Coluna Vertebral #4: "Pela arte"
Guilherme dos Santos Gomes, 27.01.26
No último dia 18, a candidatura de Manuel João Vieira, o célebre "Candidato", conseguiu arrecadar mais de 60.000 votos, constituindo um resultado absolutamente histórico! O descontentamento da população tem levado ao crescimento da extrema-direita no nosso país, algo que eu considero, para além de extremamente perigoso, profundamente imbecil e inconsequente. Por esta razão, não consigo colocar a mobilização em torno da figura de Manuel João Vieira no mesmo saco do protesto, mas sim, tal como defendeu António Costa Santos, no saco do niilismo e do desencanto com a política.
Apesar do que eu fui lendo durante as semanas de campanha, o Candidato Vieira não é uma "arma do status quo" nem um "fantoche para roubar votos aos candidatos a sério", mas pura sátira, e a sátira é importantíssima, cada vez mais! E digo isto porque, francamente - e recorrendo ao vernáculo -, o Manuel João está-se a cagar para o que a opinião pública pensa dele e causar prurido ao status quo é a sua coisa favorita. A única mensagem que eu acho que este músico, artista plástico e professor quer deixar é: "Eu reuni as assinaturas necessárias, entrei nos boletins, e a minha candidatura deve ser levada tão a sério como as restantes, ou seja, zero.".
Esta é uma excelente mensagem que deveria ser recebida, interiorizada e colocada em prática, porque a verdade é que as coisas só têm a importância que nós lhes queremos dar. A sátira, enquanto objecto artístico, é uma dessas coisas. No entanto, outras matérias há que se consideram intrinsecamente relevantes, como se a sua importância começasse e se encerrasse em si mesmas. Na política, é fácil e recomendável fazer-se sátira; no que toca à cultura, parece que a aceitação é muito menor.
A cultura e a arte são parte integrante da identidade humana. Devem ser valorizadas, defendidas e dinamizadas. No entanto, o que se verifica é um crescente desinteresse por parte dos públicos em Museus, Galerias de Arte, Teatros, etc. Pode-se apontar como uma explicação possível e perfeitamente plausível para este fenómeno o advento das redes sociais ou mesmo a perda de poder de compra das famílias, não só no nosso país, mas um pouco por todo o Mundo. Eu arriscaria apontar uma outra razão – que, estou convencido, acaba por ter tanta ou mais importância que estas – para explicar este afastamento: a existência de um elitismo cultural e uma certa hostilidade simbólica em torno dos fenómenos culturais. O que eu verifico é que os espaços de cultura têm menos adesão do que o que se pretenderia porque não existe um sentimento de pertença por parte do público. O discurso elitista do “Não gostas porque não percebes” afasta mais as pessoas do que aquilo que as motiva a ir saber mais, porque cria uma insegurança e a ideia de que “Não vou, porque não quero parecer inculto”. Isto leva, inevitavelmente, a que se crie um círculo vicioso, com as instituições a culparem o público pelo desinteresse que elas próprias criaram.
Esta institucionalização da cultura e apropriação por parte das elites culturais, dos ditos “entendedores”, afasta as pessoas comuns, que não se revêem na linguagem e na teoria por eles usada, que deveria ter como função esclarecer, mas acaba por se transformar num instrumento de exclusão. Quando a arte deveria ser sobre o provocar de emoções e de sensações em quem a recebe, esta interpretação intelectual dogmática soa a arrogante e anti-artística. Quando um criador, em qualquer vertente artística sem excepção, lança uma obra ao Mundo, ela deixa de lhe pertencer. Qualquer intenção ou interpretação feita a priori torna-se irrelevante, porque agora são aqueles para quem criamos que têm de fazer o seu próprio juízo de valor. Excluir o público desta equação quando ele rejeita uma obra é tratá-lo como ignorante, é desmerecer a sua leitura e criar uma carapaça que torna o artista inatacável. É este sistema artístico institucional que apodrece e sabota a arte como um todo a partir de dentro. É esta auto-salvaguarda, esta protecção de si mesmo em detrimento do serviço ao público (que, torno a frisar, deveria ser a principal preocupação de um criador) que destrói a criação cultural e afasta ainda mais a elite do consumidor comum.
Quando o princípio de uma vertente artística vanguardista, como é o caso da arte contemporânea, é o mesmo que norteia o populismo – “Falem bem ou falem mal, o que interessa é que falem de mim” – a arte perde força. Quando uma obra é considerada válida só porque existe discurso à volta dela e não porque comunica algo real, ela transforma-se em algo oco, sem espinha dorsal. Esta intenção de chocar só por chocar não é, de maneira nenhuma, prova de sucesso artístico nem uma certificação de a criação tem valor real. É apenas, mais uma vez, o artista a colocar-se numa posição de imunidade: se o público gostar, ele ganha; se não gostar, ganha na mesma. Ser falado não é o mesmo que ser bom, e quem deve ter o poder de determinar se algo é bom, em última instância e como tenho vindo a defender, não é o criador nem os críticos enciclopédicos, mas o público a quem a obra é dada. O que acontece, muitas vezes, é o público projectar significado em obras vagas, porque aprendeu que isso é o esperado. Neste ponto, a interpretação passa a ser mais importante que a peça em si, a legitimidade passa a estar na autoridade de quem interpreta. Isto só contribui para que se perca valor e experiência estética, que é só o que está na génese da produção artística!
A verdade é que as coisas só têm a importância que nós lhes queremos dar. Nada é intrinsecamente importante ou valioso. Um diamante vale o que vale, porque nós queremos que ele valha; e não falemos de raridade ou unicidade porque existem coisas mais raras que um diamante que não valem absolutamente nada aos nossos olhos. Partir deste pressuposto é perigoso, e faz com que haja o risco de coisas se tornarem “intocáveis” por convenção social e não por mérito real. Infelizmente, a cultura tornou-se um desses territórios protegidos artificialmente e é justamente aqui que volto a resgatar o papel da sátira. A sátira é fundamental porque desmonta falsas hierarquias e expõe o ridículo do poder das elites. A sátira incomoda precisamente quem se leva demasiado a sério, porque tem medo de perder estatuto simbólico. E quando se percebe que esta cultura institucional tende a tolerar menos a sátira e a crítica do que a própria política, descartando-a como sinal de ignorância, isso é revelador do quão anti-democrático se tornou esse sítio em que todos deveriam ser bem-vindos.
Eu acho que deu para perceber que eu não escrevi este texto porque detesto a arte, mas exactamente pelo contrário. Eu tenho é medo que este sistema que se montou à volta dela – esse, sim, que eu odeio – acabe, mais tarde ou mais cedo, por contribuir para a sua destruição. A minha crítica não é estética, mas ética. A minha crítica existe para defender a dignidade do olhar comum, a dignidade do público. Porque, francamente, quem não tem em conta o papel do público nem sequer merece ter público. A arte é a procura do belo, a arte é uma fábrica de sensações, a arte é feita para o Mundo! Quando não é assim, a arte morre.
