Isto de crescer ainda um dia acaba mal
Guilherme dos Santos Gomes, 19.11.22
O Presidente da República desvalorizou a situação no Qatar. Todo aquele desrespeito pelos direitos humanos e tal..., mas, enfim, esqueçamos isto. É criticável, mas concentremo-nos na crónica.
A época Natalícia está aí à porta, e comecei a reparar que, e citando António Mafra em “O Carteiro”, faz sentir-me infelizmente que isto já não é para mim, mas a culpa não é minha (nem do carteiro, porque o carteiro não tem culpa!), é das crianças. As crianças monopolizaram o Natal. Tudo nesta época gira à volta delas. Eu já não consigo estar a ver o Disney Junior como o interesse de um adulto a ver um documentário no Odisseia, porque de 15 em 15 minutos lá aparecem blocos publicitários de brinquedos! Não, não estou interessado nos novos “Washimals” da Crayola, muito obrigado. E são tão alucinantes! É óbvio que os miúdos ficam alienados e querem tudo! E no final de contas, quem é que sai a ganhar no meio desta festa do consumismo? São as crianças... e os acionistas da Concentra e da Giochi Preziosi.
Mas não foi para me irritar com as crianças que vim até aqui (aliás, eu não vim até lado nenhum. Eu estou no meu quarto...). Foi, sim, para refletir quanto ao crescimento. Ser criança é sempre muito giro. Ainda que na altura não nos apercebamos disso (até porque ainda não temos a maturidade para nos apercebermos disso), a verdade é que esses são os melhores anos para se viver. E atenção! Devo frisar que ser criança é que é a melhor coisa do Mundo, não são as crianças a melhor coisa do Mundo! A melhor coisa do mundo são aquelas garras para coçar as costas. É importante fazer esta distinção. Enquanto infantes, mal podemos esperar para crescer! É-nos impossível aproveitar o momento, que a vida de adulto parece infinitamente mais interessante (se bem que isto de não se conseguir aproveitar o momento é um bocado transversal a todas as idades. Carpe diem!). Da perspectiva de uma criança, os crescidos têm sempre as coisas mais fixes. Por exemplo, quando eu era pequeno, casacos com bolsos internos eram quase ficção científica! Algo apenas acessível aos adultos. Tantos lugares para meter coisas. Aquelas jaquetas tinham potencial para transportar o que quer que fosse, desde brinquedos, a doces, até mesmo terra e pedras. O céu era o limite, as possibilidades eram infinitas! Hoje, é quase certo que qualquer casaco que eu compre tem desses bolsos, e não lhes dou grande uso. Perdeu-se um bocado a magia, não vou mentir... Outra coisa que seguia a mesma lógica eram as sapatilhas com atacadores. A mim só me havia sido apresentado o velcro (que atenção, é a melhor invenção de sempre!). Só que neste caso, não me importava de continuar com ele. Apertar os atacadores dá muito trabalho! E eu, que pensava que para subir na vida era preciso usar sapatos de homem! Mas estou mais ou menos na mesma. E aquele nó. Ai, aquele nó! O que me custou a aprender a dar aquele nó! O sangue, o suor e as lágrimas que eu soltei! Por acaso não foi nenhum, mas vocês perceberam a ideia...
Mas as vantagens de ser criança não param por aqui. Quem não sente saudades de chegar da escola, ainda a tarde era, como nós, uma criança, e pensar “Humpf! Hoje não vou fazer nada para além de sentar o cu no sofá e assistir aos desenhos animados ou às séries juvenis do Disney Channel, até porque ainda por cima hoje é sexta-feira e dá o ‘We Love Sextas’.”? Por acaso muita gente, até porque quando grande parte da população do nosso país não tinha idade para ter juízo, só havia dois canais e das duas, uma: ou se esperava que o Vasco Granja trouxesse os bonecos (ou como diziam as avós, “os macacos”. Por falar nisso, tenho que perguntar à minha avó porquê “macacos”) ou então gramava-se com o “Duarte e Companhia”, “O Barco do Amor” ou “O Justiceiro”, que até nem são programas nada maus!
Chegou a hora da despedida. Deixar apenas um aviso ao meu público infantil (que é practicamente, para não dizer completamente, inexistente): aproveitem a vossa idade enquanto a têm... e não peçam a “Fábrica de Sabonetes” da Science4You ao Pai Natal. Vocês vão usar isso para aí uma vez, e dois dias depois do Natal já vai estar a ganhar pó numa prateleira, como o Wheezy no Toy Story 2. Adeus!
