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A Psique de Guilherme

Dissertações acerca de temas vários levadas a cabo por um adolescente com, nota-se, demasiado tempo nas mãos e opiniões, e assim... A Blogosfera vive!

A Psique de Guilherme

Dissertações acerca de temas vários levadas a cabo por um adolescente com, nota-se, demasiado tempo nas mãos e opiniões, e assim... A Blogosfera vive!

Retalhos da Vida de um Formidável Rapaz #1: "Jornal do Gui"

Avatar do autor Guilherme dos Santos Gomes, 30.01.26

Bem-vindos ao primeiro episódio do “Retalhos da Vida de um Formidável Rapaz”, a nova rubrica d’A Psique de Guilherme, em que eu me vou propor a resgatar e comentar criticamente alguns pedaços de audiovisual que eu fui criando ao longo da minha infância e precoce adolescência. Esta será uma rubrica com tempo limitado, justamente porque eu gravei um número limitado de vídeos, e dentro desses um número ainda menor de vídeos com interesse. Mas não pensemos no final, este é apenas o primeiro episódio, e vamos começar com uma excelente peça de jornalismo.

 

Excerto 1

Ele diz que é “mais um directo”, mas não se deixem enganar! Esta é A PRIMEIRÍSSIMA edição do Jornal do Gui. E eu sei que eu também digo que estou preparado para este directo, mas o próximo excerto está aqui justamente para desmentir esta afirmação.

 

Excerto 2

“Especial… especiais!”: nota-se a preparação, nota!

É uma decisão editorial estranha, a de começar um telejornal com duas convidadas, mas não vamos já perder a esperança, vamos ver o que é que nos espera. Quem são então essas convidadas?

 

Excerto 3

Ah! São as… pois, as do costume… hum… mas pronto, pode ser que nos surpreendam! Não vamos partir já numa de pessimismo! Elas são umas caixinhas de surpresas, vamos ver o que têm para nos oferecer! Devo é já deixar claro que se vai notar uma certa relação de dominância, logo desde a primeira aparição destas duas meninas.

 

Excerto 4

Sempre tão gentil, a minha irmã! A entrevista começa, e Guilherme Gomes, mostrando da raça que é feito, ataca logo as entrevistadas com questões acutilantes e pouco confortáveis, fazendo um jornalismo sem medo e do qual me orgulho!

 

Excerto 5 (questão)

Forte provocação! Mas o que responderiam as entrevistadas a esta pergunta tão directa e bastante desagradável? Será que elas se vão ficar? Não acredito! Vejamos o excerto completo.

 

 

Excerto 5 (completo)

Ah, OK! Optou por responder com franqueza e veracidade. É uma boa escolha!

Ainda tentando perceber se conseguiu, de facto, provocar algum tipo de desconforto às convidadas, Guilherme faz a pergunta da forma mais directa possível.

 

Excerto 6

Nem tudo podem ser vitórias… e aquele “hum” no final prova que esta não foi uma delas. Mas Guilherme não perde a compostura e torna a afirmar, de forma errónea e mentirosa, que tudo está sob controlo.

 

Excerto 9

Então diz-nos lá, Guilherme, quais são as ideias que nos trazes para esta Grande Entrevista mesmo a abrir o Telejornal!

 

Excerto 10

Hum… Giro! Cantar! Não, mas realmente é um boa ideia, iniciar o Jornal Nacional, não com tragédia, mas com… miséria!

Mas o Guilherme, para provar que, de facto, tem todas as suas ideias estruturadas, sugere à Alice que cante uma canção.

 

Excerto 11

Desculpa, não percebi!

 

Excerto 12

Deve estar a falar em código, ou assim… Podes repetir outra vez?

 

Excerto 12

Não, assim não chego lá! Não consegues trautear só um bocadinho?

 

Excerto 13

Ah! Estavas-te a referir a isto? *toca a canção* Podias mesmo ter dito que música era, não precisavas de ter falado em Russo, pá!

Para a Carolina, a sugestão foi outra, e só prova que eu sou masoquista desde pequenino.

 

Excerto 14

Tarefas distribuídas, comece o concerto! A primeira intérprete a apresentar a sua performance foi a Carolina. Vejamos então como é que ela se saiu.

 

Excerto 15

*tiro algodão dos ouvidos* Já passou? Ufa! Neste próximo excerto, volta-se a ver a Carolina a afirmar a sua dominância sobre a Alice através do bullying.

 

Excerto 16

Então agora a menina não sabe cantar muito? Porque é que não sabe cantar?! Deixa lá a menina cantar! Vais ver se ela não sabe cantar!

