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A Psique de Guilherme

Dissertações acerca de temas vários levadas a cabo por um adolescente com, nota-se, demasiado tempo nas mãos e opiniões, e assim... A Blogosfera vive!

A Psique de Guilherme

Dissertações acerca de temas vários levadas a cabo por um adolescente com, nota-se, demasiado tempo nas mãos e opiniões, e assim... A Blogosfera vive!

Quando A Estrela Brilha... (Guião)

Avatar do autor Guilherme dos Santos Gomes, 24.12.24

O filme começa com imagens de um apresentador de televisão dos anos 80 (estilo Telejornal da RTP) a encerrar a programação e a desejar um bom Natal aos espectadores.

Guilherme – Senhores telespectadores, obrigado por terem acompanhado a nossa emissão. É sempre uma honra ter-vos desse lado! Retomaremos a transmissão amanhã, às 7 horas, com o Telejornal. De mim, é tudo! Resta-me apenas desejar-vos a continuação de uma boa noite e um feliz Natal, na companhia de quem mais amam…

(A televisão é desligada abruptamente. Alguns segundos de tela preta. Surge o título do filme no ecrã.)

 

-- Créditos iniciais --

 

(Guilherme vai a descer a avenida, por entre as decorações de Natal, todo agasalhado e a falar ao telemóvel.)

Guilherme - Digo-te de coração: eu não consigo perceber esta coisa toda com o Natal! Só não acho minimamente interessante, mesmo!

Transeunte (grita-lhe) - GRINCH!

Guilherme (para o transeunte) - Santinho! (volta a falar para o telemóvel) E depois há isto! Parece que as pessoas não conseguem respeitar que há gente que simplesmente não gosta do Natal!

Marisa (do outro lado da chamada) - Tens que te tentar adaptar! Não é assim tão difícil!

Guilherme - E tu achas que eu não tento? Passo a vida nisso! Lembras-te daquela vez em que participei nas audições para aquele anúncio de Natal?

(Cut-gag com o Guilherme num palco a cantar uma música de Natal em frente a um júri.)

Jurado - Não querendo ser indelicado, mas tu não és exactamente aquilo que procuramos. Sabes que a nossa petrolífera tem uma certa reputação a manter, e a ti... a ti falta-te a emoção! Nós queremos passar às pessoas a ideia do ambiente familiar, do espírito de Natal. Não conseguimos encontrar isso em ti. Mas obrigado pelo teu tempo!

Guilherme (ainda ofegante) - Se fossem mas é para o cara...

(Retoma-se a cena de Guilherme a andar na rua.)

Guilherme - Eu fui completamente humilhado!

Marisa - Então fazes assim: quando chegares a casa, vais à Internet e pesquisas "Como preparar o Natal". Já que mais nada funciona, ao menos ficas entretido a ver as sugestões estúpidas dos experts que escrevem esses artigos!

Guilherme - Olha que isso até nem sequer é má ideia!

Marisa - Sabes que eu estou a brincar?

Guilherme - Olha, um beijinho! Tenho de ir!

Marisa - Tchau...

(Guilherme desata a correr. Corta para uma cena dele, já em casa, a pesquisar "Como preparar o Natal" no Google. Abre o site do WikiHow.)

Guilherme - Deixa cá ver isto... decorar a casa, dizes tu? Um pinheiro... Onde raio é que eu vou arranjar um pinheiro assim tão em cima da hora?

 

 

(Ema está em casa a arrumar umas coisas e, pelo meio de tralhas, encontra um velho álbum de fotografias.)

Ema - Já não via este álbum aos anos!

(Começa a folhear as páginas.)

Ema - Ai, éramos tão pirosas! Que cabelo é este? Que vergonha!

(De repente, fica com um ar mais cabisbaixo.)

Ema - E aqui estou eu e a Bia... Ela tinha umas bochechinhas tão fofas. Esta foto foi num Natal... um dos poucos que passamos juntas. Eu gostava tanto que ainda nos falássemos, mas a vida é mesmo assim. (fica em silêncio durante um bocadinho) Bom, tenho que arrumar isto!

(Ema está a aspirar a casa quando repara no telemóvel pousado na mesa.)

Ema - Ah, porra! Não custa tentar!

(Pega no telemóvel e marca um número. Põe-no no ouvido.)

Carolina - Quem é que será a esta hora? (impressionada) Leonor? (atende o telemóvel) Estou?

