemos por parte da Carolina.

Findo este belo momento, o Guilherme dá por si a perpetuar esta cultura do auto-reconhecimento e da troca de galhardetes entre famosos, oferecendo uma pequena lembrança às suas convidadas.

 

Excerto 19

Mas o que serão estas prendinhas? Carolina, mostra-nos aí a tua!

 

Excerto 20

Uma tiara e uma mala da Doutora Brinquedos! Uau! É pá, muito bom! Será que a Alice também vai receber uma prenda tão espectacular?

 

Excerto 21

Concordo contigo, Alice: wow! Um urso-de-peluche e um berço cor-de-rosa? É de perder a cabeça! Obrigado, Guilherme, por estas prendas tão significativas para nós!

Perto do fim, surgem alguns problemas técnicos que o Guilherme, sendo o profissional que é, dá a conhecer aos telespectadores, porque eles têm o direito de estar informados!

 

Excerto 22

Talvez para bem dos nossos pecados, o programa nunca chegou a voltar. Mas ficam as memórias destes valiosos 8 minutos e 33 segundos de pura televisão! Obrigado, Jornal do Gui!

 

Nunca pensei que me fossem ouvir a dizer isto, mas sucumbi às delícias do capitalismo e, na esperança de me transformar num criador de conteúdo *meter dois dedos à boca* como deve ser, criei um Patreon. Têm duas opções de subscrição: a “Modalidade Mínima Permitida”, que custa 3€ por mês; e a “Taxa para os ricos.”, que está por volta dos 10.000€. Vou colocar lá o vídeo do “Jornal do Gui” na íntegra, para quem quiser, mas não vale assim tanto a pena, então estejam quietinhos… Por hoje, é tudo. Até à próxima!

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Coluna Vertebral #4: "Pela arte"

Avatar do autor Guilherme dos Santos Gomes, 27.01.26

No último dia 18, a candidatura de Manuel João Vieira, o célebre "Candidato", conseguiu arrecadar mais de 60.000 votos, constituindo um resultado absolutamente histórico! O descontentamento da população tem levado ao crescimento da extrema-direita no nosso país, algo que eu considero, para além de extremamente perigoso, profundamente imbecil e inconsequente. Por esta razão, não consigo colocar a mobilização em torno da figura de Manuel João Vieira no mesmo saco do protesto, mas sim, tal como defendeu António Costa Santos, no saco do niilismo e do desencanto com a política.

Apesar do que eu fui lendo durante as semanas de campanha, o Candidato Vieira não é uma "arma do status quo" nem um "fantoche para roubar votos aos candidatos a sério", mas pura sátira, e a sátira é importantíssima, cada vez mais! E digo isto porque, francamente - e recorrendo ao vernáculo -, o Manuel João está-se a cagar para o que a opinião pública pensa dele e causar prurido ao status quo é a sua coisa favorita. A única mensagem que eu acho que este músico, artista plástico e professor quer deixar é: "Eu reuni as assinaturas necessárias, entrei nos boletins, e a minha candidatura deve ser levada tão a sério como as restantes, ou seja, zero.".

Esta é uma excelente mensagem que deveria ser recebida, interiorizada e colocada em prática, porque a verdade é que as coisas só têm a importância que nós lhes queremos dar. A sátira, enquanto objecto artístico, é uma dessas coisas. No entanto, outras matérias há que se consideram intrinsecamente relevantes, como se a sua importância começasse e se encerrasse em si mesmas. Na política, é fácil e recomendável fazer-se sátira; no que toca à cultura, parece que a aceitação é muito menor.

A cultura e a arte são parte integrante da identidade humana. Devem ser valorizadas, defendidas e dinamizadas. No entanto, o que se verifica é um crescente desinteresse por parte dos públicos em Museus, Galerias de Arte, Teatros, etc. Pode-se apontar como uma explicação possível e perfeitamente plausível para este fenómeno o advento das redes sociais ou mesmo a perda de poder de compra das famílias, não só no nosso país, mas um pouco por todo o Mundo. Eu arriscaria apontar uma outra razão – que, estou convencido, acaba por ter tanta ou mais importância que estas – para explicar este afastamento: a existência de um elitismo cultural e uma certa hostilidade simbólica em torno dos fenómenos culturais. O que eu verifico é que os espaços de cultura têm menos adesão do que o que se pretenderia porque não existe um sentimento de pertença por parte do público. O discurso elitista do “Não gostas porque não percebes” afasta mais as pessoas do que aquilo que as motiva a ir saber mais, porque cria uma insegurança e a ideia de que “Não vou, porque não quero parecer inculto”. Isto leva, inevitavelmente, a que se crie um círculo vicioso, com as instituições a culparem o público pelo desinteresse que elas próprias criaram.

Esta institucionalização da cultura e apropriação por parte das elites culturais, dos ditos “entendedores”, afasta as pessoas comuns, que não se revêem na linguagem e na teoria por eles usada, que deveria ter como função esclarecer, mas acaba por se transformar num instrumento de exclusão. Quando a arte deveria ser sobre o provocar de emoções e de sensações em quem a recebe, esta interpretação intelectual dogmática soa a arrogante e anti-artística. Quando um criador, em qualquer vertente artística sem excepção, lança uma obra ao Mundo, ela deixa de lhe pertencer. Qualquer intenção ou interpretação feita a priori torna-se irrelevante, porque agora são aqueles para quem criamos que têm de fazer o seu próprio juízo de valor. Excluir o público desta equação quando ele rejeita uma obra é tratá-lo como ignorante, é desmerecer a sua leitura e criar uma carapaça que torna o artista inatacável. É este sistema artístico institucional que apodrece e sabota a arte como um todo a partir de dentro. É esta auto-salvaguarda, esta protecção de si mesmo em detrimento do serviço ao público (que, torno a frisar, deveria ser a principal preocupação de um criador) que destrói a criação cultural e afasta ainda mais a elite do consumidor comum.

Quando o princípio de uma vertente artística vanguardista, como é o caso da arte contemporânea, é o mesmo que norteia o populismo – “Falem bem ou falem mal, o que interessa é que falem de mim” – a arte perde força. Quando uma obra é considerada válida só porque existe discurso à volta dela e não porque comunica algo real, ela transforma-se em algo oco, sem espinha dorsal. Esta intenção de chocar só por chocar não é, de maneira nenhuma, prova de sucesso artístico nem uma certificação de a criação tem valor real. É apenas, mais uma vez, o artista a colocar-se numa posição de imunidade: se o público gostar, ele ganha; se não gostar, ganha na mesma. Ser falado não é o mesmo que ser bom, e quem deve ter o poder de determinar se algo é bom, em última instância e como tenho vindo a defender, não é o criador nem os críticos enciclopédicos, mas o público a quem a obra é dada. O que acontece, muitas vezes, é o público projectar significado em obras vagas, porque aprendeu que isso é o esperado. Neste ponto, a interpretação passa a ser mais importante que a peça em si, a legitimidade passa a estar na autoridade de quem interpreta. Isto só contribui para que se perca valor e experiência estética, que é só o que está na génese da produção artística!

A verdade é que as coisas só têm a importância que nós lhes queremos dar. Nada é intrinsecamente importante ou valioso. Um diamante vale o que vale, porque nós queremos que ele valha; e não falemos de raridade ou unicidade porque existem coisas mais raras que um diamante que não valem absolutamente nada aos nossos olhos. Partir deste pressuposto é perigoso, e faz com que haja o risco de coisas se tornarem “intocáveis” por convenção social e não por mérito real. Infelizmente, a cultura tornou-se um desses territórios protegidos artificialmente e é justamente aqui que volto a resgatar o papel da sátira. A sátira é fundamental porque desmonta falsas hierarquias e expõe o ridículo do poder das elites. A sátira incomoda precisamente quem se leva demasiado a sério, porque tem medo de perder estatuto simbólico. E quando se percebe que esta cultura institucional tende a tolerar menos a sátira e a crítica do que a própria política, descartando-a como sinal de ignorância, isso é revelador do quão anti-democrático se tornou esse sítio em que todos deveriam ser bem-vindos.

Eu acho que deu para perceber que eu não escrevi este texto porque detesto a arte, mas exactamente pelo contrário. Eu tenho é medo que este sistema que se montou à volta dela – esse, sim, que eu odeio – acabe, mais tarde ou mais cedo, por contribuir para a sua destruição. A minha crítica não é estética, mas ética. A minha crítica existe para defender a dignidade do olhar comum, a dignidade do público. Porque, francamente, quem não tem em conta o papel do público nem sequer merece ter público. A arte é a procura do belo, a arte é uma fábrica de sensações, a arte é feita para o Mundo! Quando não é assim, a arte morre.

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Coluna Vertebral #3: "Noite Feliz..."

Avatar do autor Guilherme dos Santos Gomes, 09.12.25

Ghetto Reality” é um álbum de 1969, composto e interpretado por Nancy Dupree e um grupo de crianças de Rochester, Nova Iorque. Todo o álbum é uma mistura de expressão musical, educação e consciência social, mas há uma música que, para mim, se destaca: a faixa número 6, intitulada “I Want”. Através de uma letra que questiona “O que queres para o Natal?”, esta canção passa uma mensagem nítida de autoconfiança e reivindicação, expressando, em resposta, um desejo de liberdade e afirmação de direitos: “Quero a minha liberdade!/Quero-a agora!”.  No fundo, o objectivo de Nancy Dupree era, através da voz de uma criança, mostrar os problemas e as dificuldades que, neste caso, a comunidade afro-americana passava, adaptando isso ao contexto do Natal. Os tempos mudaram, mas há coisas que se mantêm. Por cá até pode não haver ghettos, pelo menos no sentido Americano, mas há na mesma zonas pobres, pessoas pobres que vivem com dificuldades, e para as quais o Natal é apenas mais um dia.

