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A Psique de Guilherme

Dissertações acerca de temas vários levadas a cabo por um adolescente com, nota-se, demasiado tempo nas mãos e opiniões, e assim... A Blogosfera vive!

A Psique de Guilherme

Dissertações acerca de temas vários levadas a cabo por um adolescente com, nota-se, demasiado tempo nas mãos e opiniões, e assim... A Blogosfera vive!

Quando A Estrela Brilha... (Guião)

Avatar do autor Guilherme dos Santos Gomes, 24.12.24

O filme começa com imagens de um apresentador de televisão dos anos 80 (estilo Telejornal da RTP) a encerrar a programação e a desejar um bom Natal aos espectadores.

Guilherme – Senhores telespectadores, obrigado por terem acompanhado a nossa emissão. É sempre uma honra ter-vos desse lado! Retomaremos a transmissão amanhã, às 7 horas, com o Telejornal. De mim, é tudo! Resta-me apenas desejar-vos a continuação de uma boa noite e um feliz Natal, na companhia de quem mais amam…

(A televisão é desligada abruptamente. Alguns segundos de tela preta. Surge o título do filme no ecrã.)

 

-- Créditos iniciais --

 

(Guilherme vai a descer a avenida, por entre as decorações de Natal, todo agasalhado e a falar ao telemóvel.)

Guilherme - Digo-te de coração: eu não consigo perceber esta coisa toda com o Natal! Só não acho minimamente interessante, mesmo!

Transeunte (grita-lhe) - GRINCH!

Guilherme (para o transeunte) - Santinho! (volta a falar para o telemóvel) E depois há isto! Parece que as pessoas não conseguem respeitar que há gente que simplesmente não gosta do Natal!

Marisa (do outro lado da chamada) - Tens que te tentar adaptar! Não é assim tão difícil!

Guilherme - E tu achas que eu não tento? Passo a vida nisso! Lembras-te daquela vez em que participei nas audições para aquele anúncio de Natal?

(Cut-gag com o Guilherme num palco a cantar uma música de Natal em frente a um júri.)

Jurado - Não querendo ser indelicado, mas tu não és exactamente aquilo que procuramos. Sabes que a nossa petrolífera tem uma certa reputação a manter, e a ti... a ti falta-te a emoção! Nós queremos passar às pessoas a ideia do ambiente familiar, do espírito de Natal. Não conseguimos encontrar isso em ti. Mas obrigado pelo teu tempo!

Guilherme (ainda ofegante) - Se fossem mas é para o cara...

(Retoma-se a cena de Guilherme a andar na rua.)

Guilherme - Eu fui completamente humilhado!

Marisa - Então fazes assim: quando chegares a casa, vais à Internet e pesquisas "Como preparar o Natal". Já que mais nada funciona, ao menos ficas entretido a ver as sugestões estúpidas dos experts que escrevem esses artigos!

Guilherme - Olha que isso até nem sequer é má ideia!

Marisa - Sabes que eu estou a brincar?

Guilherme - Olha, um beijinho! Tenho de ir!

Marisa - Tchau...

(Guilherme desata a correr. Corta para uma cena dele, já em casa, a pesquisar "Como preparar o Natal" no Google. Abre o site do WikiHow.)

Guilherme - Deixa cá ver isto... decorar a casa, dizes tu? Um pinheiro... Onde raio é que eu vou arranjar um pinheiro assim tão em cima da hora?

 

 

(Ema está em casa a arrumar umas coisas e, pelo meio de tralhas, encontra um velho álbum de fotografias.)

Ema - Já não via este álbum aos anos!

(Começa a folhear as páginas.)

Ema - Ai, éramos tão pirosas! Que cabelo é este? Que vergonha!

(De repente, fica com um ar mais cabisbaixo.)

Ema - E aqui estou eu e a Bia... Ela tinha umas bochechinhas tão fofas. Esta foto foi num Natal... um dos poucos que passamos juntas. Eu gostava tanto que ainda nos falássemos, mas a vida é mesmo assim. (fica em silêncio durante um bocadinho) Bom, tenho que arrumar isto!

(Ema está a aspirar a casa quando repara no telemóvel pousado na mesa.)

Ema - Ah, porra! Não custa tentar!

(Pega no telemóvel e marca um número. Põe-no no ouvido.)

Carolina - Quem é que será a esta hora? (impressionada) Leonor? (atende o telemóvel) Estou?

Ema - Bia? És tu? Só estou a ligar porque pronto... como é Natal, eu queria saber como é que estás. Já passou tanto tempo, desde a última vez! Quê? Uns 10 anos, não?

Carolina - Para aí, sim. Olha, eu sei que as tuas intenções são muito boas, mas se calhar o nosso afastamento foi pelo melhor! A morte do pai não foi fácil para nenhuma de nós, eu sei que não, mas talvez termos seguido caminhos diferentes... talvez tenha sido a coisa correcta a fazer.

Ema - Sim, se calhar... Se é assim que te sentes, eu vou respeitar. Só senti que talvez já tivesse sido tempo a mais, só isso!

Carolina - Leonor, isto é o melhor que temos a fazer, tu sabes que sim! Ambas agimos mal, ambas dissemos coisas que não devíamos ter dito... as coisas não acontecem por acaso! Tu tens a tua vida, eu tenho a minha, e acho que o melhor é continuarmos assim.

Ema (triste) - Claro que sim, sem dúvida! Então... Um bom Natal!

Carolina - Adeus, Leonor!

