Sacros Relatos Balneares
Guilherme dos Santos Gomes, 30.09.23
(A acção passa-se num estúdio de televisão. Estão em cena o apresentador e o entrevistado, um velho senhor.)
Apresentador – Boa noite! Bem-vindos a mais um “Relatos da Vida do Nosso País”. Hoje, temos connosco o senhor João Ezequiel, que nos vai relatar alguns eventos da sua vida. Não é verdade, Sr. Ezequiel?
Ezequiel – É verdade, sim senhor!
Apresentador – Pode-nos contar uma situação, então?
Ezequiel – Com todo o gosto! Ora bem: eu vivi muitos anos no Porto, num convento de freiras, que eu sou consagrado. Uma vez, um padre, que por acaso era um grande amigo meu – bom homem, porte atlético, cerca de 1,85m, mais coisa, menos coisa – vira-se para mim e diz-me: “Ezequiel, vamos à praia.”. E eu viro-me para ele e digo “Vamos, sim senhor, Sr. Padre!”. E fomos. Estávamos os dois na praia quando passa um grupo de garotas, e diz-me assim o Sr. Padre: “Ó Ezequiel, olha que moças tão boas!”. E eu viro-me para o Sr. Padre e respondo-lhe: “São boas, mas não são para nós.”. E qual não é o meu espanto quando o Sr. Padre se vira para mim e, com um olhar feroz me começa a destratar de todas as formas e feitios! Filho desta, filho daquela. Disse-me coisas sobre a minha mãezinha que eu até depois vim a saber que nem eram verdade, nem correspondiam com a realidade da veracidade dos factos! Veja lá a situação!
Apresentador – Realmente, uma situação complicada. Tem mais histórias para nos contar?
Ezequiel – Tenho, sim senhor. Ora, depois daquela situação eu pensei: bom, isto não pode ser assim! Eu aqui não estou bem! E fui viver para os lados de Coimbra, para um convento de freiras – que eu sou consagrado, não sei se já tinha dito. Certo dia, estava eu a podar uns arbustos que havia à frente do convento, e vem um padre, que por acaso era muito meu amigo – costumávamos dormir na mesma cama, por vezes, até – e diz-me assim: “Ezequiel, vamos à praia.”. Eu olho para ele de cima a baixo, que até me arregalei, e respondo-lhe: “Vamos, sim senhor, Sr. Padre.”. E lá fomos os dois. Estávamos na praia e passa por nós um grupo de seis ou sete jovens surfistas, e vira-se para mim o padre e diz-me: “Olha que jovens surfistas tão bons!”. Eu ouço isto e digo-lhe: “É verdade que são bons, Sr. Padre, esse mérito ninguém lhes tira, mas não são para nós!”. O certo é que isto deixou o padre chateadíssimo, e começou-me a tratar mal, mas mal! Mandou-me para sítios que eu, inclusive, desconhecia a existência, e que entretanto já me tentei inteirar de qual é a melhor forma de ir para lá, e até agora muita gente reforçou a ideia que eu devia para lá ir, mas a verdade é que ainda ninguém me soube dar nenhuma indicação clara. Essa é que é essa!
Apresentador – Pois... E há mais alguma passagem que gostasse de nos contar?
Ezequiel – Há, sim senhor! Depois da situação imediatamente anterior, eu pensei de mim para comigo: “Bom, tenho que mudar de ares, que isto assim não pode ser!”, e emigrei para a Alemanha. Alojei-me num convento de freiras – que eu sou consagrado – e estava tudo a correr muito bem. Determinado dia, estava eu na sanita a fazer o que mais ninguém pode fazer por nós, e entra um padre, que era um grande amigo do coração – e inclusive, campeão regional de fisiculturismo, que aquilo tinha um glúteo de dar inveja a qualquer um – e diz-me: “Ezequiel, vamos à praia.”. Eu olho-o bem fundo nos olhos dele e digo-lhe assim: “Vamos, sim senhor, Sr. Padre. Deixe-me só acabar de limpar o cu.”. Creio que foi assim que eu disse. E lá fomos à praia. A dada altura, passa por nós um bando de gaivotas, e o padre sai-se com esta: “Ezequiel, olha que gaivotas tão boas!”. E eu recebo isto com algum espanto, que nunca tinha ouvido um padre com aquele tipo de conversas, e respondo-lhe: “São boas, devo dizê-lo, mas não são para nós!”. O padre olha para mim horrorizado, como se eu lhe tivesse chamado corno ao pai ou vaca à mãe, e começa a chamar-me de cada coisa, que eu até fiquei parvo a olhar para aquilo! E ainda por cima em Alemão, que é uma língua em que tudo fica a parecer mais agressivo, inclusive o “Ich liebe dich”!
Apresentador – São histórias intensas, lá isso são. Estamos quase a terminar. Tem mais alguma que nos possa contar, para fecharmos?
Ezequiel – Tenho mais uma, tenho. Posso?
Apresentador – Pode.
Ezequiel - Pronto. Alguns anos depois de ter emigrado, cansei-me daquilo, e voltei para Portugal. Quando voltei, fui viver para um convento de freiras, lá para os lados de Sesimbra – que eu sou consagrado, não sei se o senhor sabe. Uma ocasião, eu estav... não, minto... (hesita uns segundos) não, exacto... eu estava, e veio um padre, que era muito meu amigo. Dávamo-nos muito bem, costumávamos jogar às escondidas todos nus, pelo convento; volta e meia ele lá me fazia um exame à próstata, que ele dizia que sabia (e sabia, deixe-me que lhe diga!), tudo muito bem! Veio o senhor padre e disse-me: “Ezequiel, vamos à praia.”. Tentado por este convite, eu vi-me quase obrigado a dizer: “Vamos, sim senhor, Sr. Padre.”. E fomos. Passado um bocadinho de lá termos estado, passa à nossa frente um grupo de crianças do grupo coral da paróquia, e diz-me assim o Sr. Padre: “Olha que crianças tão boas!”. E eu viro-me para ele, espantado, e respondo-lhe: “É verdade, Sr. Padre!”.
Apresentador – É só isso?
Ezequiel – É. Que mais queria o senhor que fosse?
Apresentador – Nada, nada. Foi o nosso programa de hoje. Obrigado por terem estado connosco! Até para a semana!