Segundo dados divulgados recentemente pelo INE, há mais de 2 milhões de pessoas em risco de pobreza ou exclusão social no nosso país. Isto significa que 18% da população vive apenas com o suficiente para sobreviver. A crise económica, o aumento do custo de vida, a inflação e a precariedade laboral agravam este risco, o que reforça a vulnerabilidade destas pessoas. Para além disso, há também quem viva, de facto, em situações de pobreza extrema, entre os quais os sem-abrigo e os desalojados, cujo número tem vindo a aumentar de forma alarmante: se, em 2009, havia 2.133 pessoas nesta condição, os dados mais recentes, de 2023, apontam para 13.128. Existem vários programas e iniciativas estatais de combate a esta realidade, como a “Estratégia Nacional para a Integração das Pessoas em Situação de Sem-Abrigo”, aprovada em 2024, e cujo foco principal é, não apenas alojamento temporário, mas a inclusão social; o programa “Housing First”, de 2023, que fornece suporte habitacional específico para pessoas em situação de sem-abrigo, facilitando o acesso direto a habitação estável, sem exigir condições prévias de “recuperação” ou “preparação”; e a “Lei de Bases da Habitação”, que prevê o direito à habitação e mecanismos de proteção para cidadãos em risco de despejo ou sem moradia. No entanto, apesar dos esforços e da boa-vontade, todos este programas são altamente falíveis, muito por causa do sistema altamente burocratizado que está por trás deles, mas também porque o foco está apenas em remediar e não em prevenir.

Ninguém nega que seja crucial retirar as pessoas que vivem na rua de lá, mas garantir que mais ninguém fica nessa condição acaba por ser tão ou mais importante que isso. Os problemas vêm da base: a crise na habitação, a falta de rendas acessíveis (porque não, Sr. Primeiro-Ministro, nem no Luxemburgo 2300€ seriam uma renda moderada…), a precariedade laboral, mas, acima de tudo, as dependências e os problemas de saúde mental. Os dados não mentem: entre 40% e 60% das pessoas em condição de sem-abrigo têm doenças mentais significativas. Porquê? Porque há uma falta de acompanhamento psiquiátrico, consultas insuficientes, medicação descontinuada e, quer queiramos, quer não, isto leva a uma marginalização destas pessoas, que não veem outra alternativa senão deambular por aí e tomar a rua como cama. A verdade é que, muitas vezes, o apoio a estas pessoas vem de organizações não-governamentais, como o Banco Alimentar Contra a Fome ou a Cruz Vermelha, cuja acção junto dos municípios, por exemplo, contribui para a criação de alojamentos temporários, centros de acolhimento e respostas sociais de emergência, mas tudo alicerçado na dedicação e no apoio de pessoas anónimas com almas caridosas e vontade de ajudar o próximo.

Não foi por acaso que escolhi a música “I Want” para introduzir este tema que agora trago a debate, nem o próprio tema em si, mas por causa da época do ano em que estamos. O Natal, sendo o festival do dispêndio em que se transformou, é também o período em que as pessoas tendem a fazer uma reflexão e a dedicar-se, mais do que em qualquer outra altura, ao altruísmo, à filantropia e à bela da solidariedade. Muitos dirão que é um acto de hipocrisia, uma vez que, no resto do ano, se descura este benevolente gene; outros dirão que representa uma vitória do Capitalismo, que é o principal responsável pelas situações de carência e pauperismo em que se encontram os sem-abrigo, mas que, ainda assim, sai a rir, uma vez que quem tenta “colmatar” essas lacunas são os restantes cidadãos que também por si vivem subjugados; mas o certo é que, na prática, estes actos, por menores que possam parecer, representam o Mundo inteiro para estas pessoas que nada têm. A parte triste é que, no dia 26, tudo volta à anormal normalidade de desumanizar aqueles a quem ontem se deitou a mão…

Só este ano, as cinco maiores autarquias do país gastaram mais de 2 milhões de euros nas decorações de Natal. Para além da estranheza que esta abolição temporária do princípio da laicidade do Estado me provoca, também acaba por ser revoltante perceber que há um tão grande investimento em luzes LED coloridas, mas não na garantia de que as pessoas que por elas vão ser iluminadas têm sequer o que comer quando chegar a Consoada. Porque sim, a verdade é que, se não fossem organizações como o já referido Banco Alimentar Contra a Fome, muitos teriam dificuldade em garantir a sua alimentação básica. Mas falemos disso: em Portugal, são desperdiçadas, anualmente, cerca de 2 milhões de toneladas de comida. Enquanto isto, no último ano, o Banco Alimentar foi capaz de, com a ajuda de 42.000 voluntários – espalhados por 2.000 superfícies comerciais -, angariar 27.448 toneladas de alimentos, que permitiram ajudar perto de 380.000 pessoas com carências alimentares comprovadas. No Natal, ainda se acentuam mais estas desigualdades, uma vez que a pressão do consumo, do simbolismo da ceia e da família impõe um distanciamento ainda maior entre quem come batatas com bacalhau e quem apenas precisa de um prato quente para se aquecer naquela noite fria.

Felizmente, existem cantinas sociais e instituições que promovem refeições solidárias nesta época, primando pela defesa da dignidade e da humanidade dos sem-abrigo, que têm ali um lugar onde ainda se conserva uma réstia do espírito de Natal que tanto se apregoa por aí. Fora da realidade sazonal, também existem, nas grandes cidades, redes de apoio aos sem-abrigo como, por exemplo, o Núcleo de Planeamento e Intervenção Sem Abrigo do Porto que, durante o ano de 2024, serviu cerca de 278.926 refeições a pessoas nesta situação, o que, mesmo sendo louvável e até emocionante, continua a não ser suficiente. Porque a caridade e os abrigos temporários são um bom começo, mas a experiência internacional vem mostrar que nenhum país conseguiu resolver o problema sem começar pelo investimento na habitações permanentes. Existem 723 mil casas vagas em Portugal, das quais só 485 mil estão em condições de ser habitadas. No entanto, apenas metade destas (236.927) estão no mercado para venda ou arrendamento, o que significa que há 248.534 casas vazias no nosso país que nem sequer representam uma possível solução para a crise sem precedentes que se vive na habitação. Aliado a isto, é bom que se comece a investir num apoio psiquiátrico de qualidade, em centros de reabilitação e reinserção, no controlo das rendas e na defesa do trabalho seguro e com dignidade (porque sim, Sr. Primeiro-Ministro, o Pacote Laboral está feito apenas e só para responder às vontades dos patrões): como eu defendia no início, é bom que se aposte, não só na resposta, mas na prevenção.

Para terminar, propunha só um exercício: quando os senhores leitores estiverem sentados à mesa, na Ceia de Natal, reflitam sobre este assunto. Olhem pela janela, vejam o frio que se faz sentir na rua, e apercebam-se do quão sortudos são e do quão incerta a lotaria da vida pode ser, porque ninguém está livre de, no próximo Natal, estar na posição daqueles que hoje adormecem alumiados pela Lua e pelos piscas vermelhos e dourados das árvores da Avenida, enquanto escutam, nos altifalantes públicos, a melancólica melodia de um “Silent Night”. E, assim, pode ser que a nossa empatia não seja descartada no dia seguinte, juntamente com o papel-de-embrulho e as crenças no Sr. Noel…

Feliz Natal!

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Coluna Vertebral #2: "O melhor do Mundo são os velhinhos"

Avatar do autor Guilherme dos Santos Gomes, 21.11.25

Em 1697, o afamado escritor e poeta Francês Charles Perrault publicou, num volume intitulado “Histórias ou Contos do Tempo Passado com Moralidades” (mas que ficou mais conhecido como “Contos da Mãe Gansa”), a popular fábula da Capuchinho Vermelho. Remontando ao século X, esta conta-nos a história de uma menina que vai, pelo meio da floresta, levar uma cesta com bolo e vinho à sua avó, que vive sozinha e está muito doente. Apesar do que nos viria a ser mostrado no filme de 2005 “A Verdadeira História do Capuchinho Vermelho”, em que a Avózinha Creolina – brilhantemente dobrada pela Simone de Oliveira – era uma durona, a verdade é que, na maior parte dos casos, os idosos que vivem sozinhos e em situações de isolamento passam muitas dificuldades. Infelizmente, o descarte e o abandono da 3ª idade acontecem com muita frequência no nosso país, dito de brandos costumes e muito respeitinho, mas que se desliga de 25% da população, a partir do momento em que esta deixa de “ser útil”.

Os dados dos últimos “Censos Sénior” da GNR, divulgados esta semana, apontam para 43.074 idosos a viver nestas condições, estando mais de ¼ dos casos concentrados nos dois distritos com maior número de ocorrências, respectivamente a Guarda, com 5.852, e Vila Real, com 5.167. Pode parecer um número residual, tendo em conta que representa apenas 1,7% do universo sénior Português, mas não deixa de ser altamente preocupante, ainda mais tendo em conta que a GNR faz questão de realçar que muitos destes idosos são extremamente vulneráveis, demonstrando “fragilidades físicas, psicológicas ou sociais que podem colocar em causa a sua segurança”. Só este ano, entre Janeiro e Setembro, foram registadas 1.942 ocorrências de burlas, 4.964 furtos e 327 roubos à população idosa, o que representa mais uma das razões que leva a GNR a apostar mais e mais neste tipo de iniciativas. Para muitas destas pessoas – porque sim, não nos esqueçamos que estamos a falar de pessoas reais – estes militares são a única companhia, o único contacto humano que têm em semanas ou meses. Para colocar as coisas ainda mais em perspectiva, vale a pena ir buscar os dados da primeira edição desta iniciativa, de 2011, em que foram sinalizados apenas 15.596 idosos a viver sozinhos ou isolados. Em 14 anos, o número de ocorrências triplicou, e só desde o ano passado são mais 201 casos. Mas o que é que explica este aumento exponencial das situações de abandono?

Uma das razões pode ser o envelhecimento demográfico acelerado. Portugal é, neste momento, o segundo país mais envelhecido da União Europeia, com uma idade média de 46,8 anos, ficando apenas atrás da Itália, com 48. Isto leva, inevitavelmente, a que se verifique uma discrepância entre o número de idosos a precisar de cuidados permanentes e as pessoas disponíveis para lhos prestar. Os últimos dados, referentes a 2024, apontam para um rácio de 39 idosos por cada 100 pessoas em idade activa, havendo tendência para aumentar nos próximos anos, projectando-se que, em 2100, este número deva estar algures entre os 70 e os 86.

