Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

A Psique de Guilherme

Dissertações acerca de temas vários levadas a cabo por um adolescente com, nota-se, demasiado tempo nas mãos e opiniões, e assim... A Blogosfera vive!

A Psique de Guilherme

Dissertações acerca de temas vários levadas a cabo por um adolescente com, nota-se, demasiado tempo nas mãos e opiniões, e assim... A Blogosfera vive!

Quando A Estrela Brilha... (Guião)

Avatar do autor Guilherme dos Santos Gomes, 24.12.24

O filme começa com imagens de um apresentador de televisão dos anos 80 (estilo Telejornal da RTP) a encerrar a programação e a desejar um bom Natal aos espectadores.

Guilherme – Senhores telespectadores, obrigado por terem acompanhado a nossa emissão. É sempre uma honra ter-vos desse lado! Retomaremos a transmissão amanhã, às 7 horas, com o Telejornal. De mim, é tudo! Resta-me apenas desejar-vos a continuação de uma boa noite e um feliz Natal, na companhia de quem mais amam…

(A televisão é desligada abruptamente. Alguns segundos de tela preta. Surge o título do filme no ecrã.)

 

-- Créditos iniciais --

 

(Guilherme vai a descer a avenida, por entre as decorações de Natal, todo agasalhado e a falar ao telemóvel.)

Guilherme - Digo-te de coração: eu não consigo perceber esta coisa toda com o Natal! Só não acho minimamente interessante, mesmo!

Transeunte (grita-lhe) - GRINCH!

Guilherme (para o transeunte) - Santinho! (volta a falar para o telemóvel) E depois há isto! Parece que as pessoas não conseguem respeitar que há gente que simplesmente não gosta do Natal!

Marisa (do outro lado da chamada) - Tens que te tentar adaptar! Não é assim tão difícil!

Guilherme - E tu achas que eu não tento? Passo a vida nisso! Lembras-te daquela vez em que participei nas audições para aquele anúncio de Natal?

(Cut-gag com o Guilherme num palco a cantar uma música de Natal em frente a um júri.)

Jurado - Não querendo ser indelicado, mas tu não és exactamente aquilo que procuramos. Sabes que a nossa petrolífera tem uma certa reputação a manter, e a ti... a ti falta-te a emoção! Nós queremos passar às pessoas a ideia do ambiente familiar, do espírito de Natal. Não conseguimos encontrar isso em ti. Mas obrigado pelo teu tempo!

Guilherme (ainda ofegante) - Se fossem mas é para o cara...

(Retoma-se a cena de Guilherme a andar na rua.)

Guilherme - Eu fui completamente humilhado!

Marisa - Então fazes assim: quando chegares a casa, vais à Internet e pesquisas "Como preparar o Natal". Já que mais nada funciona, ao menos ficas entretido a ver as sugestões estúpidas dos experts que escrevem esses artigos!

Guilherme - Olha que isso até nem sequer é má ideia!

Marisa - Sabes que eu estou a brincar?

Guilherme - Olha, um beijinho! Tenho de ir!

Marisa - Tchau...

(Guilherme desata a correr. Corta para uma cena dele, já em casa, a pesquisar "Como preparar o Natal" no Google. Abre o site do WikiHow.)

Guilherme - Deixa cá ver isto... decorar a casa, dizes tu? Um pinheiro... Onde raio é que eu vou arranjar um pinheiro assim tão em cima da hora?

 

 

(Ema está em casa a arrumar umas coisas e, pelo meio de tralhas, encontra um velho álbum de fotografias.)

Ema - Já não via este álbum aos anos!

(Começa a folhear as páginas.)

Ema - Ai, éramos tão pirosas! Que cabelo é este? Que vergonha!

(De repente, fica com um ar mais cabisbaixo.)

Ema - E aqui estou eu e a Bia... Ela tinha umas bochechinhas tão fofas. Esta foto foi num Natal... um dos poucos que passamos juntas. Eu gostava tanto que ainda nos falássemos, mas a vida é mesmo assim. (fica em silêncio durante um bocadinho) Bom, tenho que arrumar isto!

(Ema está a aspirar a casa quando repara no telemóvel pousado na mesa.)

Ema - Ah, porra! Não custa tentar!

(Pega no telemóvel e marca um número. Põe-no no ouvido.)

Carolina - Quem é que será a esta hora? (impressionada) Leonor? (atende o telemóvel) Estou?

Ema - Bia? És tu? Só estou a ligar porque pronto... como é Natal, eu queria saber como é que estás. Já passou tanto tempo, desde a última vez! Quê? Uns 10 anos, não?

Carolina - Para aí, sim. Olha, eu sei que as tuas intenções são muito boas, mas se calhar o nosso afastamento foi pelo melhor! A morte do pai não foi fácil para nenhuma de nós, eu sei que não, mas talvez termos seguido caminhos diferentes... talvez tenha sido a coisa correcta a fazer.

Ema - Sim, se calhar... Se é assim que te sentes, eu vou respeitar. Só senti que talvez já tivesse sido tempo a mais, só isso!

Carolina - Leonor, isto é o melhor que temos a fazer, tu sabes que sim! Ambas agimos mal, ambas dissemos coisas que não devíamos ter dito... as coisas não acontecem por acaso! Tu tens a tua vida, eu tenho a minha, e acho que o melhor é continuarmos assim.

Ema (triste) - Claro que sim, sem dúvida! Então... Um bom Natal!

Carolina - Adeus, Leonor!

(A chamada é desligada. Ema está visivelmente triste.)

Ema - Parece que foi desta! Até um dia destes, Bia!

(Corta para a casa da Carolina.)

Carolina - Leonor, Leonor! Tu nunca mudas!

(Carolina recebe uma mensagem no telemóvel. É a fotografia delas quando eram mais pequenas, que a Ema tinha visto há pouco.)

Carolina (entre o triste e o arrependida) - Acho que fui um bocadinho bruta com ela... Se calhar ela até tem razão: é Natal, devemo-nos dar uma chance... Eu vou fazer isto resultar!

 

 

(Cena da Alice sentada numa mesa a acabar de escrever uma carta ao Pai Natal.)

Alice - E... fim! Espero mesmo que o Pai Natal me consiga dar o que eu quero, este ano!

(Alice levanta-se, pega no casaco e prepara-se para sair de casa.)

Luis - Onde é que vais com essa rapidez toda?

Alice - Vou só lá fora mandar a carta para o Pai Natal!

Luis - Está bem, mas não te demores, que o almoço está quase pronto!

Alice - OK!

(Alice sai de casa a correr e, pelo caminho dá de caras com o Rui.)

Alice - Bom dia, Sr. Mateus!

Rui - Bom dia, menina! Para que é esta correria toda?

Alice - Estou a correr porque tenho que enviar a minha carta para o Pai Natal! E este ano já me atrasei um bocadinho... Espero que ele ainda a consiga receber antes da Véspera de Natal!

Rui (entre risadinhas) - Pff... Pai Natal! A sério que ainda acreditas nisso?

Alice - E porque é que não haveria de acreditar? Você não acredita?

Rui - Claro que não! O Pai Natal não existe, nunca te disseram isso?!

Alice - Não... existe?

Rui - É claro que não! Um gordo, de barbas, que entrega prendas a todas as crianças do Mundo numa noite, e viaja num trenó voador puxado por renas? Onde é que isso faz sentido?

(A Alice fica chocada e deixa cair a carta ao chão. Com lágrimas nos olhos, volta para casa a chorar. A câmara foca na carta:
"Querido Pai Natal, o único desejo que tenho este ano é saber que tu és mesmo real! Ah, e também queria a paz no Mundo, mas isso já era mais um capricho meu... Adoro-te! Ass.: Maria")

Guilherme (num aparte, levantando a câmara do chão) - Eu sei que não tem lógica absolutamente nenhuma a carta não estar metida num envelope nem tampouco dobrada, mas esta cena não ia funcionar de outra forma, OK? Não sejam mesquinhos, é Natal!

 

 

(Cena em que o Pai Natal está a olhar-se ao espelho na casa-de-banho e começa a dançar e a cantarolar que é o maior, e assim. De repente, entra um elfo que o interrompe.)

Ema (a olhar para o telemóvel) – Pai Natal, recebi um email do Departamento de Peluches e eles estão a dizer que já acabou o enchimento. O que é que eu respondo?… (olha para cima).

Guilherme (meio embasbacado) – Acabou o enchimento, foi?

Ema (atrapalhada) – Hum… sim, sim, acabou!

Guilherme – OK, OK… posso responder-te a isso mais logo?

Ema – Eles estavam a pedir-me para lhes enviar uma resposta o mais rápido possível.

Guilherme – Ai sim? Bom… podes dizer para encomendarem mais, que depois lá se fazem as contas, está bem?

Ema – Está bem, Pai Natal! Com licença.

Guilherme – Está à vontade!

(O elfo sai da casa-de-banho. O Pai Natal fica uns segundos parado a olhar para o nada.)