Ema - Bia? És tu? Só estou a ligar porque pronto... como é Natal, eu queria saber como é que estás. Já passou tanto tempo, desde a última vez! Quê? Uns 10 anos, não?

Carolina - Para aí, sim. Olha, eu sei que as tuas intenções são muito boas, mas se calhar o nosso afastamento foi pelo melhor! A morte do pai não foi fácil para nenhuma de nós, eu sei que não, mas talvez termos seguido caminhos diferentes... talvez tenha sido a coisa correcta a fazer.

Ema - Sim, se calhar... Se é assim que te sentes, eu vou respeitar. Só senti que talvez já tivesse sido tempo a mais, só isso!

Carolina - Leonor, isto é o melhor que temos a fazer, tu sabes que sim! Ambas agimos mal, ambas dissemos coisas que não devíamos ter dito... as coisas não acontecem por acaso! Tu tens a tua vida, eu tenho a minha, e acho que o melhor é continuarmos assim.

Ema (triste) - Claro que sim, sem dúvida! Então... Um bom Natal!

Carolina - Adeus, Leonor!

(A chamada é desligada. Ema está visivelmente triste.)

Ema - Parece que foi desta! Até um dia destes, Bia!

(Corta para a casa da Carolina.)

Carolina - Leonor, Leonor! Tu nunca mudas!

(Carolina recebe uma mensagem no telemóvel. É a fotografia delas quando eram mais pequenas, que a Ema tinha visto há pouco.)

Carolina (entre o triste e o arrependida) - Acho que fui um bocadinho bruta com ela... Se calhar ela até tem razão: é Natal, devemo-nos dar uma chance... Eu vou fazer isto resultar!

 

 

(Cena da Alice sentada numa mesa a acabar de escrever uma carta ao Pai Natal.)

Alice - E... fim! Espero mesmo que o Pai Natal me consiga dar o que eu quero, este ano!

(Alice levanta-se, pega no casaco e prepara-se para sair de casa.)

Luis - Onde é que vais com essa rapidez toda?

Alice - Vou só lá fora mandar a carta para o Pai Natal!

Luis - Está bem, mas não te demores, que o almoço está quase pronto!

Alice - OK!

(Alice sai de casa a correr e, pelo caminho dá de caras com o Rui.)

Alice - Bom dia, Sr. Mateus!

Rui - Bom dia, menina! Para que é esta correria toda?

Alice - Estou a correr porque tenho que enviar a minha carta para o Pai Natal! E este ano já me atrasei um bocadinho... Espero que ele ainda a consiga receber antes da Véspera de Natal!

Rui (entre risadinhas) - Pff... Pai Natal! A sério que ainda acreditas nisso?

Alice - E porque é que não haveria de acreditar? Você não acredita?

Rui - Claro que não! O Pai Natal não existe, nunca te disseram isso?!

Alice - Não... existe?

Rui - É claro que não! Um gordo, de barbas, que entrega prendas a todas as crianças do Mundo numa noite, e viaja num trenó voador puxado por renas? Onde é que isso faz sentido?

(A Alice fica chocada e deixa cair a carta ao chão. Com lágrimas nos olhos, volta para casa a chorar. A câmara foca na carta:
"Querido Pai Natal, o único desejo que tenho este ano é saber que tu és mesmo real! Ah, e também queria a paz no Mundo, mas isso já era mais um capricho meu... Adoro-te! Ass.: Maria")

Guilherme (num aparte, levantando a câmara do chão) - Eu sei que não tem lógica absolutamente nenhuma a carta não estar metida num envelope nem tampouco dobrada, mas esta cena não ia funcionar de outra forma, OK? Não sejam mesquinhos, é Natal!

 

 

(Cena em que o Pai Natal está a olhar-se ao espelho na casa-de-banho e começa a dançar e a cantarolar que é o maior, e assim. De repente, entra um elfo que o interrompe.)

Ema (a olhar para o telemóvel) – Pai Natal, recebi um email do Departamento de Peluches e eles estão a dizer que já acabou o enchimento. O que é que eu respondo?… (olha para cima).

Guilherme (meio embasbacado) – Acabou o enchimento, foi?

Ema (atrapalhada) – Hum… sim, sim, acabou!

Guilherme – OK, OK… posso responder-te a isso mais logo?