A desertificação do interior também é um factor determinante neste fenómeno, havendo dados que mostram que, apesar de 80% do território nacional ser rural, apenas 21% da população reside nele. Nos últimos 30 anos, estas zonas perderam mais de 40% da população, existindo municípios com uma densidade inferior a 10 habitantes por quilómetro quadrado, muito por causa deste êxodo em larga escala, principalmente entre as camadas jovens, que procuram uma maior qualidade de vida, mais oportunidades de emprego e melhores acessibilidades. Por estas razões, uma grande parte dos habitantes destas regiões são idosos, que, muitas vezes, nasceram e viveram toda a vida na mesma aldeia ou freguesia, têm uma forte ligação emocional a esta, e têm medo que, ao ir para um centro urbano, possam não se conseguir adaptar, perder a sua autonomia ou ficarem dependentes de estranhos. O resultado disto são, muitas vezes, as tais situações de solidão e isolamento.

Um terceiro motivo que pode justificar estes números é a progressiva sobrecarga das classes trabalhadoras. Uma parte significativa dos idosos em situações de dependência não está em lares ou centros-de-dia, está sim dependente de cuidadores informais, normalmente filhos ou familiares próximos, que lhes prestam os cuidados necessários. O Instituto da Segurança Social reconhece 14.941 cuidadores informais – apesar da Associação Nacional de Cuidadores Informais falar em 827 mil -, com uma idade média de 58 anos, ou seja, ainda em idade activa. Isto leva a que estas pessoas tenham de gerir o seu emprego, a sua vida pessoal, muitas vezes a educação dos filhos, tudo isto para além do cuidado permanente a estes idosos. Por isso, situações de sobrecarga emocional, física e de saúde mental não são raras, com um estudo da European Journal of Public Health a revelar que 54,3% dos cuidadores não se sentem apoiados, e um outro da BMC Geriatrics a apontar que cuidar de alguém em casa está fortemente associado a problemas mentais, havendo uma probabilidade 60,9% maior de estas pessoas terem “quatro ou mais sintomas depressivos” do que não cuidadores. A mera perspectiva desta “perda de liberdade” faz com que muitas pessoas escolham simplesmente não prestar quaisquer cuidados aos idosos, potenciando situações de abandono puro e duro.

A solidão e o isolamento social têm consequências profundas para os idosos, afetando a sua saúde física, mental e até a longevidade. Está documentada a relação entre o isolamento e o aumento do risco de doenças do foro cardiovascular, o enfraquecimento do sistema imunológico, o declínio funcional e a perda de mobilidade. As consequências mentais são ainda mais violentas, relatando-se que estes idosos têm baixa autoestima, uma sensação de abandono, depressão e ansiedade (cerca de 40% dos idosos isolados relatam sintomas depressivos), para além de terem uma propensão 2,5 vezes maior de desenvolver doenças como o alzheimer ou a demência do que idosos socialmente activos. Como se isto tudo não bastasse, ainda estão suscetíveis à perda de redes de apoio - o que aumenta o risco de acidentes domésticos sem socorro, negligência médica ou má nutrição – e à perda de participação social, o que reforça ainda mais o ciclo do isolamento.

A questão que se impõe é “o que fazer?”: existem várias associações e instituições que têm programas e promovem iniciativas com vista a combater a solidão e o isolamento dos idosos, integrando-os em actividades sociais e culturais, tão bem como apoio emocional, como é o caso da linha telefónica SOSolidão (criada pela Fundação Bissaya Barreto), que “ajuda idosos em situação de isolamento social ou geográfico, promovendo companhia e partilha”. Estes grupos contribuem positivamente junto da 3ª idade, proporcionando-lhes companhia, segurança e, acima de tudo, um propósito. Eu estou convencido que o suporte e o apoio aos idosos se deveria pautar por uma ideia de gratidão e de retribuição. Os idosos de hoje foram ontem os alicerces da nossa vida em sociedade; foram pais, avós, irmãos, amigos, colegas. Cuidar deles no Outono da sua vida nada mais deveria ser do que um agradecimento pelo papel que eles desempenharam na Primavera da nossa. Porque não nos devemos esquecer de quem vão ser os idosos de amanhã.

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Coluna Vertebral #1: "O Cheio, o Meio e o Feio"

Avatar do autor Guilherme dos Santos Gomes, 07.11.25

A pouco mais de dois meses da eleição do próximo Presidente da República Portuguesa, penso que será possível fazer uma análise inicial das diferentes candidaturas que estão a enfeitar o panorama político do nosso país. Se, há dez anos, havia um candidato que agradava à maioria dos Portugueses – e que, surgindo sempre com mais de 50% das intenções de voto nas sondagens, acabou mesmo por vencer -, as actuais eleições apresentam-nos uma realidade completamente distinta, com a opinião pública fracturada e várias candidaturas com real potencial para se sagrarem vencedoras. Passo, portanto, a apresentar os meus pareceres relativamente ao acto eleitoral que se avizinha, resumidos numa tríade que idealizei: “O Cheio, o Meio e o Feio”.

O “Cheio” é, obviamente, André Ventura. Sendo o mais polemista dos candidatos, a sua posição nas sondagens tem oscilado entre o segundo e o quarto lugar, mas a mera presença de Ventura em mais esta eleição apenas comprova que ele está cheio de si. Em todas as campanhas promovidas pelo CHEGA, das Legislativas, às Europeias, às Autárquicas e, agora, às Presidenciais, Ventura surge como figura central e essencial para o sucesso e crescimento do partido. Sem ele no comando, a extrema-direita Portuguesa não tem nada, mas esta realidade permite apenas comprovar aquilo que já se sabe: André Ventura é um autocrata de peito cheio, mas que também já começa a encher a paciência de parte do núcleo duro do seu partido. Refiro-me a Gabriel Mithá Ribeiro, antigo ideólogo e intelectual do CHEGA, que recentemente abandonou o partido após a perspicaz descoberta de que Ventura é “um líder narcísico incurável”. Apesar de tudo, André Ventura afirmou que “Não desejei ser candidato nestas eleições” e que “Durante os últimos meses procurei garantir que o CHEGA tinha um candidato à altura das suas aspirações […]”, mas “Falhei em encontrar essa alternativa”, algo que só prova que, de facto, não existe concorrência dentro do partido.

Ao “Meio” atribuo vários significados: refere-se aos dois candidatos que, repetidamente, surgem em segundo e terceiro lugar nas diversas sondagens que vão sendo divulgadas (logo, o “meio” da amostra que selecionei); ao seu posicionamento político, num espectro esquerda-direita - António José Seguro no centro-esquerda e Luís Marques Mendes no centro-direita; e, num tom mais jocoso, constitui uma maldosa piada com a altura de Marques Mendes. No entanto, este conceito de “meio” também tem que ver – e foi esta a minha principal motivação para a escolha deste termo – com os esforços destes dois proponentes ao cargo de mais alto magistrado da nação por, nesta campanha eleitoral, negarem toda uma carreira política e lutarem pelo lugar de “candidato mais central, mais moderado e mais mediano”.

Do centro-direita para a esquerda vai Luís Marques Mendes, que tentou adoptar a estratégia do actual Presidente e passar vários anos a fazer comentário político ao Domingo à noite, numa tentativa de reunir consenso entre o público Português, algo que, sem o carisma de Marcelo, não se revelou a coisa mais simples do Mundo, uma vez que nem dentro do próprio PSD é uma figura muito consensual. Quem o diz é Rui Rio, antigo líder do partido e actual mandatário da candidatura de Gouveia e Melo, que acusa Marques Mendes de "tacticismo" e falta de "credibilidade". No entanto, não é o único, havendo uma facção do partido, na qual se inclui, por exemplo, o antigo Primeiro-Ministro Pedro Passos Coelho, que, e passo a citar, “não se sente amarrad[a]” à obrigação de apoiar este candidato.

Para apaziguar um pouco os ânimos, e por não encontrar o apoio que desejava na casa-mãe, Marques Mendes usa a sua experiência política como principal mote desta campanha, afirmando que "[este] tempo não recomenda política sem experiência", para além de piscar o olho ao eleitorado socialista, quando refere, por exemplo, a propósito do apoio de Nuno Morais Sarmento à sua candidatura, os seus “muitos apoios, mais à direita ou mais no centro-esquerda” com que se vão “fazendo uma candidatura”.

Em sentido contrário, vem António José Seguro, que descreve a sua candidatura como “suprapartidária”, ou seja, como estando para além dos partidos, mas tendo em conta as suas intervenções nas últimas semanas, arriscaria mesmo dizer que é uma candidatura “partidofóbica” ou, mais especificamente, “partidosociolistofóbica”. Isto porque, após a confirmação do apoio à sua candidatura por parte do PS – partido onde, vale lembrar, ocupou as funções de Presidente da JS, secretário-geral, deputado da Assembleia da República, eurodeputado e Ministro Adjunto -, António José Seguro pareceu pouco animado e até desvalorizou esta tomada de decisão do seu antigo partido: “Eu estou muito grato, de um partido fundador da democracia Portuguesa ter expressado o apoio à minha candidatura. […] Esse apoio é um apoio que se soma a todos os apoios que, desde há quatro meses, se têm vindo a juntar a esta candidatura.”. Curiosamente, mesmo José Luís Carneiro, actual secretário-geral do Partido Socialista, mostrou pouco ânimo aquando deste anúncio, tendo dito que “Só a resposta do socialismo democrático […] poderá responder às exigências fundamentais dos valores que aqui estamos a defender. E quem representa esse campo […] é, no actual momento, o António José Seguro.”, dando espaço à interpretação de que, havendo algum candidato que melhor se enquadrasse, o PS já não daria o seu apoio a Seguro.

Seguro nega taxativamente que a sua candidatura esteja sequer no espectro político e ideológico, fazendo ainda questão de reforçar que esta se dirige “a todos os democratas, a todos os humanistas, a todos os progressistas”, ou seja, basicamente a toda a gente. Isto leva a que políticos à esquerda e à direita olhem para o seu modus operandi com desconfiança, como é o caso de António Filipe, candidato presidencial apoiado pelo PCP, que afirmou, numa entrevista à Agência Lusa, que “Se o objetivo é desistências a favor de um candidato de esquerda, eu pergunto: qual é o outro candidato? Tenho muito respeito pelo doutor António José Seguro […], mas não considero que tenha um posicionamento de esquerda”.