Guilherme – Bom, onde é que eu estava, mesmo? Ah, pois! (volta a dançar em frente ao espelho)

 

-- Pausa para Publicidade –-

 

Está cansada do seu cabelo de cocó? Já se fartou de gastar o seu dinheiro em produtos capilares que tanto prometem, mas que em nada resultam? Então "Laca Virgin" é para si!
Feita pelos melhores e mais experientes especialistas em cuidado capilar, "Laca Virgin" é o melhor amigo do seu cabelo! Se sempre quis ter o cabelo como a Madonna, esta é a sua oportunidade!

Jingle:
"Laca Virgin, whoo!
Deixa-te o cabelo como o da Madonna nos anos 80
Laca Vi-i-i-ir-gin
Nem sequer é preciso pentear"

Laca Virgin: Caracóis definidos. Cabelo forte. Sífilis... provavelmente...

Laca Virgin não foi submetido a testes laboratoriais. Para mais informações, contacte o seu médico ou farmacêutico. Efeitos secundários podem envolver enfraquecimento do couro cabeludo, queda de cabelo, apodrecimento dos dentes e das gengivas, aparecimento de papos negros nos braços, cancro do cólon, alterações significativas no código genético, multas por excesso de velocidade, a queda do Governo, pragas de gafanhotos, chuvas de rãs, infecções provocadas pela bactéria E. coli e a morte. As farmacêuticas "Santos, Cunha, Ferreira, Mendes, Gomes & Filhos, Lda." não se responsabilizam por absolutamente nada, nos termos do "não nos apetece pagar indemnizações a pessoas que compram este produto na ilusão de ficarem parecidas com uma cantora Pop que até já nem é particularmente relevante". Cumprimentos!

----

Com Nenuco és a melhor enfermeira!

Criança 1 - Nenuco Leucemia é tão divertido!

Podes levá-lo a passear... e aos tratamentos!

Criança 2 - Mas cuidado com os sintomas!

E a sorte é que o Nenuco já é careca!

Criança 1 - O Nenuco Leucemia até traz uma máquina de fazer biópsias!

Nenuco Leucemia: para quem sempre quis sofrer por causa de um boneco de plástico!

 

-- Fim da Pausa --

 

(Corta para o Guilherme a chegar a pé a um mato, com um machado ao ombro.)

Guilherme - No que tu te metes, rapaz! E tudo para que não te chateiem a cabeça com "o Natal isto" e "o Natal aquilo"... Quero lá eu saber do Natal! Afinal de contas, tudo isto não passa de uma invenção do capitalismo para fazer as pessoas gastarem dinheiro em prendas! "Ai, mas é tão bonita, a ideia do Natal com neve, e a família toda reunida"... Neve? NEM SEQUER NEVA, NESTA PORCARIA DE SÍTIO! Porra para isto tudo! Não há aqui pinheiros! Vou ter que me amanhar de outra forma.

(Corta para o Guilherme na parte de fora de um grande estabelecimento comercial.)

Guilherme - OK, se calhar aqui é mais fácil...

(Volta para o Guilherme no site do WikiHow.)

Guilherme - Bolas, fitas, estrelas... É provável que ainda tenha isso tudo guardado na garagem... Ao que eu me sujeito, francamente!

(Guilherme vai à garagem e pega numa caixa cheia de pó. Sopra, levantando uma nuvem de poeira.)

Guilherme (pelo meio da tosse) - É capaz de ser isto!

(Corta para o Guilherme a olhar para a árvore, já montada e decorada.)

Guilherme - Até nem ficou nada mal!...

(De novo, Guilherme no site da WikiHow.)

Guilherme - Próximo passo: ver um filme de Natal. Não me digam que agora tenho que ir vasculhar nas cassetes do meu pai?!

(Guilherme com um VHS na mão.)

Guilherme - Ah, o bom velho "Pai Natal Conquista Os Marcianos"! Espero que não me desiluda como da última vez...

(Cut-gag do Guilherme sentado a olhar para a televisão.)

Guilherme - Que não seja pornografia! Que não seja pornografia!

(Começa a dar uma música de filme pornográfico)

Guilherme - É pornografia...

(Volta à cena de Guilherme a ver o filme. Vêm-se umas cenas no ecrã da televisão.)

Guilherme (confuso) - Se calhar não era bem a isto que o artigo se referia...

(Corta para o Guilherme no site do WikiHow uma última vez.)

Guilherme - "Planear eventos de Natal"...

(Cena do Guilherme no meio da rua com um microfone.)

Guilherme - Senhoras e senhores, meninos e meninas, tenho o prazer de vos apresentar o mais esperado divertimento deste Natal: o Pai Natal bêbado! Sentem-se e peçam-lhe coisas, e eu prometo que ele vos manda passear de uma maneira diferente de todas as vezes!

Transeunte - GRINCH!

Pai Natal Bêbado - Acho que os teus esforços estão a ser infrutíferos porque tu não estás a fazer as coisas com o espírito necessário! Eu aconselhava-te, se queres saber a minha opinião, a fazer uma reflexão e a tentar perceber o porquê desta tua tão grande repulsa ao Natal. Tentar ir buscar traumas antigos, ou algo assim. Não concordas?

Guilherme - Cala-te!

 

Alice (a chorar) - O Pai Natal não pode ser mentira! Eu sei que ele existe!

(Alice entra em casa e sobe as escadas a correr.)

Luis - Maria, está tudo bem? (vai até ao fundo das escadas) Maria!

Alice - Não quero falar contigo!

(Luis sobe as escadas e encontra Alice no quarto a chorar.)

Luis - O que é que aconteceu? Está tudo bem?

Alice - O Pai Natal não existe, pois não?

Luis - Quem é que te disse isso?

Alice - O Sr. Mateus, quando eu estava a sair para ir mandar a carta.

Luis - Maria, ia chegar a uma altura em que ias ter que saber... mas é verdade! O Pai Natal não existe. São os pais que compram as prendas às crianças.

(Alice fica em estado de choque.)

Alice - Porque é que vocês haviam de me mentir?

Luis - Para te ver feliz! Acreditar no Pai Natal é um dos últimos pedaços de infância que nós conservamos, e perdê-lo significa perder muita coisa!

Alice - Eu nem sei como reagir! Preciso que me deixes um bocadinho sozinha, por favor!

Luis - É claro! Quando estiveres melhor, anda para baixo, para almoçar.

(Alice põe-se a andar para cá e para lá no quarto dela.)

Alice - Como é que eu pude ser tão burra? Era óbvio que o Pai Natal não ia existir! Não tem lógica, o Sr. Mateus tem razão. Mas eu queria tanto que fosse verdade!

 

 

(Entretanto, na Lapónia, um duende entra de rompante no escritório do Pai Natal.)

Carolina - Pai Natal, precisamos de fazer uma saída de emergência! Uma criança acabou de deixar de acreditar em ti e nós não podemos permitir isso!

Guilherme - Todos os anos, milhares de crianças deixam de acreditar em mim e nós nunca nos preocupamos com isso!

Carolina - Mas esta criança é especial, OK?

Guilherme - Porquê? É toda deficientezinha ou assim?

Carolina - TU VAIS TER COM ESTA CRIANÇA E PONTO FINAL!

Guilherme - Mas ainda falta uma semana para a Véspera de Natal. Quem é que vai pagar o gasóleo para esta deslocação extra?

Carolina (irritada) - PAI NATAL!

Guilherme (encolhido) - Não grites comigo.

 

(Mais tarde, Ema está em casa a ler um livro. Ouve alguém a bater à porta. Vai abrir e é a Carolina.)

Carolina - Olá!...

Ema - Olá!...

Carolina - Olha... desculpa por estar a vir aqui tão tarde, mas... tinha uma prenda para te dar. (dá-lhe um embrulho). Toma!

(Carolina vira costas e começa a descer a rua. Ema fica a olhar para a prenda, com ar meio arrependido.)

Ema - Ei, Bia! (Carolina olha para trás) Obrigado... e feliz Natal!

Carolina (a sorrir) - Feliz Natal!

(Carolina continua a descer a rua, agora com um sorriso na cara. Ema volta a olhar para o presente, também a sorrir. Fecha a porta. Entra e abre-o. É um antigo brinquedo delas.)

Ema - Ela lembrou-se!

(Ema volta a pegar no telemóvel e liga de novo a Carolina.)

Ema - Miúda, faz o favor de voltar aqui neste preciso instante! E eu que não tenha que dizer isto outra vez!

(Carolina está à porta da casa da Ema. Ema está do lado de dentro. Olham-se uma à outra durante uns segundos até que dão um forte abraço.)

Ema - Desculpa por tudo!

Carolina - Eu é que tenho que te pedir desculpa! Nunca devíamos ter deixado que as nossas diferenças nos afastassem!

Ema - Tens razão, Bia! Podemos voltar a ser irmãs, por favor?

