A Nova Virtualidade das Mesuras
Guilherme dos Santos Gomes, 08.10.22
Já viram aquele anúncio da Wallapop, ou lá o que é, em que o rapaz se está a mudar e diz aos pais “Volto no Natal”? Completamente irrealista! Hoje em dia já ninguém consegue sair de casa dos pais antes dos 50!
Cá estamos, não é? Mais um dia, e tal. Pois... Bom, vamos à ordem de trabalhos: o que é que eu tenho hoje para propor (vá, não diria propor. Talvez impôr se aplique melhor, porque vocês ainda não têm nenhum voto nesta matéria)? Mais um bocadinho de indignação, talvez um pouco de irritação e, quem sabe, até mesmo repúdio. Não prometo nada, mas pode ser que sim. E tudo isto devido a uma práctica que me faz fervilhar o âmago: aquelas mensagens de “Bom dia!”, “Boa tarde!”, “Bom fim-de-semana!” que as pessoas teimam em mandar umas às outras e em grupos de WhatsApp. Porquê? Para quê? Quem é que teve esta ideia?
Estas saudações comerciais de algibeira costumam consistir numa imagem, normalmente com dimensões 1:1 (um quadrado, no fundo), de um santo, ou de um gatinho, ou com um desenho muito bonito de uma menina, etc. Quando são imagens gif (e sim, lê-se “guif”, não “jif”), tendem a ter uns textos com umas letras muito psicadélicas, estupidamente brilhantes, a piscar. Parece que têm o Natal todo metido lá dentro. Deve ser uma delícia para os epiléticos! Porque essa é outra, os textos. São muito pirosos. São demasiado optimistas e carregados de esperança. A vida não é assim tão boa e maravilhosa. O que é que a gente costuma fazer? Levanta-se, prepara-se, vai trabalhar, trabalha ali forte, volta para casa, faz o que tem a fazer e deita-se. Não há assim muito espaço para acontecer coisas incríveis, sejamos sinceros! “Esperançoso, foi assim que o meu coração amanheceu. Acreditando que tudo de bom vai acontecer. Que tudo vai dar certo, pra mim e pra você.”. Quem é que se dá ao trabalho de fabricar esta porcaria? Eu acho que se pedissem ao Chagas Freitas para escrever uma coisa destas, ele dizia “Peço imensa desculpa, mas é muita piroseira para mim!”. Acho que o Gustavo Santos preferia deixar de se amar a escrever isto! Nem o Raul Minh’alma era capaz de descer tão baixo, pá! Eu acho que eles devem forçar aquelas criancinhas indonésias que fazem as sapatilhas da Nike a escrever isto. Eu preferia ser vergastado a ter que bolsar uma frase desta qualidade! O problema é que há mais, e é aqui que eu tenho potencial para chocar pessoas. E é assim que entramos no “Tema Mais Gran...”. Desculpem! Isto é do Batáguas. Já agora, Batáguas, tu merecias aquele Globo mais que ninguém!
Apresento-vos um dos tipos de frase mais popular: “Bom dia... Que Deus te abençoe, te guarde, te cuide, te proteja, te livre e te dê um lindo dia de Domingo!”. Ora bem, vamos lá ver uma coisa. Eu, pessoalmente, não gostaria de ser protegido por Deus. E porquê? Vamos a estatísticas. Na Bíblia (no Antigo Testamento, em que Deus era uma entidade impiedosa que levava a cabo um massacre só porque lhe apetecia, porque estava aborrecido e porque podia) estão contabilizadas, pelo menos, 2552452 mortes por parte do Todo-Poderoso. Por Satanás, 10. E a mando de Deus! Tendo isto em conta, eu chego à conclusão que o Lucy (é Lúcifer, mas os amigos chamam-lhe Lucy) é melhor companhia para as tainadas que o Altíssimo. Eu não temia a Deus (até porque sou ateu), mas se calhar vou começar a fazê-lo. Não, se calhar não vou... De que é que eu estava a falar, mesmo? Ah, das mensagens de Bom Dia! É pá, parem com isso, que isso é chato como o caraças! É que ainda por cima a malta insiste, e continua a mandar! Façam um favor à sociedade e estejam quietinhos. Se querem dizer alguma coisa, escrevam-na mesmo. Custa muito chegar ao teclado e pôr “Boa noite!”? São só 10 carateres! Vá lá.
E pronto. Antes de me ir, queria só mandar um beijinho para os primos da França. Para os vossos, que eu não tenho lá ninguém! Adeus!