(A chamada é desligada. Ema está visivelmente triste.)

Ema - Parece que foi desta! Até um dia destes, Bia!

(Corta para a casa da Carolina.)

Carolina - Leonor, Leonor! Tu nunca mudas!

(Carolina recebe uma mensagem no telemóvel. É a fotografia delas quando eram mais pequenas, que a Ema tinha visto há pouco.)

Carolina (entre o triste e o arrependida) - Acho que fui um bocadinho bruta com ela... Se calhar ela até tem razão: é Natal, devemo-nos dar uma chance... Eu vou fazer isto resultar!

 

 

(Cena da Alice sentada numa mesa a acabar de escrever uma carta ao Pai Natal.)

Alice - E... fim! Espero mesmo que o Pai Natal me consiga dar o que eu quero, este ano!

(Alice levanta-se, pega no casaco e prepara-se para sair de casa.)

Luis - Onde é que vais com essa rapidez toda?

Alice - Vou só lá fora mandar a carta para o Pai Natal!

Luis - Está bem, mas não te demores, que o almoço está quase pronto!

Alice - OK!

(Alice sai de casa a correr e, pelo caminho dá de caras com o Rui.)

Alice - Bom dia, Sr. Mateus!

Rui - Bom dia, menina! Para que é esta correria toda?

Alice - Estou a correr porque tenho que enviar a minha carta para o Pai Natal! E este ano já me atrasei um bocadinho... Espero que ele ainda a consiga receber antes da Véspera de Natal!

Rui (entre risadinhas) - Pff... Pai Natal! A sério que ainda acreditas nisso?

Alice - E porque é que não haveria de acreditar? Você não acredita?

Rui - Claro que não! O Pai Natal não existe, nunca te disseram isso?!

Alice - Não... existe?

Rui - É claro que não! Um gordo, de barbas, que entrega prendas a todas as crianças do Mundo numa noite, e viaja num trenó voador puxado por renas? Onde é que isso faz sentido?

(A Alice fica chocada e deixa cair a carta ao chão. Com lágrimas nos olhos, volta para casa a chorar. A câmara foca na carta:
"Querido Pai Natal, o único desejo que tenho este ano é saber que tu és mesmo real! Ah, e também queria a paz no Mundo, mas isso já era mais um capricho meu... Adoro-te! Ass.: Maria")

Guilherme (num aparte, levantando a câmara do chão) - Eu sei que não tem lógica absolutamente nenhuma a carta não estar metida num envelope nem tampouco dobrada, mas esta cena não ia funcionar de outra forma, OK? Não sejam mesquinhos, é Natal!

 

 

(Cena em que o Pai Natal está a olhar-se ao espelho na casa-de-banho e começa a dançar e a cantarolar que é o maior, e assim. De repente, entra um elfo que o interrompe.)

Ema (a olhar para o telemóvel) – Pai Natal, recebi um email do Departamento de Peluches e eles estão a dizer que já acabou o enchimento. O que é que eu respondo?… (olha para cima).

Guilherme (meio embasbacado) – Acabou o enchimento, foi?

Ema (atrapalhada) – Hum… sim, sim, acabou!

Guilherme – OK, OK… posso responder-te a isso mais logo?

Ema – Eles estavam a pedir-me para lhes enviar uma resposta o mais rápido possível.

Guilherme – Ai sim? Bom… podes dizer para encomendarem mais, que depois lá se fazem as contas, está bem?

Ema – Está bem, Pai Natal! Com licença.

Guilherme – Está à vontade!

(O elfo sai da casa-de-banho. O Pai Natal fica uns segundos parado a olhar para o nada.)

Guilherme – Bom, onde é que eu estava, mesmo? Ah, pois! (volta a dançar em frente ao espelho)

 

-- Pausa para Publicidade –-

 

Está cansada do seu cabelo de cocó? Já se fartou de gastar o seu dinheiro em produtos capilares que tanto prometem, mas que em nada resultam? Então "Laca Virgin" é para si!
Feita pelos melhores e mais experientes especialistas em cuidado capilar, "Laca Virgin" é o melhor amigo do seu cabelo! Se sempre quis ter o cabelo como a Madonna, esta é a sua oportunidade!

Jingle:
"Laca Virgin, whoo!
Deixa-te o cabelo como o da Madonna nos anos 80
Laca Vi-i-i-ir-gin
Nem sequer é preciso pentear"

Laca Virgin: Caracóis definidos. Cabelo forte. Sífilis... provavelmente...

Laca Virgin não foi submetido a testes laboratoriais. Para mais informações, contacte o seu médico ou farmacêutico. Efeitos secundários podem envolver enfraquecimento do couro cabeludo, queda de cabelo, apodrecimento dos dentes e das gengivas, aparecimento de papos negros nos braços, cancro do cólon, alterações significativas no código genético, multas por excesso de velocidade, a queda do Governo, pragas de gafanhotos, chuvas de rãs, infecções provocadas pela bactéria E. coli e a morte. As farmacêuticas "Santos, Cunha, Ferreira, Mendes, Gomes & Filhos, Lda." não se responsabilizam por absolutamente nada, nos termos do "não nos apetece pagar indemnizações a pessoas que compram este produto na ilusão de ficarem parecidas com uma cantora Pop que até já nem é particularmente relevante". Cumprimentos!

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Com Nenuco és a melhor enfermeira!

Criança 1 - Nenuco Leucemia é tão divertido!

Podes levá-lo a passear... e aos tratamentos!