Carolina - É claro que sim, parola!

Ema - Parola és tu!

(Entram as duas para casa a rir e a conversar. A porta fecha-se atrás delas.)

 

-- Pausa para Publicidade –-

 

É oficial! Acabou de ser lançado o álbum de Natal de Noel Silvestre, "The Best Of Christmas", mesmo a tempo de fazer as suas compras de Natal!
Com clássicos como...

(Noel Silvestre canta músicas de Natal.)

E com magníficos duetos com estrelas como:

  • Clara Belém,
  • Aurora Boreal,
  • e Raquel Luz!

"The Best Of Christmas" de Noel Silvestre… nas lojas agora!

 

----


(Estão duas crianças a brincar num jardim.)

Criança 1 - Pai, Pai! Anda brincar!

(O pai, sentado numa cadeira, tenta-se levantar, mas não consegue, derivado das dores que a sua corcunda lhe provoca.)

Narrador - Sente-se triste por não poder desfrutar de tempo de qualidade com os seus filhos?

(Corcunda acena positivamente com a cabeça.)

Narrador - Tem receio que eles, derivado do seu aparente desapego emocional, o abandonem, quando chegar à 3ª idade?

(Corcunda acena positivamente com a cabeça.)

Narrador - Então nós temos a solução para si! O novo e revolucionário "Quasimodofen" promete diminuir a sua corcunda e aumentar a sua felicidade e qualidade de vida!

Esposa - Estou muito feliz! Desde que o meu marido começou a tomar o "Quasimodofen" que vivemos muito melhor cá em casa! Já consegue brincar com as crianças, fazer as tarefas domésticas, ir à casa de banho sem precisar da minha ajuda... Parece que foi um milagre!

(Surge o corcunda parado na rua)

Corcunda - Eu antes era coxo e marreco, mas graças ao "Quasimodofen", agora só sou coxo! Obrigado, "Quasimodofen"!

(Corcunda vira-se de costas e começa a andar, coxeando)

Narrador - Quasimodofen: o segredo da sua felicidade está aqui!

Quasimodofen é um produto "Santos, Cunha, Ferreira, Mendes, Gomes & Filhos, Lda."!

 

-- Fim da Pausa --

 

(Cena do Guilherme a falar ao telemóvel com a Marisa na sala.)

Guilherme - Já decorei uma árvore, já vi filmes de Natal horríveis, já ouvi o "All I Want For Christmas Is You" umas boas dezenas de vezes... porra, até comprei uma rena!

(Guilherme olha pela janela. Cena de uma rena a comer erva no jardim.)

Guilherme - Estás satisfeita, agora?

Marisa - Satisfeita, eu? Se estás a fazer isto para me agradar, podes estar quietinho! Sinceramente, eu não te consigo perceber! Já pensaste que, se calhar, os teus esforços estão a ser infrutíferos porque tu não estás a fazer as coisas com o espírito necessário? Eu aconselhava-te, se queres saber a minha opinião, a fazer uma reflexão e a tentar perceber o porquê desta tua tão grande repulsa ao Natal. Tentar ir buscar traumas antigos, ou algo assim...

Guilherme - Isso foi exactamente o que me disse o Pai Natal Bêbado...

Marisa - Mas entendes onde é que eu quero chegar com isto? Talvez tu sejas mesmo igual ao Grinch e, quem sabe, exista uma razão para não gostares do Natal!

Guilherme - Agora que falas, talvez haja mesmo. É que sabes? Eu nunca soube o que era o Natal... Os meus pais nunca ligaram a isso. Não me lembro de ter recebido uma única prenda; não me lembro de ter decorações em casa; não me lembro de ouvir uma música que fosse... E eu via os meus amigos todos ansiosos pelo dia 24 e, para mim, isso sempre foi sinónimo de tristeza e melancolia, nada mais! A única pessoa que me lembro de me desejar um feliz Natal e de me dar sempre uma fritinha era o meu bisavô...

Marisa - Está na altura de mudares isso! Tu és capaz, eu sei que sim! Bom Natal, miúdo!

Guilherme - Bom Natal...

(Desliga o telemóvel. Olha pela janela.)

Guilherme - Estás satisfeito, Universo? Eu estou a festejar o Natal! Quem é que eu quero enganar? Só um milagre é que podia fazer com que isto tivesse algum sentido na minha cabeça!...

(No céu, vê-se uma estrela brilhante a pulsar e ouvem-se sinos e um "Ho-Ho-Ho".)

Guilherme (a olhar para a câmara) - Não era tão bom se a vida fosse mesmo assim?

 

 

(Alice está a olhar pela janela do quarto e vê a mesma estrela a pulsar no céu.)

Alice – Será possível?

(Pega no casaco, sai do quarto a correr e dirige-se para a porta.)

Luis – Onde vais com essa pressa toda, Maria?

Alice – Vou provar que o Pai Natal existe. Se quiseres, podes vir ver!

(Da janela de casa, o Rui também vê o clarão no céu.)

Rui (encolhendo os ombros) Sempre soube! (fecha a janela)

 

 

(Cena na casa da Ema, com as duas à conversa sentadas no sofá.)

Carolina - Já reparaste que só para nós é que o facto de Pai Natal estar a aparecer ou não foi indiferente?

Ema - Por acaso... Mas, se calhar, é melhor irmos lá ter na mesma!

Carolina - Sim, vamos!

 

 

(Reúnem-se todos num largo à frente do sítio onde a luz que se via no céu aterra. O Pai Natal.)

Pai Natal – Olá, pessoas!

Todos (em uníssono) – PAI NATAL!

Pai Natal – É, sou eu mesmo!

Ema – Onde é que está o teu trenó?

Pai Natal – Está ali para trás, estacionado na mata.

Guilherme – Não estás a dizer isso só porque não há orçamento para ter aqui um trenó a sério, pois não?

Pai Natal (atrapalhado)Nada disso! É mesmo porque o estacionei ali atrás…

Carolina – O que é que estás aqui a fazer? Ainda não é Natal!

Pai Natal – Vim aqui de propósito por uma razão muito especial: para restaurar a crença de uma menina em mim!

Alice – Eu, Pai Natal?

Pai Natal – Sim, tu mesmo! Maria, eu sou real!

Alice – Eu sabia, Pai Natal, eu sabia! (abraça o Pai Natal)

Luis – Espera aí! Se tu existes mesmo, então por que raio é que sou eu que compro as prendas de Natal?

Pai Natal (atrapalhado) É que sabe, houve alguns cortes no orçamento, tivemos de nos ajustar à inflação, e… Ui, que horas já são! A Mãe Natal dá cabo de mim se chego atrasado para jantar! Adeus, pessoal! Adeus, Maria!

Alice – Tchau, Pai Natal!

(O Pai Natal desaparece por entre a vegetação.)

Ema – Então e agora?

Carolina – Eu sou capaz de ter uma ideia…

(Cena com todos sentados em cadeiras a assistir a um concerto de Natal do Noel Silvestre.)

Guilherme (num aparte, olhando para a câmara) Faz algum sentido esta história estar a acabar assim? Não, não faz! Mas quer dizer: tendo um palco disponível, tinha de o utilizar, e também não podia desperdiçar um personagem como o Noel Silvestre, não é? Vá, pessoal, aproveitem a viagem! Feliz Natal!

 

FIM

Thumbnail.jpg

História Verdadeira de Natal (Guião Original - Versão 2021)

Avatar do autor Guilherme dos Santos Gomes, 24.12.23

A acção começa na sala. O Gui chega, senta-se no sofá e liga a televisão para ver o que está a dar.

Gui: Vamos lá ver o que está a dar! Ora bem...

(Na televisão está a dar um filme muito parecido com os outros 7 mil milhões que se baseiam no conto da autoria de Charles Dickens.

A Carolina está a dormir. A Alice [fantasma] entra na sala e acorda-a)

Alice: Buuu! Eu sou o fantasma do Natal, e venho-te avisar que hoje te vêm visitar três fantasmas, porque tu tens sido muito má!

Carolina: E acordaste-me para isso? Já viste que horas são? Amanhã tenho que acordar cedo!

Alice: É pá! Peço desculpa! Mas é que...

Carolina: Não há mas nem meio mas! Não se interrompe assim o sono das pessoas! Não és tu que tens que trabalhar, não é?

Gui: Ui! Ui! Mais um filme baseado na história do Charles Dickens? Já chega disto! Esta história foi mais espremida que sei lá o quê! Deixa-me ver outra coisa!

(Gui muda de canal. Aqui está a dar um filme tipo Fox Life em que tudo é perfeito e nada corre mal!)

Carolina: Meu amor! Eu sabia que eras tu quem eu amava!

Alice: Desculpa se te magoei. Nunca foi esse o meu objectivo!

Carolina: Não faz mal! O que interessa é que estamos todos juntos outra vez!

Alice: Este é mesmo o melhor Natal de sempre!