Ema – Eles estavam a pedir-me para lhes enviar uma resposta o mais rápido possível.

Guilherme – Ai sim? Bom… podes dizer para encomendarem mais, que depois lá se fazem as contas, está bem?

Ema – Está bem, Pai Natal! Com licença.

Guilherme – Está à vontade!

(O elfo sai da casa-de-banho. O Pai Natal fica uns segundos parado a olhar para o nada.)

Guilherme – Bom, onde é que eu estava, mesmo? Ah, pois! (volta a dançar em frente ao espelho)

 

-- Pausa para Publicidade –-

 

Está cansada do seu cabelo de cocó? Já se fartou de gastar o seu dinheiro em produtos capilares que tanto prometem, mas que em nada resultam? Então "Laca Virgin" é para si!
Feita pelos melhores e mais experientes especialistas em cuidado capilar, "Laca Virgin" é o melhor amigo do seu cabelo! Se sempre quis ter o cabelo como a Madonna, esta é a sua oportunidade!

Jingle:
"Laca Virgin, whoo!
Deixa-te o cabelo como o da Madonna nos anos 80
Laca Vi-i-i-ir-gin
Nem sequer é preciso pentear"

Laca Virgin: Caracóis definidos. Cabelo forte. Sífilis... provavelmente...

Laca Virgin não foi submetido a testes laboratoriais. Para mais informações, contacte o seu médico ou farmacêutico. Efeitos secundários podem envolver enfraquecimento do couro cabeludo, queda de cabelo, apodrecimento dos dentes e das gengivas, aparecimento de papos negros nos braços, cancro do cólon, alterações significativas no código genético, multas por excesso de velocidade, a queda do Governo, pragas de gafanhotos, chuvas de rãs, infecções provocadas pela bactéria E. coli e a morte. As farmacêuticas "Santos, Cunha, Ferreira, Mendes, Gomes & Filhos, Lda." não se responsabilizam por absolutamente nada, nos termos do "não nos apetece pagar indemnizações a pessoas que compram este produto na ilusão de ficarem parecidas com uma cantora Pop que até já nem é particularmente relevante". Cumprimentos!

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Com Nenuco és a melhor enfermeira!

Criança 1 - Nenuco Leucemia é tão divertido!

Podes levá-lo a passear... e aos tratamentos!

Criança 2 - Mas cuidado com os sintomas!

E a sorte é que o Nenuco já é careca!

Criança 1 - O Nenuco Leucemia até traz uma máquina de fazer biópsias!

Nenuco Leucemia: para quem sempre quis sofrer por causa de um boneco de plástico!

 

-- Fim da Pausa --

 

(Corta para o Guilherme a chegar a pé a um mato, com um machado ao ombro.)

Guilherme - No que tu te metes, rapaz! E tudo para que não te chateiem a cabeça com "o Natal isto" e "o Natal aquilo"... Quero lá eu saber do Natal! Afinal de contas, tudo isto não passa de uma invenção do capitalismo para fazer as pessoas gastarem dinheiro em prendas! "Ai, mas é tão bonita, a ideia do Natal com neve, e a família toda reunida"... Neve? NEM SEQUER NEVA, NESTA PORCARIA DE SÍTIO! Porra para isto tudo! Não há aqui pinheiros! Vou ter que me amanhar de outra forma.

(Corta para o Guilherme na parte de fora de um grande estabelecimento comercial.)

Guilherme - OK, se calhar aqui é mais fácil...

(Volta para o Guilherme no site do WikiHow.)

Guilherme - Bolas, fitas, estrelas... É provável que ainda tenha isso tudo guardado na garagem... Ao que eu me sujeito, francamente!

(Guilherme vai à garagem e pega numa caixa cheia de pó. Sopra, levantando uma nuvem de poeira.)

Guilherme (pelo meio da tosse) - É capaz de ser isto!

(Corta para o Guilherme a olhar para a árvore, já montada e decorada.)

Guilherme - Até nem ficou nada mal!...

(De novo, Guilherme no site da WikiHow.)

Guilherme - Próximo passo: ver um filme de Natal. Não me digam que agora tenho que ir vasculhar nas cassetes do meu pai?!

(Guilherme com um VHS na mão.)

Guilherme - Ah, o bom velho "Pai Natal Conquista Os Marcianos"! Espero que não me desiluda como da última vez...