Criança 2 - Mas cuidado com os sintomas!

E a sorte é que o Nenuco já é careca!

Criança 1 - O Nenuco Leucemia até traz uma máquina de fazer biópsias!

Nenuco Leucemia: para quem sempre quis sofrer por causa de um boneco de plástico!

 

-- Fim da Pausa --

 

(Corta para o Guilherme a chegar a pé a um mato, com um machado ao ombro.)

Guilherme - No que tu te metes, rapaz! E tudo para que não te chateiem a cabeça com "o Natal isto" e "o Natal aquilo"... Quero lá eu saber do Natal! Afinal de contas, tudo isto não passa de uma invenção do capitalismo para fazer as pessoas gastarem dinheiro em prendas! "Ai, mas é tão bonita, a ideia do Natal com neve, e a família toda reunida"... Neve? NEM SEQUER NEVA, NESTA PORCARIA DE SÍTIO! Porra para isto tudo! Não há aqui pinheiros! Vou ter que me amanhar de outra forma.

(Corta para o Guilherme na parte de fora de um grande estabelecimento comercial.)

Guilherme - OK, se calhar aqui é mais fácil...

(Volta para o Guilherme no site do WikiHow.)

Guilherme - Bolas, fitas, estrelas... É provável que ainda tenha isso tudo guardado na garagem... Ao que eu me sujeito, francamente!

(Guilherme vai à garagem e pega numa caixa cheia de pó. Sopra, levantando uma nuvem de poeira.)

Guilherme (pelo meio da tosse) - É capaz de ser isto!

(Corta para o Guilherme a olhar para a árvore, já montada e decorada.)

Guilherme - Até nem ficou nada mal!...

(De novo, Guilherme no site da WikiHow.)

Guilherme - Próximo passo: ver um filme de Natal. Não me digam que agora tenho que ir vasculhar nas cassetes do meu pai?!

(Guilherme com um VHS na mão.)

Guilherme - Ah, o bom velho "Pai Natal Conquista Os Marcianos"! Espero que não me desiluda como da última vez...

(Cut-gag do Guilherme sentado a olhar para a televisão.)

Guilherme - Que não seja pornografia! Que não seja pornografia!

(Começa a dar uma música de filme pornográfico)

Guilherme - É pornografia...

(Volta à cena de Guilherme a ver o filme. Vêm-se umas cenas no ecrã da televisão.)

Guilherme (confuso) - Se calhar não era bem a isto que o artigo se referia...

(Corta para o Guilherme no site do WikiHow uma última vez.)

Guilherme - "Planear eventos de Natal"...

(Cena do Guilherme no meio da rua com um microfone.)

Guilherme - Senhoras e senhores, meninos e meninas, tenho o prazer de vos apresentar o mais esperado divertimento deste Natal: o Pai Natal bêbado! Sentem-se e peçam-lhe coisas, e eu prometo que ele vos manda passear de uma maneira diferente de todas as vezes!

Transeunte - GRINCH!

Pai Natal Bêbado - Acho que os teus esforços estão a ser infrutíferos porque tu não estás a fazer as coisas com o espírito necessário! Eu aconselhava-te, se queres saber a minha opinião, a fazer uma reflexão e a tentar perceber o porquê desta tua tão grande repulsa ao Natal. Tentar ir buscar traumas antigos, ou algo assim. Não concordas?

Guilherme - Cala-te!

 

Alice (a chorar) - O Pai Natal não pode ser mentira! Eu sei que ele existe!

(Alice entra em casa e sobe as escadas a correr.)

Luis - Maria, está tudo bem? (vai até ao fundo das escadas) Maria!

Alice - Não quero falar contigo!

(Luis sobe as escadas e encontra Alice no quarto a chorar.)

Luis - O que é que aconteceu? Está tudo bem?

Alice - O Pai Natal não existe, pois não?

Luis - Quem é que te disse isso?

Alice - O Sr. Mateus, quando eu estava a sair para ir mandar a carta.

Luis - Maria, ia chegar a uma altura em que ias ter que saber... mas é verdade! O Pai Natal não existe. São os pais que compram as prendas às crianças.

(Alice fica em estado de choque.)

Alice - Porque é que vocês haviam de me mentir?

Luis - Para te ver feliz! Acreditar no Pai Natal é um dos últimos pedaços de infância que nós conservamos, e perdê-lo significa perder muita coisa!

Alice - Eu nem sei como reagir! Preciso que me deixes um bocadinho sozinha, por favor!

Luis - É claro! Quando estiveres melhor, anda para baixo, para almoçar.

(Alice põe-se a andar para cá e para lá no quarto dela.)

Alice - Como é que eu pude ser tão burra? Era óbvio que o Pai Natal não ia existir! Não tem lógica, o Sr. Mateus tem razão. Mas eu queria tanto que fosse verdade!

 

 

(Entretanto, na Lapónia, um duende entra de rompante no escritório do Pai Natal.)

Carolina - Pai Natal, precisamos de fazer uma saída de emergência! Uma criança acabou de deixar de acreditar em ti e nós não podemos permitir isso!

Guilherme - Todos os anos, milhares de crianças deixam de acreditar em mim e nós nunca nos preocupamos com isso!

Carolina - Mas esta criança é especial, OK?

Guilherme - Porquê? É toda deficientezinha ou assim?

Carolina - TU VAIS TER COM ESTA CRIANÇA E PONTO FINAL!

Guilherme - Mas ainda falta uma semana para a Véspera de Natal. Quem é que vai pagar o gasóleo para esta deslocação extra?