Gui: Blhec! Que nojo! Tanto clichê aqui metido! Parece um filme do Fox Life! Será que não está a dar nada de jeito em lado nenhum?

(Gui muda de canal. Neste canal está a dar um filme chamado “História Verdadeira de Natal”)

Gui: História Verdadeira de Natal... Parece interessante! Deixa cá ver, então.

(Começa o filme)

Gui (Narrador): Há muito muito tempo, numa terra cujo nome não sabemos chamada Nazaré, vivia uma jovem senhora burguesa e o seu marido carpinteiro. Certo dia, esta jovem recebeu uma visita inesperada:

Alice (Maria): Deixa-me cá fazer o comer para o meu homem, que não tarda deve estar a chegar do trabalho! Como ele fez anos aqui há cinco dias, e a gente não festejou, vou ver se o impressiono!

(Enquanto a Alice diz isto, a Carolina aparece atrás dela)

Carolina (Anjo): Olá!

Alice: Ai, que me assustaste! Valha-nos Deus!

Carolina: É mesmo desse gajo que eu te venho falar. Como é que adivinhaste? Então, é o seguinte! O meu nome é Gabriel, e sou o director executivo da OIHS ou, em Português, “Organização de Inseminadores do Espírito Santo”. O que eu te queria dizer era o seguinte: Deus ligou-me a dizer que te ia engravidar e mandou-me aqui.

Alice: A mim? Eu sou uma mulher pura e honrada. Eu não traio o meu Zé por nada! Afinal onde é que está esse badalhoco?

Carolina: Pois, aí é que está... Ele não veio, e como a inseminação artificial ainda não foi inventada, eu não sei como é que tu vais ter um filho dele. É que ainda por cima ele não tem uma figura terrena, nem nada... Deixa-me ligar-lhe num instante. Com licença.

(O anjo liga-lhe)

Carolina: ‘Tou! Olha, como é que a Maria vai engravidar? OK. Tá bem. Tá bem. Tchau! Beijinhos! Tchau! Tchau! Tchau!

Alice: E então?

Carolina: Bom, ele disse que vai mandar cá uma pomba.

Alice: Uma pomba? Como assim uma pomba?

Carolina: Pelo que eu percebi é uma pomba metafórica.

Alice: Eu já estou a começar a fervilhar! Então você aparece-me aqui em casa a dizer que eu vou ficar grávida de um tal de Deus, e ele nem aparece nem nada! Estamos a brincar, ou o quê?

(Toca o telefone do Anjo)

Carolina: ‘Tou sim! Olhe, desculpe, mas eu estou aqui ligeiramente ocup... ah, Sr. Deus, é você! Certo. Certo. OK, está bem, está bem! Pronto, muito obrigado. Com licença! Olhe, já está resolvido! Deus acabou de me dizer que já a engravidou! Completamente indolor, está a ver? Só uma particularidade: o miúdo tem que se chamar Jesus.

Alice: Hum! Não gosto muito desse nome... Não pode antes ser Emanuel?

Carolina: Não! A lei divina diz expressamente que o nome ou é Salvador, ou é Jesus.

Alice: Pode ser Jesus, então, que o meu Zé gosta muito de ver a bola!

(Corta para o Palácio do Herodes. Alice é o mensageiro e Carolina é Herodes)

Gui: Entretanto a notícia já havia chegado a Israel, porque Maria, beata que é, já tinha contado a toda a gente.

Alice: Meu rei. Já ouviu a boa... quer dizer, a má-nova? Diz que vai nascer, daqui por nove meses, um puto que vai ser rei de todos os Homens e que vai mandar mais que você!

Carolina: Como ousas dizer algo assim? Isto é um ultraje! Como assim vai mandar mais que eu?

Alice: Foi o que eu ouvi dizer!

Carolina: Liga ao pessoal da Agência Lusa a dizer que, em Dezembro, eu vou mandar matar todos os bebés que nascerem tanto aqui como na Nazaré! Já bem bastava o McNamara, que me roubou o protagonismo todo de Peniche para cima, quanto mais agora um puto que ia abafar o meu nome no resto do Mundo!

(Cena na casa da Maria e do Zé, que está a chegar do trabalho)

Carolina: Amor, cheguei! Adivinha: vi agora nas notícias que o Herodes vai mandar matar todos os bebés que nascerem em Dezembro nesta zona! Quando eu pensava que este gajo não podia ficar pior, sai-se com uma medida destas, pá! O que vale é que ainda são os bebés! Imagina que eram os velhinhos, coitadinhos...

Alice: Oh, não! O meu bebé vai nascer em dezembro! O que é que eu vou fazer agora?

Carolina: Como assim “o teu bebé”? Há alguma coisa que me queiras contar?

Alice: Bom... Olha, é assim, não fiques chateado, mas esteve cá um anjo há bocado, não é, e ele esteve-me... meio que... a pôr grávida de Deus...

Carolina: Pois, um anjo... Que rica prenda de anos! E já dura há muito tempo ou também não me queres dizer isso?

Alice: O quê? Eu juro que era um anjo e que estou grávida de Deus Nosso Senhor! A propósito, o puto vai-se chamar Jesus.

Carolina: Bom, sendo assim vou fazer uma breve referência a uma coisa que foi dita anteriormente neste especial de Natal e dizer que estou muito contente com o facto de ele se chamar Jesus, uma vez que eu sou bastante fã de Futebol, e acabar por te dar o meu voto de confiança: Vou-te dar o meu voto de confiança. Nesse caso temos que sair rápido daqui! Eu tenho um primo que tem quartos para arrendar em Belém. Se sairmos agora pode ser que cheguemos lá a horas! Já agora, gostei da escolha do nome! Tu sabes mesmo como fazer um homem feliz!

Alice: Belém? Tu sabes que eu odeio ir a Belém! Ainda por cima pela estrada nacional! Vamos antes meter pela autoestrada e vamos ter o puto a al-Khader!

Carolina: Lá estás tu outra vez! Vamos de burro que não custa tanto! Afinal, não fui eu que me meti nesta alhada, fui?!

Alice: Está bem! Vamos lá! Mas promete-me que não metes o burro nos buracos todos, como costumas fazer.

(Partem então para Belém)

Gui: José e Maria partem para Belém. Uma viagem intensa de 150 quilómetros. Nesta altura, vão a meio da viagem:

Alice: Ó Zé! Está-me a apetecer uma bifana.

Carolina: O quê? Tu estás maluca? Tu sabes que a gente não pode comer bifanas, que Deus não deixa!

Alice: Claro! És sempre tu que decides! Já agora, eu estou com pena do animalzito! A gente já andou sensivelmente 75km, e o burro vai aqui cansado... Porque é que não fizeste uma carroça para o animal? Não és carpinteiro?

Carolina: Não fiz uma carroça porque a menina teve a excelente ideia de andar a contar a toda a gente que estava grávida de um miúdo “especial” e tivemos que sair a correr! E já agora, quem devia estar chateado era eu, porque eu é que vou a pé, estou aqui de sandálias e estou com os pés cheios de bolhas!

Alice: Pronto, está bem! Faz o que quiseres...

(Chegada a Belém)

Gui: Era véspera de Natal! José e Maria acabavam de chegar a Belém. Ela estava prestes a dar à luz, e ele liga ao primo para confirmar a reserva.

Carolina: Estou primo. Já tens o quarto preparado?

Gui (Primo): Olha, quanto a isso, já não vai dar. Um casal de turistas ingleses reservou o hostel todo e eu tenho uma reputação a manter no Tripadvisor!

Carolina: Ei! A sério? Porra! Então e agora o que é que eu vou fazer? (desliga o telefone) Ó Maria, ele diz que está tudo reservado!

Alice: Não acredito! O que vamos fazer, então?

Carolina: Não sei...

Gui (Narrador): Após horas e horas de procura, acabam por encontrar um senhor agricultor que amavelmente lhes cede o seu celeiro de ovelhas e vacas.

Alice: Ó Zé, eu nem quis dizer ali ao pé do senhor, que até parecia mal, mas eu não quero parir num celeiro! Tu sabes perfeitamente que o único Celeiro de que eu gosto é o do shopping.

Carolina: Mas Maria, é a única opção que a gente tem. O que queres que eu faça?

Alice: Eu queria era que tu fosses um bom marido que me... AH!

Gui: Neste momento, as águas de Maria rebentam, e ela entra em trabalho de parto:

Carolina: Respira fundo! Vai tudo correr bem!

Alice: Para ti claro que vai! Não é de ti que está a sair um pequeno aliene!

Gui: O bebé cai no chão por entre as pernas de Maria. E eis que nasce o senhor, o salvador, o magnífico Jesus Cristo Super Estrela! José pega no miúdo, e de dentro dele sai uma luz que se ergue sobre a manjedoura e parte em direção à Pérsia.

Carolina: Que é que foi isto? Ninguém me avisou que o puto cagava foguetes!

Alice: Não sejas parvo! Não vês que era o Espírito Santo?