(Cut-gag do Guilherme sentado a olhar para a televisão.)

Guilherme - Que não seja pornografia! Que não seja pornografia!

(Começa a dar uma música de filme pornográfico)

Guilherme - É pornografia...

(Volta à cena de Guilherme a ver o filme. Vêm-se umas cenas no ecrã da televisão.)

Guilherme (confuso) - Se calhar não era bem a isto que o artigo se referia...

(Corta para o Guilherme no site do WikiHow uma última vez.)

Guilherme - "Planear eventos de Natal"...

(Cena do Guilherme no meio da rua com um microfone.)

Guilherme - Senhoras e senhores, meninos e meninas, tenho o prazer de vos apresentar o mais esperado divertimento deste Natal: o Pai Natal bêbado! Sentem-se e peçam-lhe coisas, e eu prometo que ele vos manda passear de uma maneira diferente de todas as vezes!

Transeunte - GRINCH!

Pai Natal Bêbado - Acho que os teus esforços estão a ser infrutíferos porque tu não estás a fazer as coisas com o espírito necessário! Eu aconselhava-te, se queres saber a minha opinião, a fazer uma reflexão e a tentar perceber o porquê desta tua tão grande repulsa ao Natal. Tentar ir buscar traumas antigos, ou algo assim. Não concordas?

Guilherme - Cala-te!

 

Alice (a chorar) - O Pai Natal não pode ser mentira! Eu sei que ele existe!

(Alice entra em casa e sobe as escadas a correr.)

Luis - Maria, está tudo bem? (vai até ao fundo das escadas) Maria!

Alice - Não quero falar contigo!

(Luis sobe as escadas e encontra Alice no quarto a chorar.)

Luis - O que é que aconteceu? Está tudo bem?

Alice - O Pai Natal não existe, pois não?

Luis - Quem é que te disse isso?

Alice - O Sr. Mateus, quando eu estava a sair para ir mandar a carta.

Luis - Maria, ia chegar a uma altura em que ias ter que saber... mas é verdade! O Pai Natal não existe. São os pais que compram as prendas às crianças.

(Alice fica em estado de choque.)

Alice - Porque é que vocês haviam de me mentir?

Luis - Para te ver feliz! Acreditar no Pai Natal é um dos últimos pedaços de infância que nós conservamos, e perdê-lo significa perder muita coisa!

Alice - Eu nem sei como reagir! Preciso que me deixes um bocadinho sozinha, por favor!

Luis - É claro! Quando estiveres melhor, anda para baixo, para almoçar.

(Alice põe-se a andar para cá e para lá no quarto dela.)

Alice - Como é que eu pude ser tão burra? Era óbvio que o Pai Natal não ia existir! Não tem lógica, o Sr. Mateus tem razão. Mas eu queria tanto que fosse verdade!

 

 

(Entretanto, na Lapónia, um duende entra de rompante no escritório do Pai Natal.)

Carolina - Pai Natal, precisamos de fazer uma saída de emergência! Uma criança acabou de deixar de acreditar em ti e nós não podemos permitir isso!

Guilherme - Todos os anos, milhares de crianças deixam de acreditar em mim e nós nunca nos preocupamos com isso!

Carolina - Mas esta criança é especial, OK?

Guilherme - Porquê? É toda deficientezinha ou assim?

Carolina - TU VAIS TER COM ESTA CRIANÇA E PONTO FINAL!

Guilherme - Mas ainda falta uma semana para a Véspera de Natal. Quem é que vai pagar o gasóleo para esta deslocação extra?

Carolina (irritada) - PAI NATAL!

Guilherme (encolhido) - Não grites comigo.

 

(Mais tarde, Ema está em casa a ler um livro. Ouve alguém a bater à porta. Vai abrir e é a Carolina.)

Carolina - Olá!...

Ema - Olá!...

Carolina - Olha... desculpa por estar a vir aqui tão tarde, mas... tinha uma prenda para te dar. (dá-lhe um embrulho). Toma!

(Carolina vira costas e começa a descer a rua. Ema fica a olhar para a prenda, com ar meio arrependido.)

Ema - Ei, Bia! (Carolina olha para trás) Obrigado... e feliz Natal!

Carolina (a sorrir) - Feliz Natal!

(Carolina continua a descer a rua, agora com um sorriso na cara. Ema volta a olhar para o presente, também a sorrir. Fecha a porta. Entra e abre-o. É um antigo brinquedo delas.)