Carolina (irritada) - PAI NATAL!

Guilherme (encolhido) - Não grites comigo.

 

(Mais tarde, Ema está em casa a ler um livro. Ouve alguém a bater à porta. Vai abrir e é a Carolina.)

Carolina - Olá!...

Ema - Olá!...

Carolina - Olha... desculpa por estar a vir aqui tão tarde, mas... tinha uma prenda para te dar. (dá-lhe um embrulho). Toma!

(Carolina vira costas e começa a descer a rua. Ema fica a olhar para a prenda, com ar meio arrependido.)

Ema - Ei, Bia! (Carolina olha para trás) Obrigado... e feliz Natal!

Carolina (a sorrir) - Feliz Natal!

(Carolina continua a descer a rua, agora com um sorriso na cara. Ema volta a olhar para o presente, também a sorrir. Fecha a porta. Entra e abre-o. É um antigo brinquedo delas.)

Ema - Ela lembrou-se!

(Ema volta a pegar no telemóvel e liga de novo a Carolina.)

Ema - Miúda, faz o favor de voltar aqui neste preciso instante! E eu que não tenha que dizer isto outra vez!

(Carolina está à porta da casa da Ema. Ema está do lado de dentro. Olham-se uma à outra durante uns segundos até que dão um forte abraço.)

Ema - Desculpa por tudo!

Carolina - Eu é que tenho que te pedir desculpa! Nunca devíamos ter deixado que as nossas diferenças nos afastassem!

Ema - Tens razão, Bia! Podemos voltar a ser irmãs, por favor?

Carolina - É claro que sim, parola!

Ema - Parola és tu!

(Entram as duas para casa a rir e a conversar. A porta fecha-se atrás delas.)

 

-- Pausa para Publicidade –-

 

É oficial! Acabou de ser lançado o álbum de Natal de Noel Silvestre, "The Best Of Christmas", mesmo a tempo de fazer as suas compras de Natal!
Com clássicos como...

(Noel Silvestre canta músicas de Natal.)

E com magníficos duetos com estrelas como:

  • Clara Belém,
  • Aurora Boreal,
  • e Raquel Luz!

"The Best Of Christmas" de Noel Silvestre… nas lojas agora!

 

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(Estão duas crianças a brincar num jardim.)

Criança 1 - Pai, Pai! Anda brincar!

(O pai, sentado numa cadeira, tenta-se levantar, mas não consegue, derivado das dores que a sua corcunda lhe provoca.)

Narrador - Sente-se triste por não poder desfrutar de tempo de qualidade com os seus filhos?

(Corcunda acena positivamente com a cabeça.)

Narrador - Tem receio que eles, derivado do seu aparente desapego emocional, o abandonem, quando chegar à 3ª idade?

(Corcunda acena positivamente com a cabeça.)

Narrador - Então nós temos a solução para si! O novo e revolucionário "Quasimodofen" promete diminuir a sua corcunda e aumentar a sua felicidade e qualidade de vida!

Esposa - Estou muito feliz! Desde que o meu marido começou a tomar o "Quasimodofen" que vivemos muito melhor cá em casa! Já consegue brincar com as crianças, fazer as tarefas domésticas, ir à casa de banho sem precisar da minha ajuda... Parece que foi um milagre!

(Surge o corcunda parado na rua)

Corcunda - Eu antes era coxo e marreco, mas graças ao "Quasimodofen", agora só sou coxo! Obrigado, "Quasimodofen"!

(Corcunda vira-se de costas e começa a andar, coxeando)

Narrador - Quasimodofen: o segredo da sua felicidade está aqui!

Quasimodofen é um produto "Santos, Cunha, Ferreira, Mendes, Gomes & Filhos, Lda."!

 

-- Fim da Pausa --

 

(Cena do Guilherme a falar ao telemóvel com a Marisa na sala.)

Guilherme - Já decorei uma árvore, já vi filmes de Natal horríveis, já ouvi o "All I Want For Christmas Is You" umas boas dezenas de vezes... porra, até comprei uma rena!

(Guilherme olha pela janela. Cena de uma rena a comer erva no jardim.)

Guilherme - Estás satisfeita, agora?

Marisa - Satisfeita, eu? Se estás a fazer isto para me agradar, podes estar quietinho! Sinceramente, eu não te consigo perceber! Já pensaste que, se calhar, os teus esforços estão a ser infrutíferos porque tu não estás a fazer as coisas com o espírito necessário? Eu aconselhava-te, se queres saber a minha opinião, a fazer uma reflexão e a tentar perceber o porquê desta tua tão grande repulsa ao Natal. Tentar ir buscar traumas antigos, ou algo assim...

Guilherme - Isso foi exactamente o que me disse o Pai Natal Bêbado...

Marisa - Mas entendes onde é que eu quero chegar com isto? Talvez tu sejas mesmo igual ao Grinch e, quem sabe, exista uma razão para não gostares do Natal!

Guilherme - Agora que falas, talvez haja mesmo. É que sabes? Eu nunca soube o que era o Natal... Os meus pais nunca ligaram a isso. Não me lembro de ter recebido uma única prenda; não me lembro de ter decorações em casa; não me lembro de ouvir uma música que fosse... E eu via os meus amigos todos ansiosos pelo dia 24 e, para mim, isso sempre foi sinónimo de tristeza e melancolia, nada mais! A única pessoa que me lembro de me desejar um feliz Natal e de me dar sempre uma fritinha era o meu bisavô...