Para o fim fica o “Feio”, posição especialmente reservada para o Almirante Gouveia e Melo, mas não pela sua aparência física. A sensação que eu tenho é a de que Gouveia e Melo levou esta candidatura para a frente – mesmo após ter negado, várias vezes, a possibilidade de se envolver na vida política, como em 2021, com a célebre frase “Se isso acontecer, dêem-me uma corda para me enforcar” – com uma certa ilusão de que poderia ser o próximo General Ramalho Eanes. Mas o nosso primeiro Presidente democraticamente eleito tinha algo que o Almirante não tem: sobriedade discursiva, integridade e o respeito do povo Português. Em verdade, Gouveia e Melo teve o povo Português do seu lado, aquando da sua exemplar actuação no contexto da pandemia do COVID-19, em que liderou a task-force responsável pelo plano de vacinação que, de resto, foi um sucesso. Mas é justamente daqui que surge a designação de “Feio”, porque o que se verificou foi um fenómeno de “Patinho Feio Invertido”, em que Gouveia e Melo começa como cisne, mas gradualmente vai-se transformando num estranho e desinteressante patinho.

Apesar desta grande quebra na sua popularidade – motivada, em grande parte, pela polémica em que esteve envolvido quando “humilhou” publicamente 11 inferiores hierárquicos que desobedeceram às suas ordens, por questões de segurança -, Gouveia e Melo continua a ser apontado como o principal candidato e mais provável vencedor das eleições do ano que vem. No entanto, o seu posicionamento político pouco claro, as sucessivas tentativas de conciliação dos diferentes blocos ideológicos em torno da sua figura e a falta de uma estrutura partidária e de experiência política têm-no feito cair imenso nas sondagens, passando, por exemplo, de ter 21 pontos percentuais de vantagem em relação a Marques Mendes, em Março; a estar, neste momento, num empate técnico com as candidaturas do “Meio”. Começa a ficar claro que os eleitores querem algo mais que um mero gestor em tempos de crise.

Apenas o tempo conseguirá clarificar o rumo que estas eleições tomarão e, desta vez, os prognósticos só se conseguem mesmo fazer no final. Num contexto social e político tão incerto, a ida a uma segunda volta, que tanto se tem vaticinado, parece mais inevitável que nunca. Mas tudo isso dependerá do desempenho dos diversos candidatos (não só do Cheio, do Meio e do Feio), e das voltas que a tômbola eleitoral der… porque, no fim, quem decide o seu destino ainda é mesmo o povo!

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Brainstorm

Avatar do autor Guilherme dos Santos Gomes, 11.07.25

Capítulo I – O Concílio:

 

Guilherme 1 – OK, pessoal, precisamos de pensar em ideias para o especial do aniversário da Psique. Algum de vocês tem sugestões?

Guilherme 2 – Eu estava a pensar numa coisa do género biopic, um especial de 2 horas sobre a escrita do primeiro texto da Psique, ligeiramente dramatizado para parecer interessante.

Guilherme 1 – Não me parece viável fazer isso agora. Ainda temos de nos desenvencilhar das curtas de terror, isso é uma coisa muito elaborada para o tempo que temos. Tu, alguma coisa?

Guilherme 3 – Porque é que não gravas um álbum conceptual sobre a jornada dos últimos três anos? Eu tenho um conhecido que te pode ajudar com os arranjos das músicas, se quiseres!

Guilherme 1 – De novo, é complicado estarmos a fazer isso agora! Não sei até que ponto é que conseguiria escrever 10 ou 12 músicas sobre estar sentado à secretária a escrever porcaria à pressão! E tu?

Guilherme 4 – Eu ainda acho que devias fazer um espectáculo no Teatro, mas tu não queres!

Guilherme 2 – Podemos sempre fazer um bolo gigante, meter-te lá dentro vestido de bailarina, e quando acabarmos de cantar os parabéns, tcharam!

Guilherme 4 – Tens a certeza que não queres ir para o Teatro?

Guilherme 1 – Porra, vocês estão a ouvir o que estão a dizer? A Psique está-se a transformar numa máquina de produção de conteúdo altamente comercializável, com a agravante de não ter público nem rendimento que o justifique! Parece-vos bem estarmo-nos a atirar de cabeça para projectos tão impessoais, tão rebuscados, tão estranhos? Onde é que está a genuinidade? Onde vão os dias em que era só eu, sentado numa cadeira a dizer disparates para uma câmara? Agora somos só sketches, curtas-metragens e porcarias dessas, é? Isto é o 3º aniversário do blogue que um adolescente com demasiado tempo nas mãos criou para não estar sempre a comer e a ver vídeos na Internet! Não vale a pena perder tempo com tretas, que isto não significa absolutamente nada! Sinceramente, é mesmo pelo caminho da futilidade que estamos a pensar em ir?

(Os três respondem afirmativamente, olhando uns para os outros.)

Guilherme 1 – Pronto, então vamos a isso!

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Capítulo II – O Encontro:

 

(Guilherme dorme um sono descansado na sua cama. Acorda com flashes de luz. Olha, e é um alienígena que o está a visitar. Guilherme tenta gritar, mas a sua voz é-lhe retirada pelo visitante.)

Alien – Agora que estás calado, posso-me apresentar. Olá, eu sou a entidade 1172 do planeta Frlhumbnhec-36X. Silenciei-te para não chamares a atenção de outros seres terrestres com quem possas partilhar casa. Comprometes-te a falar num volume aceitável? Se negares, serei obrigado a eliminar-te.

(Guilherme acena positivamente.)

Alien – Ainda bem que chegamos a um entendimento!

Gui – Hum… a que se deve esta visita inesperada? Vou ser abduzido, ou coisa do género?

Alien – Não. Apenas fui enviado pelo Tribunal Intergaláctico para expor a tua hipocrisia e fraqueza emocional.

Gui – Com que finalidade?

Alien – Com a finalidade de mostrar às pessoas que tu não és a pessoa fria e calculista que demonstras ser no teu blogue e canal de YouTube!

Gui – Esta é a ideia mais estúpida que eu já ouvi! Quem é que escreveu isto?

Alien – Foste tu, Guilherme! Tudo isto é fruto da tua mente perturbada e extremamente pequenina!

Gui – OK, mesmo assim, eu só dou a parte fraca se quiser! Não me podes obrigar.

Alien – Pensei que isto ia ser mais fácil, Guilherme. (estala os dedos)

Gui – Eu, Guilherme Gomes, sou um ser emocionalmente instável, incapaz de dizer aquilo que verdadeiramente sinto com medo do que as pessoas possam pensar e de não conseguir recuperar a falsa identidade que idealizei para mim mesmo; tenho um ego extremamente frágil, e refugio-me no humor para ter validação imediata e constante por parte das pessoas, mesmo sabendo que lido mal com elogios, por não saber reagir à forma como eles me desarmam; em discussões, tenho a tendência de falar de forma condescendente e com uma falsa superioridade moral porque só dessa forma é que consigo sentir que “venço” alguma vez na vida; as pessoas pensam que eu escrevo bem, mas na realidade só gosto mesmo é de juntar palavras que me soam engraçadas, às vezes sem saber o seu significado, porque no fundo sou uma criança presa no corpo de um adulto; tenho medo que um dia todos percebam a farsa que verdadeiramente sou, e que a capa do “menino prodígio” caia, para revelar uma pequena alma assustada com a própria existência e com a ideia de ter que crescer; sou gordo, não sou particularmente bonito e, francamente, podia saber cantar melhor.

(acorda do transe)

Gui – O que aconteceu?

Alien – Aconteceu que tu abriste o coração ao Mundo. Já te sentes mais leve?

Gui – Não, por acaso não. Acho que ainda fiquei mais deprimido do que aquilo que costumo estar!

Alien – Não faz mal. Afinal de contas, tudo isto não passou de um producto da tua perturbada mente, lembras-te?

Gui – Como?

(Guilherme acorda, meio confuso. Olha em volta.)

Gui – Ai, afinal foi tudo um sonho!

(Volta-se a deitar. Pisca os olhos. Surge o extraterrestre, deitado com ele.)

Alien – Dorme bem!

(Guilherme levanta-se e grita. Fim!)

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Capítulo III – O Fundo:

 

(Câmara escondida. Guilherme fala ao telemóvel.)

Guilherme – Eu estou a pensar em desistir. Não vejo nenhum caminho para fora disto, acho que já não dou mais! Ainda ontem fui visitado por um alienígena, e apercebi-me do quão ridículo me tornei. Não acho que valha a pena continuar a apostar nesta mentira, sinceramente! A Psique já deu o que tinha a dar, eu já dei o que tinha a dar… francamente, uma reforma aos 19 não me parece nada má ideia! Não, esquece, não vou fazer um vídeo desses, a despedir-me do YouTube. Já não estamos em 2018, poupa-me! Saio de fininho, e também ninguém vai dar conta. Eu estou com o quê? Pouco mais de 300 subscritores? Estou a trabalhar para um nicho! (olha para o lado e vê a câmara) Espera aí só um bocadinho. O que caraças é isto? Porra, e está a gravar! (desliga a câmara)

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Capítulo IV – A Melancolia:

 

(Guilherme está a mexer no computador. Corta para uma compilação de momentos passados d’A Psique. Quando acaba, Guilherme apercebe-se de que, afinal, gosta daquilo.)

Guilherme – Ah, porra! Eu não sei viver sem isto, não adianta!

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Capítulo V – Epílogo:

 

(Pessoas cantam os parabéns à Psique. Guilherme sorri. Fim!)

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Solstício de Animália (ou "Como Estoirar Um Dinheirão de Forma Imbecil")

Avatar do autor Guilherme dos Santos Gomes, 27.05.25

Estamos em plena época do “Já se notam os dias”, período de preparação dos Solstícios que sucede àquela imbecilidade da mudança da hora (a hora de Inverno é superior, sem discussão!). Com as temperaturas a subir e os dias a aumentar, começa a saber bem aproveitar os fins de tarde para relaxar e apanhar um pouco de ar na venta, debruçados nas janelas do nosso lar, como fazia a Carochinha, no popular conto popular. Desta maneira nada subtil, passo então para o tema desta crónica: o festival de cocó que é este pedaço do nosso imaginário da infância.

