A Bela Arte do Não Fazer Nenhum
Guilherme dos Santos Gomes, 08.09.22
Então não é que morreu a Isabel II? Nunca pensei que fosse dizer isto em vida! God didn’t save the Queen...
Decidi tirar o dia de hoje para “ficar de molho”. Estou voluntariamente a não fazer a ponta de um chavelho, sem uma justificação aparentemente válida para isso. Simplesmente não me apetece. Porque às vezes precisamos de alguns momentos de paz e relaxamento. A sensação de liberdade que adiar as nossas responsabilidades “só porque sim” nos transmite é verdadeira e extremamente sui generis! Ai, que ele usa vocabulário em latim! Nem sei se está bem colocado, mas não pude perder a oportunidade de fingir que sei coisas.
Isto de ficar sem fazer nada permite-me, entre outras coisas, levar a cabo acções que são designadas por alguns dos melhores e mais fascinantes verbos da Língua de Pessoa (não mesmo da língua, até porque isso seria nojento, ainda mais sabendo nós do alcoólatra que ele era). Passo dias como estes a preguiçar, jiboiar, procrastinar, vagabundear. Pode-se até dizer que estou a vampirizar a minha pessoa! Verbos simplesmente incríveis! No entanto, e agora fazendo um parêntesis: ( ); nenhum deles chega aos calcanhares daquele que é o meu verbo favorito, o estupidamente específico “Defenestrar”. Quem diria que o acto de atirar algo por uma janela iria ter um termo para o designar... Realmente o Português é espectacular!
Outra vantagem deste estado de vegetação consciente é poder andar de pijama. O pijama é o conjunto de peças de vestuário (ou peça única) mais simples e, no entanto, mais práctico e confortável. E para além disso, é menos roupa que se suja, menos máquinas de roupa que são postas a lavar, mais água e energia que são poupadas. É bom para o ambiente, por causa da situação de seca que atravessamos; é bom para a economia, por causa da crise energética; e é bom para nós, porque deixamos de precisar de pedir empréstimos para pagar as contas no final de cada mês. Ainda assim, a minha mãe embirra comigo para que eu vista uma roupa “minimamente decente”. Vá-se lá entender os adultos!
Ainda outro proveito que é possível retirar daqui é o não ter que se fazer a cama. Aliás, “fazer a cama” é um conceito estúpido. A cama, em si, está feita. Aquilo que nós estamos a fazer é somente a ajeitar a roupa de cama (lençóis, edredons e mantas) e seus acessórios (almofadas, peluches, velhinhos, etc.). No outro dia eu acordei (que é algo que eu faço com relativa frequência) e concluí que fazer a cama é dos esforços mais inúteis que a lida da casa nos proporciona. Porque pensem comigo: para que estamos a compôr e a embelezar algo que mais tarde vamos tornar a destruir? Para quê as almofadas decorativas, as mantinhas e os peluchezinhos? Aquilo é tudo para sair! É que ainda por cima é cansativo. Dar-me-ia mais gozo desinfectar as sanitas do Estádio do Jamor com a língua do que ajeitar os lençóis do meu leito. E podem vir com o argumento de que “E se vierem visitas a tua casa? É uma vergonha!”. Queridos, eu não costumo levar visitas para o meu quarto (o que, por vezes, é um tanto quanto deprimente). Para receber visitas existe a “Sala de Estar” que, como o próprio nome indica, é uma sala onde se está, habitualmente durante longos períodos de tempo. E vocês dizem “Pois, mas por essa lógica também não se limpava o pó, se é para sujar outra vez!”. Exacto, mas isso já é estúpido, porque há a questão da higiene e da saúde pública, e porque são vocês que estão a dizer e não eu.
No entanto, nem tudo é um mar de rosas. Um dia destes é suficiente para que a nossa saúde seja seriamente afectada. Quem nunca, depois de ter passado algumas horas na cama, se levantou e ficou zonzo, reparou que tinha as pernas dormentes e a bexiga a estoirar pelas costuras? Pois. O problema é que isto de permanecer deitado é como a comida de plástico: sabe bem, mas faz mal. Acho que me vou deitar outra vez, que já estou a ficar cansado... Adeus!