Marisa - Está na altura de mudares isso! Tu és capaz, eu sei que sim! Bom Natal, miúdo!

Guilherme - Bom Natal...

(Desliga o telemóvel. Olha pela janela.)

Guilherme - Estás satisfeito, Universo? Eu estou a festejar o Natal! Quem é que eu quero enganar? Só um milagre é que podia fazer com que isto tivesse algum sentido na minha cabeça!...

(No céu, vê-se uma estrela brilhante a pulsar e ouvem-se sinos e um "Ho-Ho-Ho".)

Guilherme (a olhar para a câmara) - Não era tão bom se a vida fosse mesmo assim?

 

 

(Alice está a olhar pela janela do quarto e vê a mesma estrela a pulsar no céu.)

Alice – Será possível?

(Pega no casaco, sai do quarto a correr e dirige-se para a porta.)

Luis – Onde vais com essa pressa toda, Maria?

Alice – Vou provar que o Pai Natal existe. Se quiseres, podes vir ver!

(Da janela de casa, o Rui também vê o clarão no céu.)

Rui (encolhendo os ombros) Sempre soube! (fecha a janela)

 

 

(Cena na casa da Ema, com as duas à conversa sentadas no sofá.)

Carolina - Já reparaste que só para nós é que o facto de Pai Natal estar a aparecer ou não foi indiferente?

Ema - Por acaso... Mas, se calhar, é melhor irmos lá ter na mesma!

Carolina - Sim, vamos!

 

 

(Reúnem-se todos num largo à frente do sítio onde a luz que se via no céu aterra. O Pai Natal.)

Pai Natal – Olá, pessoas!

Todos (em uníssono) – PAI NATAL!

Pai Natal – É, sou eu mesmo!

Ema – Onde é que está o teu trenó?

Pai Natal – Está ali para trás, estacionado na mata.

Guilherme – Não estás a dizer isso só porque não há orçamento para ter aqui um trenó a sério, pois não?

Pai Natal (atrapalhado)Nada disso! É mesmo porque o estacionei ali atrás…

Carolina – O que é que estás aqui a fazer? Ainda não é Natal!

Pai Natal – Vim aqui de propósito por uma razão muito especial: para restaurar a crença de uma menina em mim!

Alice – Eu, Pai Natal?

Pai Natal – Sim, tu mesmo! Maria, eu sou real!

Alice – Eu sabia, Pai Natal, eu sabia! (abraça o Pai Natal)

Luis – Espera aí! Se tu existes mesmo, então por que raio é que sou eu que compro as prendas de Natal?

Pai Natal (atrapalhado) É que sabe, houve alguns cortes no orçamento, tivemos de nos ajustar à inflação, e… Ui, que horas já são! A Mãe Natal dá cabo de mim se chego atrasado para jantar! Adeus, pessoal! Adeus, Maria!

Alice – Tchau, Pai Natal!

(O Pai Natal desaparece por entre a vegetação.)

Ema – Então e agora?

Carolina – Eu sou capaz de ter uma ideia…

(Cena com todos sentados em cadeiras a assistir a um concerto de Natal do Noel Silvestre.)

Guilherme (num aparte, olhando para a câmara) Faz algum sentido esta história estar a acabar assim? Não, não faz! Mas quer dizer: tendo um palco disponível, tinha de o utilizar, e também não podia desperdiçar um personagem como o Noel Silvestre, não é? Vá, pessoal, aproveitem a viagem! Feliz Natal!

 

FIM

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História Verdadeira de Natal (Guião Original - Versão 2021)

Avatar do autor Guilherme dos Santos Gomes, 24.12.23

A acção começa na sala. O Gui chega, senta-se no sofá e liga a televisão para ver o que está a dar.

Gui: Vamos lá ver o que está a dar! Ora bem...

(Na televisão está a dar um filme muito parecido com os outros 7 mil milhões que se baseiam no conto da autoria de Charles Dickens.

A Carolina está a dormir. A Alice [fantasma] entra na sala e acorda-a)

Alice: Buuu! Eu sou o fantasma do Natal, e venho-te avisar que hoje te vêm visitar três fantasmas, porque tu tens sido muito má!

Carolina: E acordaste-me para isso? Já viste que horas são? Amanhã tenho que acordar cedo!

Alice: É pá! Peço desculpa! Mas é que...

Carolina: Não há mas nem meio mas! Não se interrompe assim o sono das pessoas! Não és tu que tens que trabalhar, não é?

Gui: Ui! Ui! Mais um filme baseado na história do Charles Dickens? Já chega disto! Esta história foi mais espremida que sei lá o quê! Deixa-me ver outra coisa!

(Gui muda de canal. Aqui está a dar um filme tipo Fox Life em que tudo é perfeito e nada corre mal!)

Carolina: Meu amor! Eu sabia que eras tu quem eu amava!

Alice: Desculpa se te magoei. Nunca foi esse o meu objectivo!

Carolina: Não faz mal! O que interessa é que estamos todos juntos outra vez!

Alice: Este é mesmo o melhor Natal de sempre!

Gui: Blhec! Que nojo! Tanto clichê aqui metido! Parece um filme do Fox Life! Será que não está a dar nada de jeito em lado nenhum?

(Gui muda de canal. Neste canal está a dar um filme chamado “História Verdadeira de Natal”)

Gui: História Verdadeira de Natal... Parece interessante! Deixa cá ver, então.