A história começa com a Carochinha, que é uma senhora muito pobre, a varrer a sua cozinha. Ora, qual não é o seu espanto quando encontra – imaginem só – uma moeda de ouro! Logo aqui se põe a primeira questão: de onde vem esta moeda de ouro? Porque vale lembrar que esta é a casa onde ela vive pauperrimamente, não um casarão onde faz serviço de mulher-a-dias. Também não é feita nenhuma referência ao facto de a Carochinha viver numa vivenda arrendada, o que me leva a acreditar que seja propriedade sua (até porque seria insustentável para ela ter de pagar uma renda nos dias de hoje, com o seu miserável salário), ou seja, a moeda é gerada espontaneamente no chão da sua kitchenette. Alguns poderão dizer que é obra do Divino; eu cá acho só que é obra de um mau argumentista…

Com esta moeda, ao invés de investir em Bitcoin (que ouvi dizer que agora vale a pena), a Carochinha foi comprar um vestido de noiva. Agora, é o seguinte: uma moeda de 1 euro (que vou usar como referência) tem um diâmetro de 23,25mm e uma altura de 2,33mm. Feitas as contas, possui um volume de aproximadamente 990mm³. Uma moeda de ouro 24K com as mesmas dimensões pesaria, mais coisa menos coisa, 19,13 gramas, o que se refletiria num valor de 1798,81€ (valor de mercado à data de 27 de Maio de 2025), o que lhe chegaria para comprar o dito vestido e pouco mais. Ou seja, a D. Carocha, sendo confrontada com uma economia pessoal em ruínas, decide, como é natural, estoirar todo o dinheiro que possui na compra de uma peça de roupa de luxo que só usará numa ocasião muito específica, que também não será a mais indicada para este momento particular da sua vida! Mas ela lá comprou o raio do vestido e foi-se pôr debruçada na sua janela a tentar angariar maridos. O critério que ela estabeleceu para a escolha do parceiro indicado foram os seus dotes para o canto… galdéria!

O primeiro gajo a aparecer foi o boi. Com um passado amoroso não muito agradável, possuindo já um valente par de cornos, lá cantou qualquer coisita. Escusado será dizer que ela o rejeitou, pois a voz dele não lhe agradou. O facto de ele ter um pénis 140 vezes maior que ela? Pouco importa. Agora, não saber dar um Fá é que não!

De seguida, aparece um burro. A mesma situação, lá faz um “em ó, em ó, em ó”, não lhe agrada, rua com ele. Isto repete-se mais quatro vezes, com um porco, um cão, um gato e um galo… e não vou mentir, já estava a começar a ficar algo enfadado com esta repetição da mesma coisa vezes e vezes sem conta. Nota-se claramente que quiseram poupar dinheiro no departamento da escrita, mas uma coisa destas sem um bom guião não funciona lá muito bem. Alguém com experiência teria metido aqui uma montagem, mas pronto, não vale a pena estarmos a perder tempo com minudências!

Quando eu julgava que tudo estava perdido, surgiu o magnânimo João Ratão! Sendo o primeiro pretendente que se apresentou com um nome próprio, foi obviamente o escolhido (o que, de novo, revela uma escrita preguiçosa). Por um lado, ainda bem para a Carocha, porque este foi, de todos, o candidato mais anatomicamente compatível com ela (mesmo sendo ainda 14 vezes maior); por outro, dá-me a impressão de que ela foi muito parcial na selecção dos dotes vocais do seu futuro cara-metade, porque eu continuo a achar o cacarejar de um galo mais aprazível que o chiar de um imundo roedor… mas isto sou eu!

Lá se fez o casamento, tudo muito lindo, e eles foram felizes para sempre… ou melhor, acho que foram. Não há qualquer referência a episódios da sua vida conjugal nem nada do género, o que teria sido enriquecedor para a história e teria contribuído para que os leitores criassem alguma empatia para com o João, de forma que o clímax fosse mais intenso e emocional, mas, mais uma vez, recorreu-se a atalhos narrativos, empobrecendo-se assim a história. Mas falava eu no tal clímax: certo Domingo, a Carochinha foi à missa e pediu ao seu maridão que ficasse a tomar conta do caldo que estava ao lume, mas com cuidado! O Joca disse-lhe para estar descansada, e ela foi à vida dela. Ora, os homens são um bicho muito teimoso (mesmo quando são ratos), portanto é óbvio que o João foi dar uma “vista de olhos” à panela, caiu, e faleceu, dando um alívio enorme à Carocha, que provavelmente herdou os seus pertences.

E a história é esta. Chegado ao fim, a questão que me fica é: qual a moral desta fábula? Provavelmente, “se fores um mamífero de pequeno porte que está casado com um insecto, e esse insecto te disser para teres cuidado com uma panela de sopa que está ao lume, o ideal é fazeres o que ele te diz”. Ou então isto foi um conto encomendado pelo Vaticano para mostrar às crianças a importância de ir à missa, pois se o João Ratão tivesse acompanhado a esposa, possivelmente ainda estaria entre nós. Bem jogado, Igreja Católica! Castiga bem esses hereges (isto tem ainda mais graça porque eu sou ateu)! Até à próxima!

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Dialectos de Acomia

Avatar do autor Guilherme dos Santos Gomes, 10.05.25

Olá, amigos! Como vai essa vida? Extremamente turbulenta e coiso e tal? Ainda bem! Estava no banho, no outro dia, e ocorreu-me a questão de “Como é que os carecas tomam banho?”. Isto no sentido do cuidado capilar (ou da sua inexistência). Porque eu não creio que seja necessário qualquer tipo de champú para o couro cabeludo, acho que aquilo com um bocado de gel-de-banho passa bem, mas também não estou inteiramente convencido de que não exista qualquer tipo de producto especializado para esse fim. Se de facto se confirmar a ideia de que vai tudo a eito com uma esponjinha, então ser careca compensa, em termos financeiros, e talvez ponha essa hipótese em cima da mesa. Caso contrário, não. Então fui pesquisar. E, meus amigos, existe, de facto, uma miríade de productos para aplicar na careca de um careca! Desde limpadores do escalpe, até esfoliantes, productos para barbear a cabeça, bálsamos nutritivos, e mesmo loções matificantes (que servem, como o próprio nome indica, para embaçar a careca de um careca – o que, de facto, era uma preocupação gigantesca, até porque acaba por ser mais producente investir na redução do brilho do calvo cocuruto do que em pálas anti-encadeamento. Bem jogado, senhores da La Roche-Posay!), os mona-lisa têm à sua disposição um vasto leque de artigos para nutrir e sustentar a sua árida pinha.

No meio desta profunda reflexão, apercebi-me, mais uma vez, do quão assombrosa é a perspectiva da calvície para o sexo masculino. Porque eu estimo – e muito! – a minha farfalhuda penugem, e a mera sugestão de, potencialmente, vir a ficar sem ela, tira-me noites de sono! Sem desprimor para os nossos camaradas calvos, que lutam diariamente contra este flagelo, a verdade é que um homem com cabelo é um homem com classe. E eu quero ser um grisalho com classe! Além de que as cabeças raspadas estão muitas vezes relacionadas com certos grupos e facções que condeno, repudio e com as quais não faço a mínima questão de ser associado, como é o caso dos “Skinhead”.

Estes absolutos mentecaptos (vulgo “grandes bestas”), que em Portugal se fazem representar, principalmente, pelo grupo neonazi 1143, uma facção da Juve Leo, têm a tendência de rapar a cabeça, segundo a Internet, “para não serem facilmente identificados pela polícia”, o que até acaba por nem ser muito inteligente, que assim os polícias já sabem que é para prender os meninos que não têm cabelo. Se querem saber a minha opinião, eu acho que é pura e simplesmente para intimidar as pessoas, porque sempre ouvi dizer que, aparando, se fica com a impressão de que é maior… Para se ver a relevância que este pormenor estético tem na vida destes grupos, para além da óbvia referência no termo que os descreve, há também duas passagens na página de Wikipédia dos 1143 sobre isto da calvez: a primeira é a alcunha que era dada a estes pacóvios dentro da Juve Leo, “os carecas”, e a segunda a uma situação em Alverca em que um jovem negro com uma camisola do Sporting foi pontapeado por um, lá está, “careca”.

No meio desta lamaceira toda, surgem também os monges budistas, outro monte de carecas. Desta vez, a “tonsura” – ou raspagem da cabeça – representa a abdicação da identidade social e do apego aos prazeres do mundo. Ora, a impressão que me dá é a de que a tendência de um grupo em repetir uma certa prática, e entrando isso no mainstream, acaba por levar à criação de uma identidade própria, que é justamente aquilo de que eles querem abdicar. Mas essa também é uma tarefa ingrata, porque mesmo que cada um deles usasse um corte de cabelo diferente, passariam invariavelmente a ser conhecidos como os “Gadelhudos do Tibete”, e teriam de seguir os ensinamentos não do Buda, mas do Jubas, que é quem? A mascote do Sporting! É ou não é espectacular?

O que eu acho que se impunha neste momento era a criação de uma modalidade (que eu sempre ouvi dizer que o Sporting é bom é nas modalidades) - que até se podia chamar “Calvoeira”… ou “Carecaté”… ou mesmo “Ailiso”… as possibilidades são infinitas! – em que se punha, de um lado, skinheads, e do outro, monges budistas, e era ver quem ganhava. Eu tenho cá para comigo que seriam os budistas, porque os broncos dos nazis iam logo para a porrada, só que os monges, que têm uma presença de espírito e uma calma gigantescas, não lhes iam passar cartão, e eles iam acabar por ser vencidos pelo cansaço. Até era bom, que assim podia ser que acalmassem só um bocadinho! Só que depois saíam dali, percebiam que tinham levado na boca de um monte de estrangeiros, e ainda extraviavam mais. Se calhar é melhor estarmos quietos. A melhor solução ainda é cadeia com eles, que a nossa Constituição é bem clara no que toca à apologia ao fascismo… Até à próxima!

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Fina Selecção de Temas Extremamente Finos

Avatar do autor Guilherme dos Santos Gomes, 09.03.25

Ah, o tempo passa tão depressa! Parece que ainda ontem estava a fazer o meu vídeo sobre como comer cereais e torradas, e já lá vão cerca de 2 anos e meio! Isto ele há coisas do arco da velha, pá!...