Carolina: Eu ver, não estou a ver nada...

Gui: Maria pega no bebé em braços e vão começando a chegar ao pé deles pastores vindos de todos os cantos da Palestina. Eles colocam Jesus, que tinha acabado de nascer mas já estava rijo, numa caminha de palha no meio do burro e da vaca.

Alice: Não é lindo? O filho de Deus a ser adorado por todos...

Carolina: Lindo sou eu, Maria. Isto é só esquisito, que eu já vi para aí cada um... Se fosse a ti, eu teria mais cuidado, e continuo a dizer que o puto escusava de estar aí deitado só com uma mantinha a tapar a pilinha! Eu não te disse para pararmos naquela Zippy em Sinjil? O bafo dos animaizitos não lhe pode fazer muito bem!

Alice: Está calado! Não me envergonhes aqui à frente desta gente toda!

Gui: Entretanto, na Pérsia, três Reis Astrónomos avistam nos céus a luz que havia saído de dentro de Jesus, e começam a segui-la. Encontram-se então numa Estação de Serviço, lá para os lados de Persépolis.

(Nesta cena, Alice é Gaspar e Carolina é Belchior)

Alice: Fogo! O que se passará com o Baltazar? Já entrou na casa de banho vai para meia hora!

Carolina: Não sei. Deixa-me ligar-lhe. Estou! Onde estás? A sério? Ora bolas!

Alice: O que foi?

Carolina: Diz que apanhou o camelo a comer-lhe a mirra, que o animal ficou elétrico, começou a correr desalmadamente e que já está em Ofra.

Alice: Em Ofra? Nunca mais o apanhamos! Ó Belchior, eu tive uma ideia.

Carolina: Diz, Gaspar.

Alice: Que achas de nós darmos meia volta e voltarmos para casa? Ele já está quase em Belém, e ainda por cima leva três prendas. Ligas-lhe a dizer que duas delas vão da nossa parte, e fica resolvido. Que achas?

Carolina: Eu acho bem. Eu também só lhe ia levar um bolo rei, mas de certeza que o puto não gosta de fruta cristalizada... Ainda ia ser a vaca que ia comer tudo.

Alice: E eu, feito estúpido, levava uma camisola! Nem me lembrei que a mãe dele tem posses! De certeza que preparou um enxoval do caraças!

Carolina: É! Vamos mas é embora!

Gui: E foi esta a verdadeira história do Natal! O Herodes lixou-se, porque Belém já não faz parte da jurisdição dos guardas dele, mas sim dos de Jerusalém; o Gaspar e o Belchior ficaram com os louros das prendas, ainda que não tenham sequer aparecido na manjedoura; o Jesus andou para aí feito comunista, até que os romanos se chatearam e o mandaram crucificar, que era isso que se fazia àqueles que comiam crianças, davam injeções aos velhos para os matar e roubavam as mulheres e as casas dos outros naquela altura; o José divorciou-se da Maria e agora vive com um alentejano em Marrocos; e a Maria agora é vegetariana e influencer das Redes Sociais, contando já com cerca de onze seguidores, que já seguiam o filho dela.

Vitória, Vitória, Acabou-se A História!

natal.png

Trabalhos de Casa #8: "Como foram as minhas férias"

Avatar do autor Guilherme dos Santos Gomes, 07.01.23

Quis o destino que a primeira crónica do ano fosse um episódio dos “Trabalhos de Casa”, e por mim tudo bem, embora eu preferisse falar sobre o vazio que nos é provocado pelo fim das festividades do Natal e da Passagem de Ano. Isto porque Janeiro é deprimente. É um mês que parece fazer morrer algo dentro de nós, perder aquela inocência que o Natal lá nos vai trazendo uma vez por ano. Não é, portanto, de admirar, que este mês tenha sido nomeado segundo o deus romano Jano, deus dos inícios e das mudanças, cuja figura surge várias vezes associada a portas. Deuses há que têm a eles associadas figuras do calibre de terras, mares, planetas! Jano tem as portas... Já não é mau! Por isso, hoje também trago um texto que é deprimente. Um texto escrito em 5 de Janeiro de 2015, com o sugestivo nome “Como foram as minhas férias”, em que eu conto, lá está, como foram as minhas férias. E surpreendam-se com a espectacularidade das interrupções lectivas deste que vos fala!

As minhas férias começaram no dia 13 de dezembro de 2014 e acabaram no dia 5 de janeiro de 2015.

Nos primeiros dias brinquei e fiz os trabalhos das férias.

Na véspera de Natal acordei às 10 horas e tomei o pequeno-almoço. À noite fui cear a Sande, a casa dos meus avós paternos. Depois do jantar ouvimos um barulho, um estrondo no teto, de certeza que era o Pai Natal. Segui para Avões na altura de abrir os presentes do Pai Natal, sentei-me ao pé da lareira para ver se encontrava alguma pista, um bocado depois ouvi uma coisa a escorrer no telhado. Fui ver debaixo da árvore e estava cheio de presentes. Eu recebi o Sem Palavras, o Hedbanz, a estufa ecológica, uma caixa de animais, o Monopoly, uma mesa de snoker, um livro e boxers dos minions.

No dia 25 de dezembro fui almoçar a Avões a casa dos meus avós maternos.

Na véspera de Ano Novo acordei às 12 horas e fui cear à casa dos meus avós maternos, e passei aqueles 12 segundos em cima de um banco.

A 1 de janeiro fui almoçar à casa dos meus avós paternos.

Gostei muito das minhas férias.

Eu avisei que isto ia ser assim. Profundamente desinteressante. Não entendo o porquê dos pormenores tão técnicos, da especificidade de na Véspera de Natal ter acordado às 10 da manhã, ter tomado o pequeno-almoço, na Passagem de Ano ao meio-dia. Para quê tanto detalhe? Só faltou dizer que “ao almoço do dia 29 de Dezembro comi um arroz, que por acaso estava muito bom, com um bife com ovo a cavalo, ovo que era biológico, tamanho M, frito a 178,5ºC, em óleo, como, de resto, eu gosto mais”. Porra!

Outra coisa a que eu faço uma referência, ainda que breve, é a essa invenção do Demo que são os “trabalhos das férias”. - Eu sei que esta rubrica se chama “Trabalhos de Casa”, mas não quer isso dizer que eu goste de trabalhos de casa! Por essa lógica, o Markl também gostava de morder cães e de meter, vamos lá ver, nêsperas no, digamos, cu! – A definição de férias é mesmo “interrupção relactivamente longa de trabalho, destinada ao descanso dos trabalhadores”. Obrigar os alunos a trabalhar nas férias é uma contradição a ambas as partes do conceito destas: nem se está a interromper o trabalho, nem a permitir que os trabalhadores descansem! Por isso, senhores professores do nosso Portugal, faço o meu apelo para que não mais os alunos sejam forçados a trabalhar naquele que é, por direito, o seu momento de descanso. Já que estou numa de pedir coisas aos professores, eu não gosto muito de fazer testes. É uma coisa que me chateia, pronto! Se desse para, vamos lá ver, não fazer testes, para mim era espectacular! É porque ir às aulas tem a sua graça, ninguém diz o contrário. Agora, fazer testes parece que me deixa nervoso, ou o que é. E o problema, para além disto, é que a minha ansiedade se expressa de uma forma muito particular. Qual? Através do meu cólon. O meu cólon, quando se vê numa situação particularmente chata, e ainda antes do meu cérebro se aperceber, começa a emitir umas mensagens que chegam a ser aflitivas, de tão sonoras que são. Não raras vezes me apercebo de que devia ficar stressado por causa do meu intestino! Por isso, se um dia escutarem um roncar oriundo das minhas profundezas, o meu perdão, mas a culpa não é minha. Até para a semana!

colon.png

Era Para Desejar Um Feliz Natal!

Avatar do autor Guilherme dos Santos Gomes, 24.12.22

É Natal! Feliz Natal! Agora, os mais mesquinhos diriam “Não, não! Hoje é Véspera de Natal! Amanhã é que é Natal!”. É pá, até são capazes de ter razão, mas isso, e corrijam-me se estiver errado, não interessa muito. Para dizer a verdade, eu acho que ninguém quer saber realmente do dia 25. Porque tudo acontece a 24! A Ceia de Natal? 24 de Dezembro. Os presentes? 24 de Dezembro. Apanhar uma tosga com Mon Chéries? 24 de Dezembro. Tudo o que importa está a acontecer hoje! O dia de Natal só foi criado para que a Véspera pudesse existir! Portanto, não me chateiem com essa coisa de o Natal ser só amanhã, está bem? Dito isto, e por falar em Natal, será que o rapaz do anúncio da Wallapop sempre voltou a casa dos pais?

É Natal! Feliz Natal! (Tenho a impressão que já tinha dito isto...). E por hoje se comemorar esta data tão importante, decidi fazer uma crónica especial, recheada de coisas muito giras e que me deram imenso trabalho (suponho, pois estou a escrever isto antes de fazer o que quer que seja...).