(Começa o filme)

Gui (Narrador): Há muito muito tempo, numa terra cujo nome não sabemos chamada Nazaré, vivia uma jovem senhora burguesa e o seu marido carpinteiro. Certo dia, esta jovem recebeu uma visita inesperada:

Alice (Maria): Deixa-me cá fazer o comer para o meu homem, que não tarda deve estar a chegar do trabalho! Como ele fez anos aqui há cinco dias, e a gente não festejou, vou ver se o impressiono!

(Enquanto a Alice diz isto, a Carolina aparece atrás dela)

Carolina (Anjo): Olá!

Alice: Ai, que me assustaste! Valha-nos Deus!

Carolina: É mesmo desse gajo que eu te venho falar. Como é que adivinhaste? Então, é o seguinte! O meu nome é Gabriel, e sou o director executivo da OIHS ou, em Português, “Organização de Inseminadores do Espírito Santo”. O que eu te queria dizer era o seguinte: Deus ligou-me a dizer que te ia engravidar e mandou-me aqui.

Alice: A mim? Eu sou uma mulher pura e honrada. Eu não traio o meu Zé por nada! Afinal onde é que está esse badalhoco?

Carolina: Pois, aí é que está... Ele não veio, e como a inseminação artificial ainda não foi inventada, eu não sei como é que tu vais ter um filho dele. É que ainda por cima ele não tem uma figura terrena, nem nada... Deixa-me ligar-lhe num instante. Com licença.

(O anjo liga-lhe)

Carolina: ‘Tou! Olha, como é que a Maria vai engravidar? OK. Tá bem. Tá bem. Tchau! Beijinhos! Tchau! Tchau! Tchau!

Alice: E então?

Carolina: Bom, ele disse que vai mandar cá uma pomba.

Alice: Uma pomba? Como assim uma pomba?

Carolina: Pelo que eu percebi é uma pomba metafórica.

Alice: Eu já estou a começar a fervilhar! Então você aparece-me aqui em casa a dizer que eu vou ficar grávida de um tal de Deus, e ele nem aparece nem nada! Estamos a brincar, ou o quê?

(Toca o telefone do Anjo)

Carolina: ‘Tou sim! Olhe, desculpe, mas eu estou aqui ligeiramente ocup... ah, Sr. Deus, é você! Certo. Certo. OK, está bem, está bem! Pronto, muito obrigado. Com licença! Olhe, já está resolvido! Deus acabou de me dizer que já a engravidou! Completamente indolor, está a ver? Só uma particularidade: o miúdo tem que se chamar Jesus.

Alice: Hum! Não gosto muito desse nome... Não pode antes ser Emanuel?

Carolina: Não! A lei divina diz expressamente que o nome ou é Salvador, ou é Jesus.

Alice: Pode ser Jesus, então, que o meu Zé gosta muito de ver a bola!

(Corta para o Palácio do Herodes. Alice é o mensageiro e Carolina é Herodes)

Gui: Entretanto a notícia já havia chegado a Israel, porque Maria, beata que é, já tinha contado a toda a gente.

Alice: Meu rei. Já ouviu a boa... quer dizer, a má-nova? Diz que vai nascer, daqui por nove meses, um puto que vai ser rei de todos os Homens e que vai mandar mais que você!

Carolina: Como ousas dizer algo assim? Isto é um ultraje! Como assim vai mandar mais que eu?

Alice: Foi o que eu ouvi dizer!

Carolina: Liga ao pessoal da Agência Lusa a dizer que, em Dezembro, eu vou mandar matar todos os bebés que nascerem tanto aqui como na Nazaré! Já bem bastava o McNamara, que me roubou o protagonismo todo de Peniche para cima, quanto mais agora um puto que ia abafar o meu nome no resto do Mundo!

(Cena na casa da Maria e do Zé, que está a chegar do trabalho)

Carolina: Amor, cheguei! Adivinha: vi agora nas notícias que o Herodes vai mandar matar todos os bebés que nascerem em Dezembro nesta zona! Quando eu pensava que este gajo não podia ficar pior, sai-se com uma medida destas, pá! O que vale é que ainda são os bebés! Imagina que eram os velhinhos, coitadinhos...

Alice: Oh, não! O meu bebé vai nascer em dezembro! O que é que eu vou fazer agora?

Carolina: Como assim “o teu bebé”? Há alguma coisa que me queiras contar?

Alice: Bom... Olha, é assim, não fiques chateado, mas esteve cá um anjo há bocado, não é, e ele esteve-me... meio que... a pôr grávida de Deus...

Carolina: Pois, um anjo... Que rica prenda de anos! E já dura há muito tempo ou também não me queres dizer isso?

Alice: O quê? Eu juro que era um anjo e que estou grávida de Deus Nosso Senhor! A propósito, o puto vai-se chamar Jesus.

Carolina: Bom, sendo assim vou fazer uma breve referência a uma coisa que foi dita anteriormente neste especial de Natal e dizer que estou muito contente com o facto de ele se chamar Jesus, uma vez que eu sou bastante fã de Futebol, e acabar por te dar o meu voto de confiança: Vou-te dar o meu voto de confiança. Nesse caso temos que sair rápido daqui! Eu tenho um primo que tem quartos para arrendar em Belém. Se sairmos agora pode ser que cheguemos lá a horas! Já agora, gostei da escolha do nome! Tu sabes mesmo como fazer um homem feliz!

Alice: Belém? Tu sabes que eu odeio ir a Belém! Ainda por cima pela estrada nacional! Vamos antes meter pela autoestrada e vamos ter o puto a al-Khader!