Bem-vindos de volta à Psique! Nesta primeira crónica da nova temporada (sexagésima quinta entrada do meu Blog Sapo), vou fazer uma espécie de pot-pourri de temas que eu tenho assentados numa nota chamada “A Psique de Guilherme” (sugestivo nome, não é?), mas que eu considero demasiado curtos para serem o tema central de uma crónica inteira. Portanto, vamos fazer aqui uma mescla de situações…

A primeira situação com que sou confrontado é a seguinte: não há nenhuma comida que seja boa morninha. É uma impossibilidade! É uma situação em que um gajo é confrontado com ela, não é? Está ali a situação, eu estou aqui, e ela diz “Ah, e tal!”, e eu digo “Não é possível!”. Não faz sentido! É uma situação que… não! Não é… As pessoas podem-me vir dizer que “Ah, e tal, que…”, mas não é possível! Não há nenhuma comida que seja boa morninha! Por exemplo, sopa: é boa ou quentinha (um caldinho verde), ou fria (um gaspacho). Não há nenhuma sopa que um gajo diga “Ei, esta sopa é mesmo boa é morna!”. Não há, não existe! Outro exemplo é o chá: o chá bebe-se ou quente (um chá normal), ou frio (ice tea). Morno não faz sentido! Ainda outro exemplo… não tenho mais nenhum. A minha tese vinha muito até aqui… Isto é um brainstorm, não há ideias estúpidas, mas eu sabia que isto não ia propriamente a lado nenhum… Lancei o tema - “comida morna não presta” – e agora é ver a repercussão. Mas, à partida, ninguém me consegue dizer o contrário. Não há um exemplo, não adianta!

Outro assunto que eu queria trazer ao diálogo era o facto de a nossa saliva, quando nós acordamos, ter a consistência de UHU. Particularmente a minha, que eu não conheço as salivas das outras pessoas, mas quando um gajo acorda, a saliva parece que – e eu não sei qual é o processo químico responsável por isto – fica muito espessa, quase grudenta. É uma coisa esquisita, não sei se acumulação de bactérias ao longo da noite ou outra coisa qualquer, mas sei que é estranho. Eu, de manhã, se quisesse colar, sei lá, uma placa de pladur, eu cuspia ou lambia, e aquilo nunca mais saía na vida! Acabou! Basicamente é isto… Próximo tema.

Outra situação que me apoquentava particularmente prendia-se com os filmes que passavam nos canais generalistas de televisão (na SIC, na TVI, etc.). Quando esses filmes tinham um vocabulário mais áspero, um uso mais comum de palavrões - e de forma a que pudessem passar em horário nobre -, os tradutores que faziam as legendas tendiam a substituir esses vocábulos, esse vernáculo, por palavras mais aceitáveis, mais “family friendly”. Um dos meus exemplos favoritos era a tradução que eles encontraram para o termo “Fuck you!”, que foi “Vai bugiar!”. “Vai-te lixar”? Tudo bem! Agora, “Vai bugiar”… Segundo o Priberam, bugiar significa “fazer bugiarias”. O que é que são bugiarias? São coisas próprias de bugios ou macacos, vulgo “macaquice”. Ou seja, o que os senhores tradutores andaram a sugerir estes anos todos era que os actores do filmes de Hollywood andavam a dizer uns aos outros “Vai macacar!”… E é este o país que temos, não é?...

Um outro assunto – e este aqui é mesmo um ódio de estimação meu – que me irrita é a tendência, nalguns restaurantes, que os empregados de mesa (e eles não têm culpa) têm em servir um pouco da bebida no nosso copo. Eu acho isso uma coisa extremamente odiosa, no sentido em que nos retira o livre arbítrio! Não permite que nós tomemos a decisão de encher o copo até onde queremos ou de até nem encher, e beber directamente da garrafa ou da lata! Eu acredito, sinceramente, que os empregados de mesa não fazem por mal. Como disse, eles não têm culpa. Mas às entidades patronais, aos senhores que idealizam a forma como vai funcionar o restaurante, eu digo: vocês deviam falecer com muitas dores! Porque isto não se admite em lado nenhum! Eu, enquanto cliente e enquanto pessoa que vai a restaurantes – restaurantes em que isto acontece, às vezes -, digo-vos: parem de fazer isso! Não é uma coisa desejável! Deixem as pessoas servirem-se à vontade! “Ah, mas é chique!”: eu não procuro chiqueza. Procuro boa comida e bom ambiente! Ouçam o que eu vos digo, a sério. Escutem este senhor, do alto da sua sapiência dos 19 anos: deixem as pessoas servirem-se à vontade!...

Um último assunto que eu quero abordar nesta crónica extremamente improvisada e extremamente mal-amanhada (isto foi mais para aquecer que para outra coisa qualquer, para ver se eu ganho outra vez o ritmo), é a maneira correcta de comer um Magnum. O Magnum é um dos gelados mais famosos da Olá, que consiste numa espécie de um coisinho com um formato meio oval, com gelado de nata ou baunilha, por dentro, e depois coberto com uma crusta de chocolate ou chocolate e amêndoas. O que é que acontece? Há pessoas – e eu já vi isto -, inclusive a minha avó Piedade, que comem o Magnum como quem come um gelado banal: trincam e vão aí por diante. Ora, não é assim que se faz! O método correcto de comer um Magnum é, primeiro, retirar toda a casquinha, deixando apenas um bocadinho no fundo, que é praticamente impossível de tirar antes de comer a nata; depois, comer a parte do interior, o cremezinho; e ter ali aquele aperitivozinho no fim, de crusta de chocolate. Outras formas não fazem sentido, porque não se consegue apreciar o Magnum em toda a sua magnitude…

Pronto, e chegamos ao fim! Falei de temas que nunca tinham recebido o reconhecimento que é meritório, e ainda bem que foram falados aqui neste certame, neste fórum. Queria pedir novamente desculpa pela fraca qualidade, quase amadora, desta crónica. Foi tudo feito um bocado aos pontapés, estou a aquecer, ainda, como disse. Na próxima, as coisas voltam ao normal, voltam aos eixos!

Antes de me ir, queria apenas anunciar uma situação: eu descobri que dá para publicar livros através da Amazon, então publiquei, de forma independente, o meu primeiro livro de poesia. É um livro chamado “Antologia Poética do Jovem Antológico”, que reúne poemas meus mais ou menos entre 2020 e Julho de 2024, que foi quando eu fiz a colectânea. De maneiras que vou deixar o link no final da crónica, e era giro se vocês fossem lá dar uma olhadela e adquirissem, porque eu preciso de comer… Obrigado por terem estado aí e até à próxima!

Link: https://amzn.eu/d/j2shKtP

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Quando A Estrela Brilha... (Guião)

Avatar do autor Guilherme dos Santos Gomes, 24.12.24

O filme começa com imagens de um apresentador de televisão dos anos 80 (estilo Telejornal da RTP) a encerrar a programação e a desejar um bom Natal aos espectadores.

Guilherme – Senhores telespectadores, obrigado por terem acompanhado a nossa emissão. É sempre uma honra ter-vos desse lado! Retomaremos a transmissão amanhã, às 7 horas, com o Telejornal. De mim, é tudo! Resta-me apenas desejar-vos a continuação de uma boa noite e um feliz Natal, na companhia de quem mais amam…

(A televisão é desligada abruptamente. Alguns segundos de tela preta. Surge o título do filme no ecrã.)

 

-- Créditos iniciais --

 

(Guilherme vai a descer a avenida, por entre as decorações de Natal, todo agasalhado e a falar ao telemóvel.)

Guilherme - Digo-te de coração: eu não consigo perceber esta coisa toda com o Natal! Só não acho minimamente interessante, mesmo!

Transeunte (grita-lhe) - GRINCH!

Guilherme (para o transeunte) - Santinho! (volta a falar para o telemóvel) E depois há isto! Parece que as pessoas não conseguem respeitar que há gente que simplesmente não gosta do Natal!

Marisa (do outro lado da chamada) - Tens que te tentar adaptar! Não é assim tão difícil!

Guilherme - E tu achas que eu não tento? Passo a vida nisso! Lembras-te daquela vez em que participei nas audições para aquele anúncio de Natal?

(Cut-gag com o Guilherme num palco a cantar uma música de Natal em frente a um júri.)

Jurado - Não querendo ser indelicado, mas tu não és exactamente aquilo que procuramos. Sabes que a nossa petrolífera tem uma certa reputação a manter, e a ti... a ti falta-te a emoção! Nós queremos passar às pessoas a ideia do ambiente familiar, do espírito de Natal. Não conseguimos encontrar isso em ti. Mas obrigado pelo teu tempo!

Guilherme (ainda ofegante) - Se fossem mas é para o cara...

(Retoma-se a cena de Guilherme a andar na rua.)

Guilherme - Eu fui completamente humilhado!

Marisa - Então fazes assim: quando chegares a casa, vais à Internet e pesquisas "Como preparar o Natal". Já que mais nada funciona, ao menos ficas entretido a ver as sugestões estúpidas dos experts que escrevem esses artigos!

Guilherme - Olha que isso até nem sequer é má ideia!

Marisa - Sabes que eu estou a brincar?

Guilherme - Olha, um beijinho! Tenho de ir!

Marisa - Tchau...

(Guilherme desata a correr. Corta para uma cena dele, já em casa, a pesquisar "Como preparar o Natal" no Google. Abre o site do WikiHow.)

Guilherme - Deixa cá ver isto... decorar a casa, dizes tu? Um pinheiro... Onde raio é que eu vou arranjar um pinheiro assim tão em cima da hora?

 

 

(Ema está em casa a arrumar umas coisas e, pelo meio de tralhas, encontra um velho álbum de fotografias.)

Ema - Já não via este álbum aos anos!

(Começa a folhear as páginas.)

Ema - Ai, éramos tão pirosas! Que cabelo é este? Que vergonha!

(De repente, fica com um ar mais cabisbaixo.)

Ema - E aqui estou eu e a Bia... Ela tinha umas bochechinhas tão fofas. Esta foto foi num Natal... um dos poucos que passamos juntas. Eu gostava tanto que ainda nos falássemos, mas a vida é mesmo assim. (fica em silêncio durante um bocadinho) Bom, tenho que arrumar isto!

(Ema está a aspirar a casa quando repara no telemóvel pousado na mesa.)

Ema - Ah, porra! Não custa tentar!

(Pega no telemóvel e marca um número. Põe-no no ouvido.)

Carolina - Quem é que será a esta hora? (impressionada) Leonor? (atende o telemóvel) Estou?