O Natal começa, como eu já tive oportunidade de dizer noutras ocasiões, estupidamente cedo, hoje em dia. E qual é o primeiro sinal de que esta época está aí a rebentar? Exactamente, é o gradual aumento dos anúncios de brinquedos, perfumes e carros, daqueles que alienam forte e feio, na televisão. Há anúncios clássicos, é verdade. Por exemplo, não é possível passar um Natal sem o popular anúncio do Ferrero Rocher! Se um dia este reclame for substituído, eu creio que irá haver um forte impacto no tecido espaço-tempo e o Universo irá implodir. É para verem o quão importante esta publicidade é! Mas porquê? Porque é que nós gostamos tanto de ouvir a Senhora a dizer que lhe apetecia tomar algo (o que me deixa a pensar no quão engraçado seria substituir o Ambrósio por um empregado de café chico-esperto, que ao “apetecia-me tomar algo” responderia “Apetecia? Já não lhe apetece?”)? Porque é que gostamos tanto de um bloco publicitário com, agora, 30 anos? Esse é um mistério, e acho que o devemos deixar assim. Mas, cá para mim, é por causa do prato giratório da limousine... Aquela porcaria é espectacular! Como homenagem a estes anúncios tão míticos, decidi incluir dois dos meus favoritos. Ei-los:

“Publicidade Klaus Barbie”:

É assim que eu quero ser, como o Barbie.

Chegou o novíssimo “Klaus Barbie”!

Vive as aventuras de Barbie como oficial Nazi!

Brinca com um dos maiores criminosos de Guerra da história! Também tu irás querer ser como ele!

Klaus Barbie diz mais de 150 frases:

“O Holocausto não foi o que parece...”

É sensacional!

“Klaus Barbie – O Carniceiro de Lyon” é da Concentra-ção...

 

“Publicidade Perfume ‘Puissant’”:

(A câmara começa focada no meu rosto e vai afastando até se ver todo o ambiente à minha volta, mas nada está a acontecer. Eu paro de repente, olho em redor e apercebo-me desse facto)

Então? Nada? Não há um cavalo, não há uma estátua, não há uma janela a estoirar, não há uma pessoa desnudada? Não? Nem o Johnny Depp, ou algo do género?... Está certo. Também dá... Olhem, comprem o raio do perfume. Eu vou embora. Beijinhos!

 

Outra tradição muito gira, mas que infeliz (ou felizmente) vai caindo em desuso, é o Natal dos Hospitais. Nos tempos de antigamente, em que o Presidente ainda era o Ramalho Eanes, o Natal dos Hospitais era uma instituição do nosso Portugal e o país parava para assistir a este magnífico programa no Canal 1 (vá, o país parava porque era feriado, mas aproveitava e via o Natal dos Hospitais. Também não está mal...)! Hoje em dia, apesar de ainda passar na Emissora Nacional, já não capta muito a atenção dos telespectadores, que têm muito mais oferta e preferem passar a tarde a ver uma comédia romântica de Natal no Fox Life (decisão que eu, para além de não aprovar, repudio!). É pena pensar que este programa tão bonito, que trazia alegria a este povo, está, neste momento, moribundo. Um pouco como as pessoas que a ele assistem ao vivo, de resto. Por falar nisso, eu não sei se aguentava. Como se já não bastasse o sofrimento e a frágil saúde daqueles doentes, imaginem ter que passar o dia de Natal a ouvir a Ágata e o Coro de Santo Amaro de Oeiras a cantar! Ao primeiro “Que seja um bom Natal/Para todos vós”, eu já me tinha eutanasiado!

O que também não pode faltar aqui é a comida. Comidas há muitas, mas as que se comem no Natal parecem ter outro sabor. Parecem ter algo diferente, que nos assalta os sentidos e nos excita os paladares. Parece que têm... como é que se diz?... Açúcar! É isso! Mas para além disso, parecem ser feitas com outro carinho. Quem nunca acordou, no dia 24, e sentiu o doce cheiro de canela e chocolate pelo ar? Aquela mistura de aromas que nos faz começar a salivar ainda antes de sairmos da cama? Em princípio Judeus, Muçulmanos, Budistas, Hindus, Satanistas... Mas vocês perceberam. Mas pelo meio de tanta doçaria excelente, tanto bolo e tanta sobremesa de comer e chorar por mais, temos uma cuja existência me dói. Falo, obviamente, do Bolo-Rei. Eu aposto que ninguém gosta verdadeiramente de Bolo-Rei. É impossível! E a malta que come só o faz mais por uma convenção social que outra coisa qualquer! Porque aquela porcaria não sabe bem! Não sabe, não vale a pena! E a fruta cristalizada? O que é aquilo? Quem é que pensou naquela porcaria? Quem foi o inteligente que olhou para aquela rosca cheia de frutos-secos e uvas velhas (porque as passas também são assim: terríveis) e pensou “O que ficava bem aqui era casca de laranja e bocados de abóbora cobertos por uma película de açúcar e diabetes”? Eu estive a ver e, em 100 gramas desta “fruta”, 81 são açúcar! Esta porcaria tem uma percentagem maior de açúcar que a Terra tem de água! Atenção! Isto não é brincadeira!

Outra não menos importante tradição é, como já seria de esperar, o “Sozinho Em Casa”. Vi no outro dia que, este ano, vai ser a 24ª vez que este filme vai passar na televisão nacional (já agora, este ano vão dar na SIC. O primeiro dá hoje, às 21:15, e o segundo vai passar amanhã à noite), e ainda não é suficiente! A este filme aplica-se a mesma lógica do anúncio do Ferrero Rocher: tem que dar até à eternidade, caso contrário, acabou o Natal. A história já toda a gente conhece: é um menino, Kevin, que fica sozinho em casa (que surpresa, hã?) e vê-se obrigado a protegê-la de dois assaltantes que a querem, lá está, assaltar, mas que acabam por se lixar. No segundo, a história é mais ou menos a mesma, só que em Nova Iorque e com uma loja de brinquedos em vez da casa do rapaz. Ah, e as armadilhas são mais mortíferas! E é só. Para mim e para toda e qualquer pessoa de bem, só existem estes dois filmes. O primeiro, de 1990, e o segundo, de 1992. O que foi feito a partir daí (porque foi feita muita porcaria), nem é considerado. Já não tem o Macaulay Culkin? Já não interessa. Para além disto, se houver alguém que não nutre um forte amor por estas duas obras-primas do cinema e resmunga quando elas passam mais uma vez na televisão, esse alguém merece ser submetido a um auto-de-fé e uma execução em praça pública. E já é muito bom, se querem que vos diga! Eu acho até que, numa próxima revisão constitucional, se devia ponderar acrescentar a obrigatoriedade de gostar destas películas. No entanto, eu estive a pensar, e acho que o fim do filme não é espectacular. Se bem se lembram, é uma narrativa aberta, e eu acho que era possível criar um final que fosse de acordo com os acontecimentos do filme e o encerrasse devidamente. E foi isso que eu fiz!

Boa Noite! Kate McCallister vai mesmo ser julgada pelo crime de negligência infantil, após ter deixado o seu filho menor, Kevin McCallister, sozinho em casa enquanto viajava para Paris com a restante família. É curiosa, esta tendência natural das Kates para abandonar crianças (*cof-cof* Kate McCann *cof-cof*).

Kevin McCallister, de 8 anos, vai também ser indiciado pelos crimes de ofensa à integridade física qualificada e homicídio na forma tentada, contra dois assaltantes, Harry Lime e Marv Merchants, conhecidos como “Bandidos Molhados”. Kevin terá, alegadamente, agredido violentamente as vítimas, que ficaram visivelmente feridas, com escoriações, hematomas e fracturas várias. Ambos aceitaram prestar declarações à imprensa.

Harry: “Esse rapaz é um psicopata! Ele não estava só a defender a casa de assaltantes. Ele sabia bem o que fazia. Um rapaz que me manda com baldes de tinta mesmo na cabeça, que me pega fogo com um lança-chamas e me dá um tiro nos testículos só pode estar a tentar matar-me, pá! Prendam-me esse filho da mãe!”

Marv: “Ele aleijou-me aqui, na cabeça. Com um ferro de engomar. Ainda me dói um bocadinho, mas isto é capaz de passar. Qual era a pergunta, mesmo?”

 

Por fim, queria deixar uma pequena mensagem. Não deixem morrer o espírito de Natal. Não percam a essência desta época. Aproveitem-na, ao máximo. Estejam com aqueles que mais amam e que mais vos amam. Ponham as vossas conversas em dia. Estejam só uns com os outros. Sejam felizes, porra! Porque o Natal acontece todos os anos, mas podemos não estar lá para o ver a acontecer mais uma vez. Mas antes de fazerem isto tudo, mostrem esta crónica durante a Ceia, que esta é uma óptima altura para angariar subscritores aqui para o menino. Vá, ide lá à vossa vida. Feliz Natal!