Carolina: Lá estás tu outra vez! Vamos de burro que não custa tanto! Afinal, não fui eu que me meti nesta alhada, fui?!

Alice: Está bem! Vamos lá! Mas promete-me que não metes o burro nos buracos todos, como costumas fazer.

(Partem então para Belém)

Gui: José e Maria partem para Belém. Uma viagem intensa de 150 quilómetros. Nesta altura, vão a meio da viagem:

Alice: Ó Zé! Está-me a apetecer uma bifana.

Carolina: O quê? Tu estás maluca? Tu sabes que a gente não pode comer bifanas, que Deus não deixa!

Alice: Claro! És sempre tu que decides! Já agora, eu estou com pena do animalzito! A gente já andou sensivelmente 75km, e o burro vai aqui cansado... Porque é que não fizeste uma carroça para o animal? Não és carpinteiro?

Carolina: Não fiz uma carroça porque a menina teve a excelente ideia de andar a contar a toda a gente que estava grávida de um miúdo “especial” e tivemos que sair a correr! E já agora, quem devia estar chateado era eu, porque eu é que vou a pé, estou aqui de sandálias e estou com os pés cheios de bolhas!

Alice: Pronto, está bem! Faz o que quiseres...

(Chegada a Belém)

Gui: Era véspera de Natal! José e Maria acabavam de chegar a Belém. Ela estava prestes a dar à luz, e ele liga ao primo para confirmar a reserva.

Carolina: Estou primo. Já tens o quarto preparado?

Gui (Primo): Olha, quanto a isso, já não vai dar. Um casal de turistas ingleses reservou o hostel todo e eu tenho uma reputação a manter no Tripadvisor!

Carolina: Ei! A sério? Porra! Então e agora o que é que eu vou fazer? (desliga o telefone) Ó Maria, ele diz que está tudo reservado!

Alice: Não acredito! O que vamos fazer, então?

Carolina: Não sei...

Gui (Narrador): Após horas e horas de procura, acabam por encontrar um senhor agricultor que amavelmente lhes cede o seu celeiro de ovelhas e vacas.

Alice: Ó Zé, eu nem quis dizer ali ao pé do senhor, que até parecia mal, mas eu não quero parir num celeiro! Tu sabes perfeitamente que o único Celeiro de que eu gosto é o do shopping.

Carolina: Mas Maria, é a única opção que a gente tem. O que queres que eu faça?

Alice: Eu queria era que tu fosses um bom marido que me... AH!

Gui: Neste momento, as águas de Maria rebentam, e ela entra em trabalho de parto:

Carolina: Respira fundo! Vai tudo correr bem!

Alice: Para ti claro que vai! Não é de ti que está a sair um pequeno aliene!

Gui: O bebé cai no chão por entre as pernas de Maria. E eis que nasce o senhor, o salvador, o magnífico Jesus Cristo Super Estrela! José pega no miúdo, e de dentro dele sai uma luz que se ergue sobre a manjedoura e parte em direção à Pérsia.

Carolina: Que é que foi isto? Ninguém me avisou que o puto cagava foguetes!

Alice: Não sejas parvo! Não vês que era o Espírito Santo?

Carolina: Eu ver, não estou a ver nada...

Gui: Maria pega no bebé em braços e vão começando a chegar ao pé deles pastores vindos de todos os cantos da Palestina. Eles colocam Jesus, que tinha acabado de nascer mas já estava rijo, numa caminha de palha no meio do burro e da vaca.

Alice: Não é lindo? O filho de Deus a ser adorado por todos...

Carolina: Lindo sou eu, Maria. Isto é só esquisito, que eu já vi para aí cada um... Se fosse a ti, eu teria mais cuidado, e continuo a dizer que o puto escusava de estar aí deitado só com uma mantinha a tapar a pilinha! Eu não te disse para pararmos naquela Zippy em Sinjil? O bafo dos animaizitos não lhe pode fazer muito bem!

Alice: Está calado! Não me envergonhes aqui à frente desta gente toda!

Gui: Entretanto, na Pérsia, três Reis Astrónomos avistam nos céus a luz que havia saído de dentro de Jesus, e começam a segui-la. Encontram-se então numa Estação de Serviço, lá para os lados de Persépolis.

(Nesta cena, Alice é Gaspar e Carolina é Belchior)

Alice: Fogo! O que se passará com o Baltazar? Já entrou na casa de banho vai para meia hora!

Carolina: Não sei. Deixa-me ligar-lhe. Estou! Onde estás? A sério? Ora bolas!

Alice: O que foi?

Carolina: Diz que apanhou o camelo a comer-lhe a mirra, que o animal ficou elétrico, começou a correr desalmadamente e que já está em Ofra.

Alice: Em Ofra? Nunca mais o apanhamos! Ó Belchior, eu tive uma ideia.

Carolina: Diz, Gaspar.

Alice: Que achas de nós darmos meia volta e voltarmos para casa? Ele já está quase em Belém, e ainda por cima leva três prendas. Ligas-lhe a dizer que duas delas vão da nossa parte, e fica resolvido. Que achas?

Carolina: Eu acho bem. Eu também só lhe ia levar um bolo rei, mas de certeza que o puto não gosta de fruta cristalizada... Ainda ia ser a vaca que ia comer tudo.

Alice: E eu, feito estúpido, levava uma camisola! Nem me lembrei que a mãe dele tem posses! De certeza que preparou um enxoval do caraças!