Ema - Bia? És tu? Só estou a ligar porque pronto... como é Natal, eu queria saber como é que estás. Já passou tanto tempo, desde a última vez! Quê? Uns 10 anos, não?

Carolina - Para aí, sim. Olha, eu sei que as tuas intenções são muito boas, mas se calhar o nosso afastamento foi pelo melhor! A morte do pai não foi fácil para nenhuma de nós, eu sei que não, mas talvez termos seguido caminhos diferentes... talvez tenha sido a coisa correcta a fazer.

Ema - Sim, se calhar... Se é assim que te sentes, eu vou respeitar. Só senti que talvez já tivesse sido tempo a mais, só isso!

Carolina - Leonor, isto é o melhor que temos a fazer, tu sabes que sim! Ambas agimos mal, ambas dissemos coisas que não devíamos ter dito... as coisas não acontecem por acaso! Tu tens a tua vida, eu tenho a minha, e acho que o melhor é continuarmos assim.

Ema (triste) - Claro que sim, sem dúvida! Então... Um bom Natal!

Carolina - Adeus, Leonor!

(A chamada é desligada. Ema está visivelmente triste.)

Ema - Parece que foi desta! Até um dia destes, Bia!

(Corta para a casa da Carolina.)

Carolina - Leonor, Leonor! Tu nunca mudas!

(Carolina recebe uma mensagem no telemóvel. É a fotografia delas quando eram mais pequenas, que a Ema tinha visto há pouco.)

Carolina (entre o triste e o arrependida) - Acho que fui um bocadinho bruta com ela... Se calhar ela até tem razão: é Natal, devemo-nos dar uma chance... Eu vou fazer isto resultar!

 

 

(Cena da Alice sentada numa mesa a acabar de escrever uma carta ao Pai Natal.)

Alice - E... fim! Espero mesmo que o Pai Natal me consiga dar o que eu quero, este ano!

(Alice levanta-se, pega no casaco e prepara-se para sair de casa.)

Luis - Onde é que vais com essa rapidez toda?

Alice - Vou só lá fora mandar a carta para o Pai Natal!

Luis - Está bem, mas não te demores, que o almoço está quase pronto!

Alice - OK!

(Alice sai de casa a correr e, pelo caminho dá de caras com o Rui.)

Alice - Bom dia, Sr. Mateus!

Rui - Bom dia, menina! Para que é esta correria toda?

Alice - Estou a correr porque tenho que enviar a minha carta para o Pai Natal! E este ano já me atrasei um bocadinho... Espero que ele ainda a consiga receber antes da Véspera de Natal!

Rui (entre risadinhas) - Pff... Pai Natal! A sério que ainda acreditas nisso?

Alice - E porque é que não haveria de acreditar? Você não acredita?

Rui - Claro que não! O Pai Natal não existe, nunca te disseram isso?!

Alice - Não... existe?

Rui - É claro que não! Um gordo, de barbas, que entrega prendas a todas as crianças do Mundo numa noite, e viaja num trenó voador puxado por renas? Onde é que isso faz sentido?

(A Alice fica chocada e deixa cair a carta ao chão. Com lágrimas nos olhos, volta para casa a chorar. A câmara foca na carta:
"Querido Pai Natal, o único desejo que tenho este ano é saber que tu és mesmo real! Ah, e também queria a paz no Mundo, mas isso já era mais um capricho meu... Adoro-te! Ass.: Maria")

Guilherme (num aparte, levantando a câmara do chão) - Eu sei que não tem lógica absolutamente nenhuma a carta não estar metida num envelope nem tampouco dobrada, mas esta cena não ia funcionar de outra forma, OK? Não sejam mesquinhos, é Natal!

 

 

(Cena em que o Pai Natal está a olhar-se ao espelho na casa-de-banho e começa a dançar e a cantarolar que é o maior, e assim. De repente, entra um elfo que o interrompe.)

Ema (a olhar para o telemóvel) – Pai Natal, recebi um email do Departamento de Peluches e eles estão a dizer que já acabou o enchimento. O que é que eu respondo?… (olha para cima).

Guilherme (meio embasbacado) – Acabou o enchimento, foi?

Ema (atrapalhada) – Hum… sim, sim, acabou!

Guilherme – OK, OK… posso responder-te a isso mais logo?

Ema – Eles estavam a pedir-me para lhes enviar uma resposta o mais rápido possível.

Guilherme – Ai sim? Bom… podes dizer para encomendarem mais, que depois lá se fazem as contas, está bem?

Ema – Está bem, Pai Natal! Com licença.

Guilherme – Está à vontade!

(O elfo sai da casa-de-banho. O Pai Natal fica uns segundos parado a olhar para o nada.)

Guilherme – Bom, onde é que eu estava, mesmo? Ah, pois! (volta a dançar em frente ao espelho)

 

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Está cansada do seu cabelo de cocó? Já se fartou de gastar o seu dinheiro em produtos capilares que tanto prometem, mas que em nada resultam? Então "Laca Virgin" é para si!
Feita pelos melhores e mais experientes especialistas em cuidado capilar, "Laca Virgin" é o melhor amigo do seu cabelo! Se sempre quis ter o cabelo como a Madonna, esta é a sua oportunidade!

Jingle:
"Laca Virgin, whoo!
Deixa-te o cabelo como o da Madonna nos anos 80
Laca Vi-i-i-ir-gin
Nem sequer é preciso pentear"

Laca Virgin: Caracóis definidos. Cabelo forte. Sífilis... provavelmente...

Laca Virgin não foi submetido a testes laboratoriais. Para mais informações, contacte o seu médico ou farmacêutico. Efeitos secundários podem envolver enfraquecimento do couro cabeludo, queda de cabelo, apodrecimento dos dentes e das gengivas, aparecimento de papos negros nos braços, cancro do cólon, alterações significativas no código genético, multas por excesso de velocidade, a queda do Governo, pragas de gafanhotos, chuvas de rãs, infecções provocadas pela bactéria E. coli e a morte. As farmacêuticas "Santos, Cunha, Ferreira, Mendes, Gomes & Filhos, Lda." não se responsabilizam por absolutamente nada, nos termos do "não nos apetece pagar indemnizações a pessoas que compram este produto na ilusão de ficarem parecidas com uma cantora Pop que até já nem é particularmente relevante". Cumprimentos!

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Com Nenuco és a melhor enfermeira!

Criança 1 - Nenuco Leucemia é tão divertido!

Podes levá-lo a passear... e aos tratamentos!

Criança 2 - Mas cuidado com os sintomas!

E a sorte é que o Nenuco já é careca!

Criança 1 - O Nenuco Leucemia até traz uma máquina de fazer biópsias!

Nenuco Leucemia: para quem sempre quis sofrer por causa de um boneco de plástico!

 

-- Fim da Pausa --

 

(Corta para o Guilherme a chegar a pé a um mato, com um machado ao ombro.)

Guilherme - No que tu te metes, rapaz! E tudo para que não te chateiem a cabeça com "o Natal isto" e "o Natal aquilo"... Quero lá eu saber do Natal! Afinal de contas, tudo isto não passa de uma invenção do capitalismo para fazer as pessoas gastarem dinheiro em prendas! "Ai, mas é tão bonita, a ideia do Natal com neve, e a família toda reunida"... Neve? NEM SEQUER NEVA, NESTA PORCARIA DE SÍTIO! Porra para isto tudo! Não há aqui pinheiros! Vou ter que me amanhar de outra forma.

(Corta para o Guilherme na parte de fora de um grande estabelecimento comercial.)

Guilherme - OK, se calhar aqui é mais fácil...

(Volta para o Guilherme no site do WikiHow.)

Guilherme - Bolas, fitas, estrelas... É provável que ainda tenha isso tudo guardado na garagem... Ao que eu me sujeito, francamente!

(Guilherme vai à garagem e pega numa caixa cheia de pó. Sopra, levantando uma nuvem de poeira.)

Guilherme (pelo meio da tosse) - É capaz de ser isto!

(Corta para o Guilherme a olhar para a árvore, já montada e decorada.)

Guilherme - Até nem ficou nada mal!...

(De novo, Guilherme no site da WikiHow.)

Guilherme - Próximo passo: ver um filme de Natal. Não me digam que agora tenho que ir vasculhar nas cassetes do meu pai?!

(Guilherme com um VHS na mão.)

Guilherme - Ah, o bom velho "Pai Natal Conquista Os Marcianos"! Espero que não me desiluda como da última vez...

(Cut-gag do Guilherme sentado a olhar para a televisão.)

Guilherme - Que não seja pornografia! Que não seja pornografia!

(Começa a dar uma música de filme pornográfico)

Guilherme - É pornografia...

(Volta à cena de Guilherme a ver o filme. Vêm-se umas cenas no ecrã da televisão.)

Guilherme (confuso) - Se calhar não era bem a isto que o artigo se referia...

(Corta para o Guilherme no site do WikiHow uma última vez.)

Guilherme - "Planear eventos de Natal"...

(Cena do Guilherme no meio da rua com um microfone.)

Guilherme - Senhoras e senhores, meninos e meninas, tenho o prazer de vos apresentar o mais esperado divertimento deste Natal: o Pai Natal bêbado! Sentem-se e peçam-lhe coisas, e eu prometo que ele vos manda passear de uma maneira diferente de todas as vezes!

Transeunte - GRINCH!

Pai Natal Bêbado - Acho que os teus esforços estão a ser infrutíferos porque tu não estás a fazer as coisas com o espírito necessário! Eu aconselhava-te, se queres saber a minha opinião, a fazer uma reflexão e a tentar perceber o porquê desta tua tão grande repulsa ao Natal. Tentar ir buscar traumas antigos, ou algo assim. Não concordas?

Guilherme - Cala-te!

 

Alice (a chorar) - O Pai Natal não pode ser mentira! Eu sei que ele existe!

(Alice entra em casa e sobe as escadas a correr.)

Luis - Maria, está tudo bem? (vai até ao fundo das escadas) Maria!

Alice - Não quero falar contigo!

(Luis sobe as escadas e encontra Alice no quarto a chorar.)

Luis - O que é que aconteceu? Está tudo bem?

Alice - O Pai Natal não existe, pois não?

Luis - Quem é que te disse isso?

Alice - O Sr. Mateus, quando eu estava a sair para ir mandar a carta.