NATAL.png

Taxa de Natalidade

Avatar do autor Guilherme dos Santos Gomes, 10.12.22

É pá, a minha ideia sempre foi encher os Países Baixos com água e fazer uma grande piscina para a Europa, porque a água não vaza, não Lisboa!

Faltam duas semanas para o Natal. Chegou a altura de nos começarmos a preparar. Por isso, o que eu trago hoje é uma breve lista das coisas que temos que fazer antes desta popular festividade. Vão pondo o “All I Want For Christmas Is You” e o “Let It Snow!” a tocar, porque chegou a hora de preparar o Natal:

  • O primeiro passo é decorar a casa - mas deixem-me que vos diga: se ainda não o fizeram, estão à espera de quê? Já é dia 10, não sei se perceberam. O ritual de desempacotar os velhos ornamentos natalícios é sempre muito mágico, e é muito triste pensar que eles estão arrumados em caixas cerca de 330 dias por ano. Por isso é que eu defendo que se deve deixar a decoração brilhar por mais tempo. Mas sempre porque a fazemos mais cedo, em meados de Novembro... ou Julho... Deixá-la até mais tarde é deprimente! Porque em Janeiro, já ninguém tem espírito de Natal, ou se ainda preserva qualquer coisinha, ele já está muito moribundo. Imaginem chegar a casa, a meio de Janeiro; um temporal na rua; nós todos molhados, porque o raio dos guarda-chuvas não guardam é chuva nenhuma; cansados, porque foi um dia daqueles difíceis, no trabalho; com a esperança de que finalmente vamos poder relaxar, sentados no sofá; e ver o raio da árvore ainda montada no canto da sala, com aqueles pisca-piscas e aquelas fitinhas, toda armada em boa. A vontade, nestes momentos é, das duas uma: ou pôr termo à vida, ou desmanchar aquele filho da mãe daquele pinheiro travesti à machadada! É assim que acontecem as tragédias, amigos.
  • O segundo passo é escrever a carta ao Pai Natal. E aqui aplica-se a mesma lógica das decorações: já é dia 10! O gordo tem prazos a cumprir, e os brinquedos não se fazem de um dia para o outro! É preciso tempo, é preciso material, é preciso paciência! Eu nem imagino a roda-viva em que devem andar os elfos nesta altura. A quinze dias do Natal e a maior parte das crianças ainda não mandou o raio da carta! Depois admirem-se, que estão na lista dos malcomportados! Para mim, a melhor altura para se enviar as cartas é a meio de Outubro, que é para dar margem de manobra às pessoas. Eu sei que os catálogos de Natal só saem lá para meio de Novembro, mas temos que ter um bocadinho de consciência. Voltando um bocadinho atrás, é mais que natural que os elfos se chateiem! Eu estou mesmo à espera do dia em que ninguém receba prendas porque a CGTN, que é a Confederação Geral dos Trabalhadores do Natal, convocou greve. Porque as condições de trabalho destes pequeninos devem ser ainda piores que as dos pequeninos na Indonésia! Ide mas é escrever a carta, pá!
  • O terceiro passo essencial é a compra dos presentes. Se já decidiram tudo o que vão comprar, eu aconselhava-vos a irem já, porque daqui a uns dias a experiência de andar num centro-comercial vai ser igual à dos americanos na Guerra do Vietname: só mesmo com uma catana, para desbastar o mato! Eu próprio vou meter licença sem vencimento na próxima semana, para ver se trato desta situação... ou melhor, vou só meter licença, porque vencimento já eu não tenho... Agora, isto é como eu vos digo, ou tratam disso o mais rápido possível, ou então metam na cabeça que este ano não vai haver prendas para ninguém. Porque, neste caso, deixar tudo para a última não costuma dar bom resultado. Não vão às compras no dia 23 à espera de ainda encontrar aquele perfume ou aquele colar, porque não vale a pena. Façam mas é a mala, metam um capacete e um colete à prova de bala e força nisso, que isto chega a ser pior que a Black Friday, dá-me impressão.

E pronto, chegamos ao fim. Creio que estes são as coisas essenciais a fazer nesta altura. Bolos e rabanadas só lá mais para a frente, porque eles têm a tendência de ficar cheios de bolor, e assim. Se estiverem interessados em dar-me uma prenda, estejam à vontade! Eu tenho preferência por livros (se quiserem até vos mando uma lista), Legos e discos de vinil. Agora, a escolha é vossa. Sem pressão! Até para a semana!

taxa de natalidade.png

Trabalhos de Casa #6: “Querido Pai Natal”

Avatar do autor Guilherme dos Santos Gomes, 03.12.22

Declaro que a Quadra Natalícia começa aaaaa... gora: Bom Natal! Agora que já estamos no espírito, acho que podemos começar. Porém, faço um aviso: tudo o que eu possa dizer nesta crónica, por mais estúpido que seja, pode ser resultado de uma gripe mal curada! É só mesmo uma advertência que, aliás, acho que poderia dar bastante jeito ao Kanye West, neste momento: Sr. West, não diga é Nazi, diga que é só uma virose mal curada ou assim, está bem? Vá, cumprimentos e resto de um bom dia! Ora, hoje é dia de mais um Trabalhos de Casa. Neste sexto episódio vou-vos apresentar, como devem calcular, um texto subordinado à temática “Natal”, mais especificamente às cartas a esse mítico gordalhão que é o senhor Pai Natal! Retirado do meu caderno da 3.ª Classe, eis o texto do dia 1 de Dezembro de 2014, com o nome, acredito, “Querido Pai Natal”:

Querido Pai Natal:

Nesta carta não te vou pedir nada, mas só te vou falar da vida. Eu gostava que este ano passasses em minha casa ou nas dos meus avós e tirasses uma fotografia comigo, para eu provar que és real. Prometo que vou ser bem comportado e respeitarei os meus pais. Quando tocar a meia noite estarei à tua espera na sala de estar.

Quando chegáres estaciona o carro de renas, bate à porta, que eu estarei lá e doute umas bolachinhas. Não te preocupes se não souberes onde é que fica a minha casa, eu ajudo-te.

Também me podes contar histórias de como se fazem as coisas lá na fábrica e quantos anos e duendes tens.

Só espero que neste Natal todos os meninos do Mundo recebam pelo menos uma coisinha, com paz e amor.

Pai Natal, recebe esta carta com um xi-coração e não te esqueças do que te pedi.

Uma pessoa que acredita em ti,

Guilherme Gomes

Vamos lá ver: neste texto, eu faço um dos mais descabidos pedidos da história da humanidade! Então alguma vez o Pai Natal ia aceitar tirar uma fotografia comigo? O gajo anda para aí a fazer trinta por uma linha, a descer de chaminés e o camandro, para não ser visto, e ia aceitar de bom grado que eu registasse a sua imagem para, ainda por cima, provar aos outros que ele é real?!? Se o Nicolau se quisesse mostrar, não entrava nas casas estilo assaltante! Batia à porta, como uma pessoa normal! Às vezes tenho vergonha de mim mesmo, sabem? Que estúpido.

Depois, que falso que este puto era! Ai, que não sei quê, “espero que todas as crianças recebam uma prendinha, com paz e amor”. FALSO! Pareço a Miss Universo, pá! “Peace in the World and no war and very beautiful things and coiso...”. Com oito anos, acho que ninguém está propriamente preocupado com as outras crianças (exceptuando, talvez, a Greta. Essa era capaz de se preocupar um bocadinho.). Nós queríamos era receber os nossos brinquedos! Não nos importávamos com aquela criança da República Centro-Africana, que se calhar não ia receber o “Mauzão” ou o “Mentiroso” que tinha pedido ao Pai Natal... até porque é extremamente improvável uma criança da República Centro-Africana pedir jogos da Concentra... e acreditar no Pai Natal... e estar viva...

Por isso, e para terminar, vou fazer uma edição especial com não uma, mas DUAS composições dos meus tempos de petiz! A que eu vos vou apresentar de seguida não era bem uma composição. Era um trabalho em que eu tive que escrever tudo aquilo que queria pedir ao Pai Natal, mas dentro do desenho de uma bota. E no fundo, o que eu fiz foi enumerar a totalidade destes meus desejos num texto corrido. E, agora sim, demonstro o que uma criança de 8 anos realmente é: um vil e voraz capitalista! Do dia 16 de Dezembro de 2014, a minha lista ao Pai Natal:

Um Tom e Jerry, Monopoly, Sem Palavras, Lisboa, Furby Boom, um Duende, Tablet Samsung, uma Mãe Natal, Playstation, jogo Disney Infinity para Playstation, jogo “O Gui”, o Rodolfo, um jogo da Science4You, o teu Trenó, um chocolate do tamanho do Pai Natal, uma das renas do Pai Natal, um Ferb e Phineas, um País, um Cãozinho, um Microscópio, um Hamster, um Carro do meu tamanho, um Livro, um Esqueleto, um Iphone 6, um Livro, uma casa com garagem e carro e móveis e banheira apropriada para o meu Smurf, Zoomer, o Trivial Pursuit Família, Trash Packs, a roupa do Pai Natal, um Helicóptero, um Barco dos Descobrimentos, um Mapa, e o Universo.