 

Excerto 17

Pronto, se calhar não sabe. Às vezes o bullying é justificado! Mas a Alice recompõe-se, limpa a garganta, e agora sim, canta a bela da canção!

 

Excerto 18

Bravo! Muito bem! Para além de nos apresentar uma versão inédita desta popular cantiga, com apenas dois versos, ainda nos poupa à tortura de a ouvir até ao final, algo que, infelizmente, não obtivemos por parte da Carolina.

Findo este belo momento, o Guilherme dá por si a perpetuar esta cultura do auto-reconhecimento e da troca de galhardetes entre famosos, oferecendo uma pequena lembrança às suas convidadas.

 

Excerto 19

Mas o que serão estas prendinhas? Carolina, mostra-nos aí a tua!

 

Excerto 20

Uma tiara e uma mala da Doutora Brinquedos! Uau! É pá, muito bom! Será que a Alice também vai receber uma prenda tão espectacular?

 

Excerto 21

Concordo contigo, Alice: wow! Um urso-de-peluche e um berço cor-de-rosa? É de perder a cabeça! Obrigado, Guilherme, por estas prendas tão significativas para nós!

Perto do fim, surgem alguns problemas técnicos que o Guilherme, sendo o profissional que é, dá a conhecer aos telespectadores, porque eles têm o direito de estar informados!

 

Excerto 22

Talvez para bem dos nossos pecados, o programa nunca chegou a voltar. Mas ficam as memórias destes valiosos 8 minutos e 33 segundos de pura televisão! Obrigado, Jornal do Gui!

 

Nunca pensei que me fossem ouvir a dizer isto, mas sucumbi às delícias do capitalismo e, na esperança de me transformar num criador de conteúdo *meter dois dedos à boca* como deve ser, criei um Patreon. Têm duas opções de subscrição: a “Modalidade Mínima Permitida”, que custa 3€ por mês; e a “Taxa para os ricos.”, que está por volta dos 10.000€. Vou colocar lá o vídeo do “Jornal do Gui” na íntegra, para quem quiser, mas não vale assim tanto a pena, então estejam quietinhos… Por hoje, é tudo. Até à próxima!

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Coluna Vertebral #4: "Pela arte"

Avatar do autor Guilherme dos Santos Gomes, 27.01.26

No último dia 18, a candidatura de Manuel João Vieira, o célebre "Candidato", conseguiu arrecadar mais de 60.000 votos, constituindo um resultado absolutamente histórico! O descontentamento da população tem levado ao crescimento da extrema-direita no nosso país, algo que eu considero, para além de extremamente perigoso, profundamente imbecil e inconsequente. Por esta razão, não consigo colocar a mobilização em torno da figura de Manuel João Vieira no mesmo saco do protesto, mas sim, tal como defendeu António Costa Santos, no saco do niilismo e do desencanto com a política.

Apesar do que eu fui lendo durante as semanas de campanha, o Candidato Vieira não é uma "arma do status quo" nem um "fantoche para roubar votos aos candidatos a sério", mas pura sátira, e a sátira é importantíssima, cada vez mais! E digo isto porque, francamente - e recorrendo ao vernáculo -, o Manuel João está-se a cagar para o que a opinião pública pensa dele e causar prurido ao status quo é a sua coisa favorita. A única mensagem que eu acho que este músico, artista plástico e professor quer deixar é: "Eu reuni as assinaturas necessárias, entrei nos boletins, e a minha candidatura deve ser levada tão a sério como as restantes, ou seja, zero.".

Esta é uma excelente mensagem que deveria ser recebida, interiorizada e colocada em prática, porque a verdade é que as coisas só têm a importância que nós lhes queremos dar. A sátira, enquanto objecto artístico, é uma dessas coisas. No entanto, outras matérias há que se consideram intrinsecamente relevantes, como se a sua importância começasse e se encerrasse em si mesmas. Na política, é fácil e recomendável fazer-se sátira; no que toca à cultura, parece que a aceitação é muito menor.

A cultura e a arte são parte integrante da identidade humana. Devem ser valorizadas, defendidas e dinamizadas. No entanto, o que se verifica é um crescente desinteresse por parte dos públicos em Museus, Galerias de Arte, Teatros, etc. Pode-se apontar como uma explicação possível e perfeitamente plausível para este fenómeno o advento das redes sociais ou mesmo a perda de poder de compra das famílias, não só no nosso país, mas um pouco por todo o Mundo. Eu arriscaria apontar uma outra razão – que, estou convencido, acaba por ter tanta ou mais importância que estas – para explicar este afastamento: a existência de um elitismo cultural e uma certa hostilidade simbólica em torno dos fenómenos culturais. O que eu verifico é que os espaços de cultura têm menos adesão do que o que se pretenderia porque não existe um sentimento de pertença por parte do público. O discurso elitista do “Não gostas porque não percebes” afasta mais as pessoas do que aquilo que as motiva a ir saber mais, porque cria uma insegurança e a ideia de que “Não vou, porque não quero parecer inculto”. Isto leva, inevitavelmente, a que se crie um círculo vicioso, com as instituições a culparem o público pelo desinteresse que elas próprias criaram.