Luis - Maria, ia chegar a uma altura em que ias ter que saber... mas é verdade! O Pai Natal não existe. São os pais que compram as prendas às crianças.

(Alice fica em estado de choque.)

Alice - Porque é que vocês haviam de me mentir?

Luis - Para te ver feliz! Acreditar no Pai Natal é um dos últimos pedaços de infância que nós conservamos, e perdê-lo significa perder muita coisa!

Alice - Eu nem sei como reagir! Preciso que me deixes um bocadinho sozinha, por favor!

Luis - É claro! Quando estiveres melhor, anda para baixo, para almoçar.

(Alice põe-se a andar para cá e para lá no quarto dela.)

Alice - Como é que eu pude ser tão burra? Era óbvio que o Pai Natal não ia existir! Não tem lógica, o Sr. Mateus tem razão. Mas eu queria tanto que fosse verdade!

 

 

(Entretanto, na Lapónia, um duende entra de rompante no escritório do Pai Natal.)

Carolina - Pai Natal, precisamos de fazer uma saída de emergência! Uma criança acabou de deixar de acreditar em ti e nós não podemos permitir isso!

Guilherme - Todos os anos, milhares de crianças deixam de acreditar em mim e nós nunca nos preocupamos com isso!

Carolina - Mas esta criança é especial, OK?

Guilherme - Porquê? É toda deficientezinha ou assim?

Carolina - TU VAIS TER COM ESTA CRIANÇA E PONTO FINAL!

Guilherme - Mas ainda falta uma semana para a Véspera de Natal. Quem é que vai pagar o gasóleo para esta deslocação extra?

Carolina (irritada) - PAI NATAL!

Guilherme (encolhido) - Não grites comigo.

 

(Mais tarde, Ema está em casa a ler um livro. Ouve alguém a bater à porta. Vai abrir e é a Carolina.)

Carolina - Olá!...

Ema - Olá!...

Carolina - Olha... desculpa por estar a vir aqui tão tarde, mas... tinha uma prenda para te dar. (dá-lhe um embrulho). Toma!

(Carolina vira costas e começa a descer a rua. Ema fica a olhar para a prenda, com ar meio arrependido.)

Ema - Ei, Bia! (Carolina olha para trás) Obrigado... e feliz Natal!

Carolina (a sorrir) - Feliz Natal!

(Carolina continua a descer a rua, agora com um sorriso na cara. Ema volta a olhar para o presente, também a sorrir. Fecha a porta. Entra e abre-o. É um antigo brinquedo delas.)

Ema - Ela lembrou-se!

(Ema volta a pegar no telemóvel e liga de novo a Carolina.)

Ema - Miúda, faz o favor de voltar aqui neste preciso instante! E eu que não tenha que dizer isto outra vez!

(Carolina está à porta da casa da Ema. Ema está do lado de dentro. Olham-se uma à outra durante uns segundos até que dão um forte abraço.)

Ema - Desculpa por tudo!

Carolina - Eu é que tenho que te pedir desculpa! Nunca devíamos ter deixado que as nossas diferenças nos afastassem!

Ema - Tens razão, Bia! Podemos voltar a ser irmãs, por favor?

Carolina - É claro que sim, parola!

Ema - Parola és tu!

(Entram as duas para casa a rir e a conversar. A porta fecha-se atrás delas.)

 

-- Pausa para Publicidade –-

 

É oficial! Acabou de ser lançado o álbum de Natal de Noel Silvestre, "The Best Of Christmas", mesmo a tempo de fazer as suas compras de Natal!
Com clássicos como...

(Noel Silvestre canta músicas de Natal.)

E com magníficos duetos com estrelas como:

  • Clara Belém,
  • Aurora Boreal,
  • e Raquel Luz!

"The Best Of Christmas" de Noel Silvestre… nas lojas agora!

 

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(Estão duas crianças a brincar num jardim.)

Criança 1 - Pai, Pai! Anda brincar!

(O pai, sentado numa cadeira, tenta-se levantar, mas não consegue, derivado das dores que a sua corcunda lhe provoca.)

Narrador - Sente-se triste por não poder desfrutar de tempo de qualidade com os seus filhos?

(Corcunda acena positivamente com a cabeça.)

Narrador - Tem receio que eles, derivado do seu aparente desapego emocional, o abandonem, quando chegar à 3ª idade?

(Corcunda acena positivamente com a cabeça.)

Narrador - Então nós temos a solução para si! O novo e revolucionário "Quasimodofen" promete diminuir a sua corcunda e aumentar a sua felicidade e qualidade de vida!

Esposa - Estou muito feliz! Desde que o meu marido começou a tomar o "Quasimodofen" que vivemos muito melhor cá em casa! Já consegue brincar com as crianças, fazer as tarefas domésticas, ir à casa de banho sem precisar da minha ajuda... Parece que foi um milagre!

(Surge o corcunda parado na rua)

Corcunda - Eu antes era coxo e marreco, mas graças ao "Quasimodofen", agora só sou coxo! Obrigado, "Quasimodofen"!

(Corcunda vira-se de costas e começa a andar, coxeando)

Narrador - Quasimodofen: o segredo da sua felicidade está aqui!

Quasimodofen é um produto "Santos, Cunha, Ferreira, Mendes, Gomes & Filhos, Lda."!

 

-- Fim da Pausa --

 

(Cena do Guilherme a falar ao telemóvel com a Marisa na sala.)

Guilherme - Já decorei uma árvore, já vi filmes de Natal horríveis, já ouvi o "All I Want For Christmas Is You" umas boas dezenas de vezes... porra, até comprei uma rena!

(Guilherme olha pela janela. Cena de uma rena a comer erva no jardim.)

Guilherme - Estás satisfeita, agora?

Marisa - Satisfeita, eu? Se estás a fazer isto para me agradar, podes estar quietinho! Sinceramente, eu não te consigo perceber! Já pensaste que, se calhar, os teus esforços estão a ser infrutíferos porque tu não estás a fazer as coisas com o espírito necessário? Eu aconselhava-te, se queres saber a minha opinião, a fazer uma reflexão e a tentar perceber o porquê desta tua tão grande repulsa ao Natal. Tentar ir buscar traumas antigos, ou algo assim...

Guilherme - Isso foi exactamente o que me disse o Pai Natal Bêbado...

Marisa - Mas entendes onde é que eu quero chegar com isto? Talvez tu sejas mesmo igual ao Grinch e, quem sabe, exista uma razão para não gostares do Natal!

Guilherme - Agora que falas, talvez haja mesmo. É que sabes? Eu nunca soube o que era o Natal... Os meus pais nunca ligaram a isso. Não me lembro de ter recebido uma única prenda; não me lembro de ter decorações em casa; não me lembro de ouvir uma música que fosse... E eu via os meus amigos todos ansiosos pelo dia 24 e, para mim, isso sempre foi sinónimo de tristeza e melancolia, nada mais! A única pessoa que me lembro de me desejar um feliz Natal e de me dar sempre uma fritinha era o meu bisavô...

Marisa - Está na altura de mudares isso! Tu és capaz, eu sei que sim! Bom Natal, miúdo!

Guilherme - Bom Natal...

(Desliga o telemóvel. Olha pela janela.)

Guilherme - Estás satisfeito, Universo? Eu estou a festejar o Natal! Quem é que eu quero enganar? Só um milagre é que podia fazer com que isto tivesse algum sentido na minha cabeça!...

(No céu, vê-se uma estrela brilhante a pulsar e ouvem-se sinos e um "Ho-Ho-Ho".)

Guilherme (a olhar para a câmara) - Não era tão bom se a vida fosse mesmo assim?

 

 

(Alice está a olhar pela janela do quarto e vê a mesma estrela a pulsar no céu.)

Alice – Será possível?

(Pega no casaco, sai do quarto a correr e dirige-se para a porta.)

Luis – Onde vais com essa pressa toda, Maria?

Alice – Vou provar que o Pai Natal existe. Se quiseres, podes vir ver!

(Da janela de casa, o Rui também vê o clarão no céu.)

Rui (encolhendo os ombros) Sempre soube! (fecha a janela)

 

 

(Cena na casa da Ema, com as duas à conversa sentadas no sofá.)

Carolina - Já reparaste que só para nós é que o facto de Pai Natal estar a aparecer ou não foi indiferente?

Ema - Por acaso... Mas, se calhar, é melhor irmos lá ter na mesma!

Carolina - Sim, vamos!

 

 

(Reúnem-se todos num largo à frente do sítio onde a luz que se via no céu aterra. O Pai Natal.)

Pai Natal – Olá, pessoas!

Todos (em uníssono) – PAI NATAL!

Pai Natal – É, sou eu mesmo!

Ema – Onde é que está o teu trenó?

Pai Natal – Está ali para trás, estacionado na mata.

Guilherme – Não estás a dizer isso só porque não há orçamento para ter aqui um trenó a sério, pois não?

Pai Natal (atrapalhado)Nada disso! É mesmo porque o estacionei ali atrás…

Carolina – O que é que estás aqui a fazer? Ainda não é Natal!

Pai Natal – Vim aqui de propósito por uma razão muito especial: para restaurar a crença de uma menina em mim!

Alice – Eu, Pai Natal?

Pai Natal – Sim, tu mesmo! Maria, eu sou real!

Alice – Eu sabia, Pai Natal, eu sabia! (abraça o Pai Natal)

Luis – Espera aí! Se tu existes mesmo, então por que raio é que sou eu que compro as prendas de Natal?

Pai Natal (atrapalhado) É que sabe, houve alguns cortes no orçamento, tivemos de nos ajustar à inflação, e… Ui, que horas já são! A Mãe Natal dá cabo de mim se chego atrasado para jantar! Adeus, pessoal! Adeus, Maria!

Alice – Tchau, Pai Natal!

(O Pai Natal desaparece por entre a vegetação.)

Ema – Então e agora?

Carolina – Eu sou capaz de ter uma ideia…

(Cena com todos sentados em cadeiras a assistir a um concerto de Natal do Noel Silvestre.)

Guilherme (num aparte, olhando para a câmara) Faz algum sentido esta história estar a acabar assim? Não, não faz! Mas quer dizer: tendo um palco disponível, tinha de o utilizar, e também não podia desperdiçar um personagem como o Noel Silvestre, não é? Vá, pessoal, aproveitem a viagem! Feliz Natal!

 

FIM

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