Ide abreviar para a vossa casa!
Guilherme dos Santos Gomes, 04.02.23
A irmos pelo sentido das palavras, se um invisual é alguém que não consegue ver, quer isso dizer que na Índia é sempre de noite...
Estou aqui, mais uma vez, para exteriorizar amargos sentimentos acerca de assuntos vários. Hoje, venho-vos falar da falta de rigor e de tacto com que as pessoas têm vindo a manusear a língua portuguesa, pelo menos no que à Internet diz respeito. É com muita pena que assisto à agonia daquilo que é o bem-escrever do nosso magnífico idioma. Já não tinha bastado o Malaca Casteleiro, pois não (já ninguém sabe quem é o Malaca Casteleiro...)? Custa-me, juro que me custa. E a essas pessoas também parece que custa alguma coisa, mas é a escrever. Como eu sou uma pessoa muito atenta aos grandes e preocupantes temas, vou resumir os maus-tratos que a nossa língua tem sofrido. Ei-los, então:
- O primeiro atentado linguístico que trago são, como era de esperar, os erros ortográficos em geral. Quando são cidadãos mais velhos a acometer contra a língua desta forma, e apesar de eu continuar a não respeitar, eu até entendo, porque antigamente a taxa de analfabetismo era altíssima. Basta lermos cartas de soldados da I Guerra Mundial, ou mais recentemente, da Guerra Colonial, e damos com cada bacorada que valha-nos Nosso Eça de Queiroz! Chega-me a dar vómitos! Mas pronto, era gente com poucos estudos, é normal que, tentando passar o que era dito oralmente para o papel, e sabendo que mesmo o discurso não era dos melhores, houvesse muitas falhas no texto. O problema é quando são jovens a cometer os mesmos ou até erros de pior calibre! Porque hoje em dia já não há a desculpa da iliteracia! Toda a gente tem que passar por, pelo menos, 12 anos de estudo da língua materna! E, mesmo assim, se abrirmos uma rede social, somos bem capazes de dar de caras com “Fizes-te” ou “Fizestes” em vez de “Fizeste”, “Hades” em vez de “Hás de” ou o uso e desuso indiscriminado de “Há” com e sem H. Isto é nojento!
- Outra violação da Língua Portuguesa, que eu também abomino com todo o meu ser, são as abreviaturas de palavras. Eu sei que antigamente, quando as SMS eram pagas ao caracter, era importante poupar quantas letras fossem possíveis. Eu sei, não precisam de mo dizer. Mas isso, lá está, era antigamente. Hoje, não há essa necessidade. Então, porque raio é que as pessoas continuam a abreviar palavras? Porquê dizer “bjs” e não “Beijinhos”? Porquê dizer “nnc” e não “Nunca”? Porquê “k” em vez de “Que”? Porquê “n” ao invés de “Não”? É que, ainda por cima, hoje há, nos telemóveis, uma barrinha de sugestões com palavras que possamos querer usar naquele contexto. Nem é preciso escrever a palavra toda, basta clicar ali! Então porque é que continuam a mandar mensagens codificadas? E não sei se já repararam, mas as letras que, por hábito, são descartadas, são sempre as vogais! Qual é o vosso problema com o “A”, o “E”, o “I”, o “O” e o “U”, seus Hooligans? Ao passo que, durante o período Barroco, havia um movimento alternativo de pessoas que tinham “horror ao vazio”, agora há um de pessoas com horror às vogais! Sugiro até um nome para ele: “rcc”. Espero que gostem, seus animais!
- Outra situação que também me chateia imenso é a falta de pontuação nas frases. Será que pedir para que se coloque a pontuação adequada em cada sentença é pedir de mais? Porque se, por exemplo, eu receber uma mensagem de alguém a dizer “fulano tal vai à festa” e essa frase não tiver nenhuma pontuação no fim, como vou eu saber se se trata de uma frase declarativa ou interrogativa? Não sei! Por isso, como é que respondo? Com um “Sim.” ou com um “Está bem.”? Não tenho razão no que estou a dizer? Por exemplo, nesta última frase que escrevi, se não tivesse colocado o ponto de interrogação, vocês iriam ficar com a ideia de que eu me estava a contradizer no meu discurso, dizendo que afinal não tinha razão no que estava a dizer, e iam ficar a pensar que afinal sou estúpido, o que é falso!
- Para terminar, outra coisa que eu acho muito parva. Porque raio é que as pessoas, quando estão a escrever algo e desejam dar a ideia de que estão a prolongar o som de uma palavra, escrevem sempre a sua última letra repetidas vezes, quando na realidade nunca ninguém articula realmente a última letra de forma prolongada? Aquando da articulação de um vocábulo, o som que surge prolongado é sempre o correspondente à sílaba tónica, nunca o de uma das átonas! As pessoas dizem "fiiiiiixe!", não "fixeeeeee!", mas a triste realidade é que quando estão a escrever optam sempre pela segunda opção...
É tudo. Por hoje, já destilei demasiado ódio e frustração. Vamos acabar por aqui. Até para a semanaaaaaa!