Esta institucionalização da cultura e apropriação por parte das elites culturais, dos ditos “entendedores”, afasta as pessoas comuns, que não se revêem na linguagem e na teoria por eles usada, que deveria ter como função esclarecer, mas acaba por se transformar num instrumento de exclusão. Quando a arte deveria ser sobre o provocar de emoções e de sensações em quem a recebe, esta interpretação intelectual dogmática soa a arrogante e anti-artística. Quando um criador, em qualquer vertente artística sem excepção, lança uma obra ao Mundo, ela deixa de lhe pertencer. Qualquer intenção ou interpretação feita a priori torna-se irrelevante, porque agora são aqueles para quem criamos que têm de fazer o seu próprio juízo de valor. Excluir o público desta equação quando ele rejeita uma obra é tratá-lo como ignorante, é desmerecer a sua leitura e criar uma carapaça que torna o artista inatacável. É este sistema artístico institucional que apodrece e sabota a arte como um todo a partir de dentro. É esta auto-salvaguarda, esta protecção de si mesmo em detrimento do serviço ao público (que, torno a frisar, deveria ser a principal preocupação de um criador) que destrói a criação cultural e afasta ainda mais a elite do consumidor comum.

Quando o princípio de uma vertente artística vanguardista, como é o caso da arte contemporânea, é o mesmo que norteia o populismo – “Falem bem ou falem mal, o que interessa é que falem de mim” – a arte perde força. Quando uma obra é considerada válida só porque existe discurso à volta dela e não porque comunica algo real, ela transforma-se em algo oco, sem espinha dorsal. Esta intenção de chocar só por chocar não é, de maneira nenhuma, prova de sucesso artístico nem uma certificação de a criação tem valor real. É apenas, mais uma vez, o artista a colocar-se numa posição de imunidade: se o público gostar, ele ganha; se não gostar, ganha na mesma. Ser falado não é o mesmo que ser bom, e quem deve ter o poder de determinar se algo é bom, em última instância e como tenho vindo a defender, não é o criador nem os críticos enciclopédicos, mas o público a quem a obra é dada. O que acontece, muitas vezes, é o público projectar significado em obras vagas, porque aprendeu que isso é o esperado. Neste ponto, a interpretação passa a ser mais importante que a peça em si, a legitimidade passa a estar na autoridade de quem interpreta. Isto só contribui para que se perca valor e experiência estética, que é só o que está na génese da produção artística!

A verdade é que as coisas só têm a importância que nós lhes queremos dar. Nada é intrinsecamente importante ou valioso. Um diamante vale o que vale, porque nós queremos que ele valha; e não falemos de raridade ou unicidade porque existem coisas mais raras que um diamante que não valem absolutamente nada aos nossos olhos. Partir deste pressuposto é perigoso, e faz com que haja o risco de coisas se tornarem “intocáveis” por convenção social e não por mérito real. Infelizmente, a cultura tornou-se um desses territórios protegidos artificialmente e é justamente aqui que volto a resgatar o papel da sátira. A sátira é fundamental porque desmonta falsas hierarquias e expõe o ridículo do poder das elites. A sátira incomoda precisamente quem se leva demasiado a sério, porque tem medo de perder estatuto simbólico. E quando se percebe que esta cultura institucional tende a tolerar menos a sátira e a crítica do que a própria política, descartando-a como sinal de ignorância, isso é revelador do quão anti-democrático se tornou esse sítio em que todos deveriam ser bem-vindos.

Eu acho que deu para perceber que eu não escrevi este texto porque detesto a arte, mas exactamente pelo contrário. Eu tenho é medo que este sistema que se montou à volta dela – esse, sim, que eu odeio – acabe, mais tarde ou mais cedo, por contribuir para a sua destruição. A minha crítica não é estética, mas ética. A minha crítica existe para defender a dignidade do olhar comum, a dignidade do público. Porque, francamente, quem não tem em conta o papel do público nem sequer merece ter público. A arte é a procura do belo, a arte é uma fábrica de sensações, a arte é feita para o Mundo! Quando não é assim, a arte morre.

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