Carolina: É! Vamos mas é embora!

Gui: E foi esta a verdadeira história do Natal! O Herodes lixou-se, porque Belém já não faz parte da jurisdição dos guardas dele, mas sim dos de Jerusalém; o Gaspar e o Belchior ficaram com os louros das prendas, ainda que não tenham sequer aparecido na manjedoura; o Jesus andou para aí feito comunista, até que os romanos se chatearam e o mandaram crucificar, que era isso que se fazia àqueles que comiam crianças, davam injeções aos velhos para os matar e roubavam as mulheres e as casas dos outros naquela altura; o José divorciou-se da Maria e agora vive com um alentejano em Marrocos; e a Maria agora é vegetariana e influencer das Redes Sociais, contando já com cerca de onze seguidores, que já seguiam o filho dela.

Vitória, Vitória, Acabou-se A História!

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Linha de Apoio ao Suicídio

Avatar do autor Guilherme dos Santos Gomes, 25.03.23

(A cena passa-se num Call Center.)

 

Atendedor – Linha de Apoio ao Suicídio, boa tarde!

Senhor – Boa tarde!

Atendedor – Boa tarde. Está tudo bem consigo?

Senhor – Para dizer a verdade, não. Tenho-me andado a sentir profundamente abatido, que nada disto faz sentido... e ando a pensar em pôr termo à minha vida.

Atendedor – Pois, pois, pois... E esse “pôr termo à vida” de que me fala, está a pensar fazê-lo como?

Senhor – Bom, isso é que eu já não sei bem, daí ter ligado.

Atendedor – Correcto, é mesmo para isso que nós cá estamos! Vamos tentar encontrar a melhor alternativa para o senhor cometer suicídio, está bem? Diga-me só, se fizer o favor, a sua morada, que é para nos ser mais fácil avaliar a sua situação.

Senhor – Com certeza! Ora: Rua 31 de Maio, Apartado Frei Heitor, N.º 16, 3420-043, Vila Nova de Vila Nova.

Atendedor – Muito bem. Vamos lá ver. Bom, o que eu lhe sugeria, antes de passarmos para coisas mais personalizadas, era o mais tradicional: esfaquear-se, já pensou nisso?

Senhor – Quer dizer, eu não sei se seria capaz. É que dizem-me que as facas aleijam um bocadinho, e podem mesmo chegar a matar!

Atendedor – Certo. Queremos então optar por uma morte mais indolor, é?

Senhor – Se desse para ser...

Atendedor – Dá, sim senhor! Afinal, nós estamos aqui para servir os clientes, não é? Bom, o que eu lhe sugeria agora era tomar medicamentos. Será que me podia dizer o seu peso e altura, se faz favor?

Senhor – Posso, sim senhor. Tenho 1,73m e estou com 68kg.

Atendedor – Vejo que está em forma! Olhe, baseando-me no seu IMC, diz aqui no sistema que 7 gramas de Lorazepam bastarão para o pôr KO.

Senhor – Lorazepam não tenho.

Atendedor – Ah!... E Triticum?

Senhor – Também não.

Atendedor – Rantudil?

Senhor – Não senhor!

Atendedor – E um Ibuprofeno normal, tem?

Senhor – Acabou antes de ontem.

Atendedor – Assim não é fácil, senhor. Não, não. Qual é a farmácia de serviço, na sua zona?

Senhor – Hoje é a Farmácia Queirós, mas ainda me fica um bocadinho fora de mão. Não tem aí mais nada?

Atendedor – Deixe-me cá ver no mapa. Olhe, já pensou em meter-se à frente de um comboio? Estou a ver que tem aqui uma estação a 2,5km da sua zona de residência.

Senhor – E as greves?

Atendedor – Pois, as greves... Ah, mas há aqui mais coisas. Você é um felizardo, homem! Diz aqui que você tem um prédio já bastante alto e com entrada livre ao público a 400 metros de sua casa. Uma queda, que nem precisava de ser do terraço, matá-lo-ia de certeza! O que lhe parece?

Senhor – Eu tenho medo das alturas, não consigo fazer isso!

Atendedor – Tem medo, perde o medo! Eu também tenho uma sobrinha que tinha medo de cães, os pais compraram-lhe um Dobermann e agora é vê-la a brincar com o cãozinho! A gente tem que se adaptar, amigo!

Senhor – Não, mas não dá! Se eu, de subir a uma cadeira, já fico com tonturas!

Atendedor – Então, mas isso é bom, que pode ser que o ajude a cair mais depressa!

Senhor – Não, mas não consigo!

Atendedor – Olhe, eu peço-lhe desculpa, mas assim não pode ser. Então o senhor liga para aqui - sem ideias, tudo bem, que é para isso que nós cá estamos – mas está toda a vida a rejeitar as sugestões que eu lhe estou a fazer? Tenha paciência! Isto se uma pessoa mete na cabeça que é para morrer, é para morrer! Agora, estar aqui a ocupar a linha com coisas destas e indecisões é que não! Amigo, isto quem tem cu tem medo, é mesmo assim! Mas a gente tem que ter capacidade de se adaptar às situações!

(Do outro lado da linha, ouve-se o som de um tiro.)

Atendedor – Ah! Já podia ter dito que tem uma arma! ‘Tou! ‘Tou! ‘Tou? Olha, desligou. Deve ter ficado todo envergonhadinho, com este sermão que eu lhe dei! (fala consigo mesmo) É isso mesmo, Teotónio, já ganhaste o dia!

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