Ema - Ela lembrou-se!

(Ema volta a pegar no telemóvel e liga de novo a Carolina.)

Ema - Miúda, faz o favor de voltar aqui neste preciso instante! E eu que não tenha que dizer isto outra vez!

(Carolina está à porta da casa da Ema. Ema está do lado de dentro. Olham-se uma à outra durante uns segundos até que dão um forte abraço.)

Ema - Desculpa por tudo!

Carolina - Eu é que tenho que te pedir desculpa! Nunca devíamos ter deixado que as nossas diferenças nos afastassem!

Ema - Tens razão, Bia! Podemos voltar a ser irmãs, por favor?

Carolina - É claro que sim, parola!

Ema - Parola és tu!

(Entram as duas para casa a rir e a conversar. A porta fecha-se atrás delas.)

 

-- Pausa para Publicidade –-

 

É oficial! Acabou de ser lançado o álbum de Natal de Noel Silvestre, "The Best Of Christmas", mesmo a tempo de fazer as suas compras de Natal!
Com clássicos como...

(Noel Silvestre canta músicas de Natal.)

E com magníficos duetos com estrelas como:

  • Clara Belém,
  • Aurora Boreal,
  • e Raquel Luz!

"The Best Of Christmas" de Noel Silvestre… nas lojas agora!

 

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(Estão duas crianças a brincar num jardim.)

Criança 1 - Pai, Pai! Anda brincar!

(O pai, sentado numa cadeira, tenta-se levantar, mas não consegue, derivado das dores que a sua corcunda lhe provoca.)

Narrador - Sente-se triste por não poder desfrutar de tempo de qualidade com os seus filhos?

(Corcunda acena positivamente com a cabeça.)

Narrador - Tem receio que eles, derivado do seu aparente desapego emocional, o abandonem, quando chegar à 3ª idade?

(Corcunda acena positivamente com a cabeça.)

Narrador - Então nós temos a solução para si! O novo e revolucionário "Quasimodofen" promete diminuir a sua corcunda e aumentar a sua felicidade e qualidade de vida!

Esposa - Estou muito feliz! Desde que o meu marido começou a tomar o "Quasimodofen" que vivemos muito melhor cá em casa! Já consegue brincar com as crianças, fazer as tarefas domésticas, ir à casa de banho sem precisar da minha ajuda... Parece que foi um milagre!

(Surge o corcunda parado na rua)

Corcunda - Eu antes era coxo e marreco, mas graças ao "Quasimodofen", agora só sou coxo! Obrigado, "Quasimodofen"!

(Corcunda vira-se de costas e começa a andar, coxeando)

Narrador - Quasimodofen: o segredo da sua felicidade está aqui!

Quasimodofen é um produto "Santos, Cunha, Ferreira, Mendes, Gomes & Filhos, Lda."!

 

-- Fim da Pausa --

 

(Cena do Guilherme a falar ao telemóvel com a Marisa na sala.)

Guilherme - Já decorei uma árvore, já vi filmes de Natal horríveis, já ouvi o "All I Want For Christmas Is You" umas boas dezenas de vezes... porra, até comprei uma rena!

(Guilherme olha pela janela. Cena de uma rena a comer erva no jardim.)

Guilherme - Estás satisfeita, agora?

Marisa - Satisfeita, eu? Se estás a fazer isto para me agradar, podes estar quietinho! Sinceramente, eu não te consigo perceber! Já pensaste que, se calhar, os teus esforços estão a ser infrutíferos porque tu não estás a fazer as coisas com o espírito necessário? Eu aconselhava-te, se queres saber a minha opinião, a fazer uma reflexão e a tentar perceber o porquê desta tua tão grande repulsa ao Natal. Tentar ir buscar traumas antigos, ou algo assim...

Guilherme - Isso foi exactamente o que me disse o Pai Natal Bêbado...

Marisa - Mas entendes onde é que eu quero chegar com isto? Talvez tu sejas mesmo igual ao Grinch e, quem sabe, exista uma razão para não gostares do Natal!

