Era Para Desejar Um Feliz Natal!
Guilherme dos Santos Gomes, 24.12.22
É Natal! Feliz Natal! Agora, os mais mesquinhos diriam “Não, não! Hoje é Véspera de Natal! Amanhã é que é Natal!”. É pá, até são capazes de ter razão, mas isso, e corrijam-me se estiver errado, não interessa muito. Para dizer a verdade, eu acho que ninguém quer saber realmente do dia 25. Porque tudo acontece a 24! A Ceia de Natal? 24 de Dezembro. Os presentes? 24 de Dezembro. Apanhar uma tosga com Mon Chéries? 24 de Dezembro. Tudo o que importa está a acontecer hoje! O dia de Natal só foi criado para que a Véspera pudesse existir! Portanto, não me chateiem com essa coisa de o Natal ser só amanhã, está bem? Dito isto, e por falar em Natal, será que o rapaz do anúncio da Wallapop sempre voltou a casa dos pais?
É Natal! Feliz Natal! (Tenho a impressão que já tinha dito isto...). E por hoje se comemorar esta data tão importante, decidi fazer uma crónica especial, recheada de coisas muito giras e que me deram imenso trabalho (suponho, pois estou a escrever isto antes de fazer o que quer que seja...).
O Natal começa, como eu já tive oportunidade de dizer noutras ocasiões, estupidamente cedo, hoje em dia. E qual é o primeiro sinal de que esta época está aí a rebentar? Exactamente, é o gradual aumento dos anúncios de brinquedos, perfumes e carros, daqueles que alienam forte e feio, na televisão. Há anúncios clássicos, é verdade. Por exemplo, não é possível passar um Natal sem o popular anúncio do Ferrero Rocher! Se um dia este reclame for substituído, eu creio que irá haver um forte impacto no tecido espaço-tempo e o Universo irá implodir. É para verem o quão importante esta publicidade é! Mas porquê? Porque é que nós gostamos tanto de ouvir a Senhora a dizer que lhe apetecia tomar algo (o que me deixa a pensar no quão engraçado seria substituir o Ambrósio por um empregado de café chico-esperto, que ao “apetecia-me tomar algo” responderia “Apetecia? Já não lhe apetece?”)? Porque é que gostamos tanto de um bloco publicitário com, agora, 30 anos? Esse é um mistério, e acho que o devemos deixar assim. Mas, cá para mim, é por causa do prato giratório da limousine... Aquela porcaria é espectacular! Como homenagem a estes anúncios tão míticos, decidi incluir dois dos meus favoritos. Ei-los:
“Publicidade Klaus Barbie”:
É assim que eu quero ser, como o Barbie.
Chegou o novíssimo “Klaus Barbie”!
Vive as aventuras de Barbie como oficial Nazi!
Brinca com um dos maiores criminosos de Guerra da história! Também tu irás querer ser como ele!
Klaus Barbie diz mais de 150 frases:
“O Holocausto não foi o que parece...”
É sensacional!
“Klaus Barbie – O Carniceiro de Lyon” é da Concentra-ção...
“Publicidade Perfume ‘Puissant’”:
(A câmara começa focada no meu rosto e vai afastando até se ver todo o ambiente à minha volta, mas nada está a acontecer. Eu paro de repente, olho em redor e apercebo-me desse facto)
Então? Nada? Não há um cavalo, não há uma estátua, não há uma janela a estoirar, não há uma pessoa desnudada? Não? Nem o Johnny Depp, ou algo do género?... Está certo. Também dá... Olhem, comprem o raio do perfume. Eu vou embora. Beijinhos!
Outra tradição muito gira, mas que infeliz (ou felizmente) vai caindo em desuso, é o Natal dos Hospitais. Nos tempos de antigamente, em que o Presidente ainda era o Ramalho Eanes, o Natal dos Hospitais era uma instituição do nosso Portugal e o país parava para assistir a este magnífico programa no Canal 1 (vá, o país parava porque era feriado, mas aproveitava e via o Natal dos Hospitais. Também não está mal...)! Hoje em dia, apesar de ainda passar na Emissora Nacional, já não capta muito a atenção dos telespectadores, que têm muito mais oferta e preferem passar a tarde a ver uma comédia romântica de Natal no Fox Life (decisão que eu, para além de não aprovar, repudio!). É pena pensar que este programa tão bonito, que trazia alegria a este povo, está, neste momento, moribundo. Um pouco como as pessoas que a ele assistem ao vivo, de resto. Por falar nisso, eu não sei se aguentava. Como se já não bastasse o sofrimento e a frágil saúde daqueles doentes, imaginem ter que passar o dia de Natal a ouvir a Ágata e o Coro de Santo Amaro de Oeiras a cantar! Ao primeiro “Que seja um bom Natal/Para todos vós”, eu já me tinha eutanasiado!
