Anatomia de Poseidon
Guilherme dos Santos Gomes, 06.08.22
Salut! Comment ça va? Peço desculpa. É o espírito do emigrante que já se vai apoderando de mim. Afinal, estamos no Querido Mês de Agosto (que, de resto, ainda irá merecer um apontamento, um destes dias).
Estamos de volta à nossa costa, desta vez para observar o fenómeno das pessoas que "vão à água". Porque ir à água é uma coisa importante. Envolve sacrifício, coragem e a despedida dos entes, porque se pode dar o caso de nunca mais voltar. No caso português, a água do mar costuma estar à temperatura ambiente... de Yakutsk! Que frio, senhores! Alguém que faça queixa ao senhorio, que a caldeira do Atlântico está avariada. Porque é que o raio da água não aquece? No Inverno até compreendo, agora no Verão? Estão 40ºC à sombra! Aquece mais rápido uma garrafa de litro e meio dentro da geleira Campingaz de uma família de veraneantes do que o mar a céu aberto.
Estas desumanas temperaturas motivam, como era de esperar, certos e determinados comportamentos curiosos por parte das pessoas. Aquelas que entram no mar até ao pescoço sem hesitar são vistas como valentes. Diz o povo (e peço desculpa pelo que se segue, mas é a terminologia correcta) que "têm tomates"! Eu digo que não. É justamente o contrário, porque quem os possui sabe da dificuldade que é submergir o corpinho a partir da coxa. Parece que os nossos amigos tentam achar refúgio junto do estômago, o que não é uma sensação propriamente agradável. Rezam as lendas que, por exemplo, Lance Armstrong não padece deste problema. E não, não é por causa da droga...
Com certeza que por vezes já devem ter reparado que, à beira-mar, estão sempre homens plantados, de mãos atrás das costas, a olhar para o infinito. Vocês acham o quê? Que eles estão a contemplar o horizonte? Não! Estão é a ganhar coragem para penetrar oceano adentro! Até porque aquele horizonte não tem assim tanto interesse como dizem: "Olha, água! E ali, mais água! E para acolá, o que é? Parece... Até parece que é... é água, mais água!...". A água já não nos devia fascinar como se estivéssemos no século XV, pois não? E ali ficam, horas e horas, com a pele das costas a estalar por causa da exposição solar. E só começam realmente a andar em frente ou quando o mar sobe e lhes atinge o baixo-ventre; ou quando olham para baixo e têm as tíbias à mostra, por causa da erosão causada pela ondulação a bater nas pernas.
Outro fenómeno associado ao nadar no mar é o "Efeito Croquete", de que eu me esqueci de falar no meu Manifesto Anti-Areia. O "Efeito Croquete" sucede quando, vinda da água, uma pessoa se deita no areal, ficando coberta de cima a baixo em areia. A ideia que dá é que ela acabou de ser panada, assemelhando-se por isso a um croquete. Que deleite para os canibais! Isto é o pináculo do desconforto causado pela areia, porque se sozinha ela já tem propriedades aderentes, aliada à água cria uma espécie de uma liga tão potente, que nem com uma Mangueira de Bombeiro na máxima pressão é possível remover!
Há ainda outro tipo de pessoas, que são aquelas que não vão à água. Estas são as mais racionais, inteligentes e responsáveis... Se eu costumo ir ao mar? Pouco. Porque perguntam? Não estão a insinuar que eu estou a ser parcial ao categorizar este tipo de pessoas como sendo as melhores, pois não? Espero.
Au revoir!