Guilherme - Agora que falas, talvez haja mesmo. É que sabes? Eu nunca soube o que era o Natal... Os meus pais nunca ligaram a isso. Não me lembro de ter recebido uma única prenda; não me lembro de ter decorações em casa; não me lembro de ouvir uma música que fosse... E eu via os meus amigos todos ansiosos pelo dia 24 e, para mim, isso sempre foi sinónimo de tristeza e melancolia, nada mais! A única pessoa que me lembro de me desejar um feliz Natal e de me dar sempre uma fritinha era o meu bisavô...

Marisa - Está na altura de mudares isso! Tu és capaz, eu sei que sim! Bom Natal, miúdo!

Guilherme - Bom Natal...

(Desliga o telemóvel. Olha pela janela.)

Guilherme - Estás satisfeito, Universo? Eu estou a festejar o Natal! Quem é que eu quero enganar? Só um milagre é que podia fazer com que isto tivesse algum sentido na minha cabeça!...

(No céu, vê-se uma estrela brilhante a pulsar e ouvem-se sinos e um "Ho-Ho-Ho".)

Guilherme (a olhar para a câmara) - Não era tão bom se a vida fosse mesmo assim?

 

 

(Alice está a olhar pela janela do quarto e vê a mesma estrela a pulsar no céu.)

Alice – Será possível?

(Pega no casaco, sai do quarto a correr e dirige-se para a porta.)

Luis – Onde vais com essa pressa toda, Maria?

Alice – Vou provar que o Pai Natal existe. Se quiseres, podes vir ver!

(Da janela de casa, o Rui também vê o clarão no céu.)

Rui (encolhendo os ombros) Sempre soube! (fecha a janela)

 

 

(Cena na casa da Ema, com as duas à conversa sentadas no sofá.)

Carolina - Já reparaste que só para nós é que o facto de Pai Natal estar a aparecer ou não foi indiferente?

Ema - Por acaso... Mas, se calhar, é melhor irmos lá ter na mesma!

Carolina - Sim, vamos!

 

 

(Reúnem-se todos num largo à frente do sítio onde a luz que se via no céu aterra. O Pai Natal.)

Pai Natal – Olá, pessoas!

Todos (em uníssono) – PAI NATAL!

Pai Natal – É, sou eu mesmo!

Ema – Onde é que está o teu trenó?

Pai Natal – Está ali para trás, estacionado na mata.

Guilherme – Não estás a dizer isso só porque não há orçamento para ter aqui um trenó a sério, pois não?

Pai Natal (atrapalhado)Nada disso! É mesmo porque o estacionei ali atrás…

Carolina – O que é que estás aqui a fazer? Ainda não é Natal!

Pai Natal – Vim aqui de propósito por uma razão muito especial: para restaurar a crença de uma menina em mim!

Alice – Eu, Pai Natal?

Pai Natal – Sim, tu mesmo! Maria, eu sou real!

Alice – Eu sabia, Pai Natal, eu sabia! (abraça o Pai Natal)

Luis – Espera aí! Se tu existes mesmo, então por que raio é que sou eu que compro as prendas de Natal?

Pai Natal (atrapalhado) É que sabe, houve alguns cortes no orçamento, tivemos de nos ajustar à inflação, e… Ui, que horas já são! A Mãe Natal dá cabo de mim se chego atrasado para jantar! Adeus, pessoal! Adeus, Maria!

Alice – Tchau, Pai Natal!

(O Pai Natal desaparece por entre a vegetação.)

Ema – Então e agora?

Carolina – Eu sou capaz de ter uma ideia…

(Cena com todos sentados em cadeiras a assistir a um concerto de Natal do Noel Silvestre.)

Guilherme (num aparte, olhando para a câmara) Faz algum sentido esta história estar a acabar assim? Não, não faz! Mas quer dizer: tendo um palco disponível, tinha de o utilizar, e também não podia desperdiçar um personagem como o Noel Silvestre, não é? Vá, pessoal, aproveitem a viagem! Feliz Natal!