O que também não pode faltar aqui é a comida. Comidas há muitas, mas as que se comem no Natal parecem ter outro sabor. Parecem ter algo diferente, que nos assalta os sentidos e nos excita os paladares. Parece que têm... como é que se diz?... Açúcar! É isso! Mas para além disso, parecem ser feitas com outro carinho. Quem nunca acordou, no dia 24, e sentiu o doce cheiro de canela e chocolate pelo ar? Aquela mistura de aromas que nos faz começar a salivar ainda antes de sairmos da cama? Em princípio Judeus, Muçulmanos, Budistas, Hindus, Satanistas... Mas vocês perceberam. Mas pelo meio de tanta doçaria excelente, tanto bolo e tanta sobremesa de comer e chorar por mais, temos uma cuja existência me dói. Falo, obviamente, do Bolo-Rei. Eu aposto que ninguém gosta verdadeiramente de Bolo-Rei. É impossível! E a malta que come só o faz mais por uma convenção social que outra coisa qualquer! Porque aquela porcaria não sabe bem! Não sabe, não vale a pena! E a fruta cristalizada? O que é aquilo? Quem é que pensou naquela porcaria? Quem foi o inteligente que olhou para aquela rosca cheia de frutos-secos e uvas velhas (porque as passas também são assim: terríveis) e pensou “O que ficava bem aqui era casca de laranja e bocados de abóbora cobertos por uma película de açúcar e diabetes”? Eu estive a ver e, em 100 gramas desta “fruta”, 81 são açúcar! Esta porcaria tem uma percentagem maior de açúcar que a Terra tem de água! Atenção! Isto não é brincadeira!
Outra não menos importante tradição é, como já seria de esperar, o “Sozinho Em Casa”. Vi no outro dia que, este ano, vai ser a 24ª vez que este filme vai passar na televisão nacional (já agora, este ano vão dar na SIC. O primeiro dá hoje, às 21:15, e o segundo vai passar amanhã à noite), e ainda não é suficiente! A este filme aplica-se a mesma lógica do anúncio do Ferrero Rocher: tem que dar até à eternidade, caso contrário, acabou o Natal. A história já toda a gente conhece: é um menino, Kevin, que fica sozinho em casa (que surpresa, hã?) e vê-se obrigado a protegê-la de dois assaltantes que a querem, lá está, assaltar, mas que acabam por se lixar. No segundo, a história é mais ou menos a mesma, só que em Nova Iorque e com uma loja de brinquedos em vez da casa do rapaz. Ah, e as armadilhas são mais mortíferas! E é só. Para mim e para toda e qualquer pessoa de bem, só existem estes dois filmes. O primeiro, de 1990, e o segundo, de 1992. O que foi feito a partir daí (porque foi feita muita porcaria), nem é considerado. Já não tem o Macaulay Culkin? Já não interessa. Para além disto, se houver alguém que não nutre um forte amor por estas duas obras-primas do cinema e resmunga quando elas passam mais uma vez na televisão, esse alguém merece ser submetido a um auto-de-fé e uma execução em praça pública. E já é muito bom, se querem que vos diga! Eu acho até que, numa próxima revisão constitucional, se devia ponderar acrescentar a obrigatoriedade de gostar destas películas. No entanto, eu estive a pensar, e acho que o fim do filme não é espectacular. Se bem se lembram, é uma narrativa aberta, e eu acho que era possível criar um final que fosse de acordo com os acontecimentos do filme e o encerrasse devidamente. E foi isso que eu fiz!
Boa Noite! Kate McCallister vai mesmo ser julgada pelo crime de negligência infantil, após ter deixado o seu filho menor, Kevin McCallister, sozinho em casa enquanto viajava para Paris com a restante família. É curiosa, esta tendência natural das Kates para abandonar crianças (*cof-cof* Kate McCann *cof-cof*).
Kevin McCallister, de 8 anos, vai também ser indiciado pelos crimes de ofensa à integridade física qualificada e homicídio na forma tentada, contra dois assaltantes, Harry Lime e Marv Merchants, conhecidos como “Bandidos Molhados”. Kevin terá, alegadamente, agredido violentamente as vítimas, que ficaram visivelmente feridas, com escoriações, hematomas e fracturas várias. Ambos aceitaram prestar declarações à imprensa.
Harry: “Esse rapaz é um psicopata! Ele não estava só a defender a casa de assaltantes. Ele sabia bem o que fazia. Um rapaz que me manda com baldes de tinta mesmo na cabeça, que me pega fogo com um lança-chamas e me dá um tiro nos testículos só pode estar a tentar matar-me, pá! Prendam-me esse filho da mãe!”
Marv: “Ele aleijou-me aqui, na cabeça. Com um ferro de engomar. Ainda me dói um bocadinho, mas isto é capaz de passar. Qual era a pergunta, mesmo?”
Por fim, queria deixar uma pequena mensagem. Não deixem morrer o espírito de Natal. Não percam a essência desta época. Aproveitem-na, ao máximo. Estejam com aqueles que mais amam e que mais vos amam. Ponham as vossas conversas em dia. Estejam só uns com os outros. Sejam felizes, porra! Porque o Natal acontece todos os anos, mas podemos não estar lá para o ver a acontecer mais uma vez. Mas antes de fazerem isto tudo, mostrem esta crónica durante a Ceia, que esta é uma óptima altura para angariar subscritores aqui para o menino. Vá, ide lá à vossa vida. Feliz Natal!