Como diziam os desenhos animados da Europa de Leste que o Vasco Granja trazia nos anos 80: Koniec!

Pai Natal.png

Isto de crescer ainda um dia acaba mal

Avatar do autor Guilherme dos Santos Gomes, 19.11.22

O Presidente da República desvalorizou a situação no Qatar. Todo aquele desrespeito pelos direitos humanos e tal..., mas, enfim, esqueçamos isto. É criticável, mas concentremo-nos na crónica.

A época Natalícia está aí à porta, e comecei a reparar que, e citando António Mafra em “O Carteiro”, faz sentir-me infelizmente que isto já não é para mim, mas a culpa não é minha (nem do carteiro, porque o carteiro não tem culpa!), é das crianças. As crianças monopolizaram o Natal. Tudo nesta época gira à volta delas. Eu já não consigo estar a ver o Disney Junior como o interesse de um adulto a ver um documentário no Odisseia, porque de 15 em 15 minutos lá aparecem blocos publicitários de brinquedos! Não, não estou interessado nos novos “Washimals” da Crayola, muito obrigado. E são tão alucinantes! É óbvio que os miúdos ficam alienados e querem tudo! E no final de contas, quem é que sai a ganhar no meio desta festa do consumismo? São as crianças... e os acionistas da Concentra e da Giochi Preziosi.

Mas não foi para me irritar com as crianças que vim até aqui (aliás, eu não vim até lado nenhum. Eu estou no meu quarto...). Foi, sim, para refletir quanto ao crescimento. Ser criança é sempre muito giro. Ainda que na altura não nos apercebamos disso (até porque ainda não temos a maturidade para nos apercebermos disso), a verdade é que esses são os melhores anos para se viver. E atenção! Devo frisar que ser criança é que é a melhor coisa do Mundo, não são as crianças a melhor coisa do Mundo! A melhor coisa do mundo são aquelas garras para coçar as costas. É importante fazer esta distinção. Enquanto infantes, mal podemos esperar para crescer! É-nos impossível aproveitar o momento, que a vida de adulto parece infinitamente mais interessante (se bem que isto de não se conseguir aproveitar o momento é um bocado transversal a todas as idades. Carpe diem!). Da perspectiva de uma criança, os crescidos têm sempre as coisas mais fixes. Por exemplo, quando eu era pequeno, casacos com bolsos internos eram quase ficção científica! Algo apenas acessível aos adultos. Tantos lugares para meter coisas. Aquelas jaquetas tinham potencial para transportar o que quer que fosse, desde brinquedos, a doces, até mesmo terra e pedras. O céu era o limite, as possibilidades eram infinitas! Hoje, é quase certo que qualquer casaco que eu compre tem desses bolsos, e não lhes dou grande uso. Perdeu-se um bocado a magia, não vou mentir... Outra coisa que seguia a mesma lógica eram as sapatilhas com atacadores. A mim só me havia sido apresentado o velcro (que atenção, é a melhor invenção de sempre!). Só que neste caso, não me importava de continuar com ele. Apertar os atacadores dá muito trabalho! E eu, que pensava que para subir na vida era preciso usar sapatos de homem! Mas estou mais ou menos na mesma. E aquele nó. Ai, aquele nó! O que me custou a aprender a dar aquele nó! O sangue, o suor e as lágrimas que eu soltei! Por acaso não foi nenhum, mas vocês perceberam a ideia...

Mas as vantagens de ser criança não param por aqui. Quem não sente saudades de chegar da escola, ainda a tarde era, como nós, uma criança, e pensar “Humpf! Hoje não vou fazer nada para além de sentar o cu no sofá e assistir aos desenhos animados ou às séries juvenis do Disney Channel, até porque ainda por cima hoje é sexta-feira e dá o ‘We Love Sextas’.”? Por acaso muita gente, até porque quando grande parte da população do nosso país não tinha idade para ter juízo, só havia dois canais e das duas, uma: ou se esperava que o Vasco Granja trouxesse os bonecos (ou como diziam as avós, “os macacos”. Por falar nisso, tenho que perguntar à minha avó porquê “macacos”) ou então gramava-se com o “Duarte e Companhia”, “O Barco do Amor” ou “O Justiceiro”, que até nem são programas nada maus!

Chegou a hora da despedida. Deixar apenas um aviso ao meu público infantil (que é practicamente, para não dizer completamente, inexistente): aproveitem a vossa idade enquanto a têm... e não peçam a “Fábrica de Sabonetes” da Science4You ao Pai Natal. Vocês vão usar isso para aí uma vez, e dois dias depois do Natal já vai estar a ganhar pó numa prateleira, como o Wheezy no Toy Story 2. Adeus!

wheezy.png

 

Trabalhos de Casa #5: “Quando estou doente”

Avatar do autor Guilherme dos Santos Gomes, 12.11.22

Eu até estava para pegar num texto de uma carta ao Pai Natal que eu tinha aqui no caderno do 3.º Ano, em protesto pelo facto de já andar a passar o anúncio da Popota deste ano (não só porque AINDA É MUITO CEDO, mas também porque eu desdenho a Popota e acho que a Leopoldina lhe dá 15 a 0!), mas encontrei esta enorme pérola! Do dia 27 de Novembro de 2014, um ensaio sobre da doença, do sofrimento e dos jogos de computador, a redacção “Quando estou doente”:

Quando estou doente fico em casa, na cama. Posso distrair-me a ver televisão, ou a ler um livro, mas fora isso só dormindo é que estou bem.

Normalmente é a minha mãe que trata de mim, mas se o meu pai estiver em casa são os dois.

O mês em que eu fico mais constipado é em novembro.

Fico na cama todo o dia, e, só me levanto quando preciso de alguma coisa!

Mas naqueles dias mesmo horríveis, quando estou com diarreia, a vomitar ou mesmo enjoado tenho que ir ao hospital e tomar charopes ou antibióticos que sabem mal e cheiram bem ou a mofo.

Pelo lado positivo, fico na cama, descansado e até posso ir ao computador jogar jogos à Internet.

Espero não ficar mais vezes doente este ano.

Vamos a isto: temos, então, a caracterização do estado de engripado do meu eu de 8 anos. Antes de mais, adoro a certeza com que eu digo que o mês em que fico mais constipado é Novembro. Digo-o como se estes resultados fossem fruto de um estudo, com recolha de dados ao longo de vários anos, que permitisse concluir que sim, o mês com o maior pico de casos de gripe na minha pessoa é o mês de Novembro. Se bem que, e partindo do princípio que eu não levei a cabo estudo nenhum (o que é falso, como acho que já foi possível perceber), os dados que eu apresento, a nível estatístico, estão incorrectos. Segundo o site do SNS, o pico de casos de gripe em Portugal ocorre entre Dezembro e Fevereiro, de maneiras que é possível concluir que o Guilherme de 2014 era um veículo de desinformação desenfreado, chegando, acredito, a representar um perigo maior para a sociedade que os “Médicos Pela Verdade”.

Depois, falo naqueles dias de doença mesmo horríveis, que são, e parafraseando-me, “quando estou com diarreia, a vomitar ou mesmo enjoado”. Repararam na ordem e na ênfase que eu dou a cada um dos sintomas? Tendo em conta a maneira como a frase está formulada, a ideia que passa é que eu ponho a diarreia e os vómitos atrás dos enjoos na tabela dos “Piores Sintomas da Gripe”. Pois, porque estar, como diz o povo, “tonto”, é pior que (e agora desculpem-me, mas vou ser um bocadinho visual) ter o nosso recto transformado nas Cataratas do Niágara!... só que em vez de água, é cocó... se calhar já tinha passado essa ideia, não precisava de ter especificado que era cocó... mas porque é que eu ainda estou a falar no cocó? Vamos seguir em frente, é melhor. O cocó que fique para trás!

Para terminar, eu vejo o lado bom desta situação, o copo meio-cheio (e agora já não estou a falar de cocó), mas abordo-o como se fosse um delito que eu estava a cometer. Porque quando eu estava doente, para além de ficar na cama a descansar, eu chegava até a jogar jogos na Internet! Uh! Que perigo! De repente, o Friv e o 1001Jogos transformaram-se nos casinos de Vegas, e eu num temerário apostador. Ou então não é nada disto, e sou eu que estou a divagar um bocado nas minhas próprias palavras. É capaz de ser mais isso, é... Pronto, ficamos assim. Dia 19 há mais. Beijinhos (ou então, em vez de “Beijinhos”, um sinónimo que estava no Priberam: “Amolgadelas”)!

diarreias.png