 

FIM

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Trabalhos de Casa #6: “Querido Pai Natal”

Avatar do autor Guilherme dos Santos Gomes, 03.12.22

Declaro que a Quadra Natalícia começa aaaaa... gora: Bom Natal! Agora que já estamos no espírito, acho que podemos começar. Porém, faço um aviso: tudo o que eu possa dizer nesta crónica, por mais estúpido que seja, pode ser resultado de uma gripe mal curada! É só mesmo uma advertência que, aliás, acho que poderia dar bastante jeito ao Kanye West, neste momento: Sr. West, não diga é Nazi, diga que é só uma virose mal curada ou assim, está bem? Vá, cumprimentos e resto de um bom dia! Ora, hoje é dia de mais um Trabalhos de Casa. Neste sexto episódio vou-vos apresentar, como devem calcular, um texto subordinado à temática “Natal”, mais especificamente às cartas a esse mítico gordalhão que é o senhor Pai Natal! Retirado do meu caderno da 3.ª Classe, eis o texto do dia 1 de Dezembro de 2014, com o nome, acredito, “Querido Pai Natal”:

Querido Pai Natal:

Nesta carta não te vou pedir nada, mas só te vou falar da vida. Eu gostava que este ano passasses em minha casa ou nas dos meus avós e tirasses uma fotografia comigo, para eu provar que és real. Prometo que vou ser bem comportado e respeitarei os meus pais. Quando tocar a meia noite estarei à tua espera na sala de estar.

Quando chegáres estaciona o carro de renas, bate à porta, que eu estarei lá e doute umas bolachinhas. Não te preocupes se não souberes onde é que fica a minha casa, eu ajudo-te.

Também me podes contar histórias de como se fazem as coisas lá na fábrica e quantos anos e duendes tens.

Só espero que neste Natal todos os meninos do Mundo recebam pelo menos uma coisinha, com paz e amor.

Pai Natal, recebe esta carta com um xi-coração e não te esqueças do que te pedi.

Uma pessoa que acredita em ti,

Guilherme Gomes

Vamos lá ver: neste texto, eu faço um dos mais descabidos pedidos da história da humanidade! Então alguma vez o Pai Natal ia aceitar tirar uma fotografia comigo? O gajo anda para aí a fazer trinta por uma linha, a descer de chaminés e o camandro, para não ser visto, e ia aceitar de bom grado que eu registasse a sua imagem para, ainda por cima, provar aos outros que ele é real?!? Se o Nicolau se quisesse mostrar, não entrava nas casas estilo assaltante! Batia à porta, como uma pessoa normal! Às vezes tenho vergonha de mim mesmo, sabem? Que estúpido.

Depois, que falso que este puto era! Ai, que não sei quê, “espero que todas as crianças recebam uma prendinha, com paz e amor”. FALSO! Pareço a Miss Universo, pá! “Peace in the World and no war and very beautiful things and coiso...”. Com oito anos, acho que ninguém está propriamente preocupado com as outras crianças (exceptuando, talvez, a Greta. Essa era capaz de se preocupar um bocadinho.). Nós queríamos era receber os nossos brinquedos! Não nos importávamos com aquela criança da República Centro-Africana, que se calhar não ia receber o “Mauzão” ou o “Mentiroso” que tinha pedido ao Pai Natal... até porque é extremamente improvável uma criança da República Centro-Africana pedir jogos da Concentra... e acreditar no Pai Natal... e estar viva...

Por isso, e para terminar, vou fazer uma edição especial com não uma, mas DUAS composições dos meus tempos de petiz! A que eu vos vou apresentar de seguida não era bem uma composição. Era um trabalho em que eu tive que escrever tudo aquilo que queria pedir ao Pai Natal, mas dentro do desenho de uma bota. E no fundo, o que eu fiz foi enumerar a totalidade destes meus desejos num texto corrido. E, agora sim, demonstro o que uma criança de 8 anos realmente é: um vil e voraz capitalista! Do dia 16 de Dezembro de 2014, a minha lista ao Pai Natal:

Um Tom e Jerry, Monopoly, Sem Palavras, Lisboa, Furby Boom, um Duende, Tablet Samsung, uma Mãe Natal, Playstation, jogo Disney Infinity para Playstation, jogo “O Gui”, o Rodolfo, um jogo da Science4You, o teu Trenó, um chocolate do tamanho do Pai Natal, uma das renas do Pai Natal, um Ferb e Phineas, um País, um Cãozinho, um Microscópio, um Hamster, um Carro do meu tamanho, um Livro, um Esqueleto, um Iphone 6, um Livro, uma casa com garagem e carro e móveis e banheira apropriada para o meu Smurf, Zoomer, o Trivial Pursuit Família, Trash Packs, a roupa do Pai Natal, um Helicóptero, um Barco dos Descobrimentos, um Mapa, e o Universo.

Como diziam os desenhos animados da Europa de Leste que o Vasco Granja trazia nos anos 80: Koniec!

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